Excesso de notificações e discussões são os inimigos da vida digital, diz autor

Por Gustavo Abreu , iG São Paulo | - Atualizada às

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No livro "Conecte-se ao que importa", jornalista abre debate sobre comportamento digital. "As manifestações mostraram como é possível colocar o pais todo na mesma pauta"

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Pedro Burgos, 33, foi editor do Gizmodo Brasil e colabora para a "Superinteressante" e "Galileu"

Durante uma viagem de Ano Novo, Pedro Burgos, 33, percebeu que sua paixão pela web estava passando dos limites aceitáveis no ambiente social. “Eu ficava irritado quando estava sem conexão, achava um absurdo quando o 3G não funcionava”, ele conta. O celular não parava de apitar e as threads de comentários não tinham fim. “Notei que meu comportamento obsessivo com a tecnologia tinha consequências ruins."

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Uma delas foi uma suspeita de hérnia cervical, de tanto Pedro olhar para baixo. “Eu contava minhas histórias, sobre viagens, e no final não tinha muita conversa com as pessoas pois já tinha explicado toda a minha vida online”, ele diz.

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Dessas frustrações surgiu a ideia de pesquisar o assunto, pouco discutido no Brasil, mas que já preocupa muita gente -- segundo o IBOPE, 95% dos jovens internautas brasileiros, entre 15 e 33 anos, se consideram viciados em tecnologia.

“Comecei a ler sobre o assunto e vi que lá fora existe uma discussão avançada sobre isso. Resolvi juntar esses estudos e opiniões e praticar comigo, para ver se minha vida melhorava.”

O resultado da pesquisa -- para ele uma espécie autoterapia -- virou o livro “Conecte-se ao que importa - Um manual para a vida digital saudável”, lançado recentemente pela editora LeYa, já disponível em algumas livrarias e também online pelo Google Play, Amazon e Livraria Cultura.

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O título traz dados e opiniões do autor sobre como tirar proveito da tecnologia, mas sempre mantendo uma relação saudável com ela. Entre os assuntos debatidos estão a privacidade nas redes sociais, jogos viciantes como o Candy Crush, e polêmicas no meio da tecnologia, como o Google Glass.

Ao iG, Pedro, que já foi editor do Gizmodo Brasil e colabora com revistas como “Superinteressante” e “Galileu”, fala sobre vício em internet, os brasileiros nas redes sociais e a aproximação do mundo digital e do real:

iG: Para você o que é insalubre na vida digital?
Pedro Burgos: Eu posso destacar duas coisas. A primeira é o excesso de notificações. Se você não configurar bem as redes e o smartphone, toda hora vai receber uma campainha dizendo que alguém te deu um like ou retweetou uma mensagem, ou falou no grupo do WhatsApp. O funcionamento dessas notificações é parecido com o do jogador de jackpot no cassino. No nosso cérebro, a relação com a dopamina é muito semelhante nos dois casos. Para mim, um dos primeiros passos da “desintoxicação” seria configurar melhor as notificações. Outra coisa complicada é o tanto que a gente se envolve em discussões bestas. Eu já vi amizades sendo abaladas por causa disso. Quando a gente discute online, se perdem muitas nuances do discurso. A gente escreve menos do que fala, as próprias ferramentas privilegiam textos pequenos, então nossas discussões acabam ficando superficiais. Em ano de eleição isso fica até mais complicado.

iG: O que mais te surpreendeu durante as pesquisas?
Pedro Burgos: Um dado razoavelmente consensual entre os pesquisadores é que existe uma coisa que as pessoas chamam de “déficit de empatia”. Isso tem a ver com as nossas ferramentas. A partir do momento que a gente vive a realidade muito imediata, começa a privilegiar as conversas onlines, a gente tende a não ficar tão bom no notar o ponto de vista ou o sentimento, sofrimento do outro. Temos uma dificuldade de enxergar o outro de uma maneira geral. Isso gera outros problemas, como a limitação. Você começa a ler só o que te interessa e não consegue enxergar a validade de um ponto de vista diferente, por exemplo.

iG: Em tecnologia, o Brasil vira mercado para tudo. Aconteceu com o Orkut, que só foi relevante aqui, e agora também acontece com Instagram, Tinder, etc. Por que o brasileiro se envolve tanto com novas tecnologias e redes?
Pedro Burgos: Tem alguns componentes. O fato do brasileiro abraçar todo mundo tem a ver. O brasileiro tem uma tendência de ser mais social em todos os níveis, tem mais amigos que a média, e isso é intensificado nas redes. Mas eu queria chamar atenção para uma coisa que nunca é lembrada, que é a baixa produtividade. O brasileiro passa muito tempo nas redes sociais durante o horário de trabalho. Para qualquer site, de qualquer cosia, o pico de acesso é em horário comercial. Se você lançar um vídeo do “Porta dos Fundos”, o auge de cliques vai ser durante o horário que as pessoas deveriam estar trabalhando. Eu acho que somos menos regrados que em outros países, onde as pessoas separam o trabalho e o social. Já conversei com chefes de TI de multinacionais e se, por exemplo, em algum lugar como a Inglaterra você bloquear o Facebook no trabalho, as pessoas vão acham tudo bem, pois isso não está na “job description” delas. Mas aqui as pessoas fazem escândalo se a TI ameaçar fechar qualquer coisa, dizem que é censura.

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Capa do livro "Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável"

iG: Segundo dados da Universidade La Salle, nos Estados Unidos, o Brasil possui 4,3 milhões de viciados em internet. Como você enxerga esse problema?
Pedro Burgos: Existe uma discussão grande se esse termo “vício em internet” é correto. No livro eu rejeito isso. A gente, por enquanto, ainda vê a internet como uma coisa separada. Talvez num futuro distante a gente vai passar a encarar a internet como a olhamos para a eletricidade. Ninguém é viciado em eletricidade. Você pode ser viciado em TV ou videogame, mas não nela. Você não pode dizer que um cara que trabalha fazendo pesquisa online é viciado em internet. Quando você reduz a coisa ao vício, fica dificil de atacar a causa, ou o tipo de comportamento. Poucos países usam essa classificação, a maioria orientais, como a China ou a Coréia. A Biblia dos Psicólogos, que foi atualizada ano passado, não incluiu internet como um distúrbio psiquiátrico, mas deve estar como um transtorno obsessivo. Uma pessoa que fica muito tempo na internet provavelmente tem outro tipo de problema.

iG: Há quinze anos, quando a internet começou a se popularizar, ainda existia uma separação do virtual e do real, quase que como nos filmes “Matrix”, quando o personagem entra na máquina e passa a viver uma realidade que só existe no digital. Mas hoje parece ser tudo uma coisa só. Você acredita na separação?
Pedro Burgos: Não existe mais essa distinção [entre o real e o virtual]. É só você ver como as pessoas, os jornalistas, tratavam as notícias de internet [na época]. Antes se falava em “cyberespaço” e “internauta”, que é quase como “astronauta”, uma pessoa que está explorando. O próprio termo “navegar” parece que você está explorando um território desconhecido, onde você tem “amigos virtuais”. Existiu uma série de termos para dizer que do computador pra dentro era uma outra história. Mas hoje em dia não. Quando você tem uma conversa, você não precisa diferenciar se foi no chat ou pessoalmente, pois tudo aconteceu no mesmo mundo.

iG: Você vê isso como positivo ou negativo?
Pedro Burgos: Tem os dois lados. Quando a gente trata a internet como uma coisa separada, como “vício em internet”, fica difícil de identificar os problemas reais. Por exemplo, quando se fala em problema de “troll” ou “cyberbullying”... Não tem isso. Existe um problema de gente mal educada e existe um problema de bullying. “Cyberativismo” é ativismo também. Por acaso ele está sendo manifestado na internet. Por outro lado, o que me preocupa é que se você para para pensar nos momentos que você tem as lembranças mais vívidas da vida, todos os momentos vão ser offline: um jantar, uma viagem. E é óbvio, porque experiências multissensoriais ficam mais fixadas na nossa memória e ajudam a formar nossa personalidade. Minha questão é que quando você pega essa representação de coisas reais no mundo online, você deixa em segundo plano coisas que são importantes.

iG: Você acha que existe uma diferença entre os jovens que cresceram antes e os que cresceram depois da banda larga, que foi quando passamos a ficar conectados o tempo todo?
Pedro Burgos: Eu gosto de uma distinção que é a migração do computador pessoal para o computador íntimo. Antes o computador ficava no centro da sala e mal tinha conexão, todo mundo usava o mesmo, e agora a gente carrega no próprio bolso e fica conectado o tempo todo. Isso mudou muito a nossa relação com a tecnologia. Eu acho que os mais jovens adotam as ferramentas mais rapidamente, mas isso não quer dizer que eles usem melhor ou mais que os outros. Os caras mais viciados que conheço têm 40 anos, antes estavam no BlackBerry e agora estão no iPhone. E até vejo que os adolescentes estão começando a ter uma reação, como é o próprio Snapchat. Isso mostra que eles querem um espaço próprio.

iG: Em 2013 o assunto do ano no Brasil foi a mobilização do Passe Livre, que se articulou pelas redes virtuais e resultou no que vimos na rua, na TV, nas hashtags. Como você enxerga esse episódio?
Pedro Burgos: Redes e pessoas se articulando em redes para fazer coisas grandes sempre aconteceu. A questão é que aumentou muito a rede. O mesmo está acontecendo agora com o rolezinho. O rolezinho sempre existiu, desde quando eu estava na quinta série eu dava rolê no shopping com os amigos, mas hoje em dia você consegue amplificar isso e o movimento passa a ser grande e até ameaçador pra algumas pessoas. Mas em última instância ele não mudou fundamentalmente a discussão original. O que aconteceu no ano passado mostra que é muito fácil todo mundo falar sobre o mesmo assunto ao mesmo tempo. Isso acaba gerando alguns efeitos. Ir para a rua é apena um deles, mas poderia ser só um meme ou um rolezinho. As manifestações mostraram como é possível colocar o pais todo na mesma pauta através da rede. Mas ao mesmo tempo mostrou que a gente ainda tem que evolui um bocado. Agora já se passaram seis ou sete meses e não tivemos nenhum grande avanço na política fora a revogação dos vinte centavos.

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