Thalita Rebouças: “Eu queria ser a JK Rowling”

Após vender um milhão de livros, Thalita Rebouças faz um balanço da carreira e fala sobre assuntos comuns para os jovens como a primeira transa e bebida na adolescência

Luisa Girão, iG Rio de Janeiro |

Isabela Kassow
Thalita Rebouças já lançou 12 livros e vendeu mais de 1 milhão de cópias
Faz uma década que a escritora Thalita Rebouças subiu em uma cadeira na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e começou a gritar: “Gente, eu sou escritora. Estou aqui para mostrar meus livros, venham conhecer. Um dia vou ser famosa e vocês terão meu autógrafo!”. O impulso aconteceu depois de uma tarde inteira no estande da editora, sem nenhuma atenção do público. “Sabia que tinha um bom livro. Mas precisava ser lida”, diz. Ela conseguiu. Hoje, Thalita tem 12 livros publicados e bateu a marca de um milhão de exemplares vendidos.

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Mas o sucesso não é por menos. Aos 25 anos, Thalita abandonou a carreira de jornalista para seguir um sonho infantil: o de se tornar escritora. Com linguajar coloquial e narrativa ágil, Thalita descreve como poucos o que se passa na cabeça de uma adolescente. E hoje, ganhando 10 por cento do preço da capa de cada livro, ela é frequentemente comparada a autores best-sellers como o brasileiro Paulo Coelho e a inglesa JK Rowling, criadora de Harry Potter. “Se eu fosse o chinelo dela, já seria muito feliz”.

E Thalita está seguindo direitinho os passos da escritora inglesa. Três obras - “Tudo por Um Namorado”, “Uma Fada Veio me Visitar” e “Ela Disse, Ele Disse” - vão virar filme e o seu último lançamento “Era Uma Vez Minha Primeira Vez” será adaptado para o teatro. O que falta para a jovem escritora? “Publicar meus livros na Espanha e Itália”, responde.

Após uma temporada em Portugal, onde ela até já tem casa e publicou seis livros, Thalita recebeu a reportagem do iG Jovem em seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para conversar sobre a carreira, os sonhos e os adolescentes – assunto que ela domina como ninguém. “Acho triste que a infância esteja sendo encurtada, mas é um caminho sem volta. A gente não pode ficar se lamentando”, afirma.

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Confira abaixo o bate-papo com Thalita Rebouças.

iG: Como você se sente sabendo que bateu a marca de um milhão de livros vendidos?
Thalita Rebouças: Nunca tive uma meta de vendagem. Já achava 30 mil um número enorme. Aí, quando batemos 800 mil, pensei: ‘ah, fala sério!’. Mas, nesse momento, comecei a entender que era possível vender um milhão de livros. A partir dessa marca, veio à tona a sensação de que estou vivendo como escritora no Brasil, um sonho meu de criança.

Isabela Kassow
Thalita recebeu o iG em seu apartamento no Rio
iG: Foi difícil realizar esse sonho?
Thalita Rebouças:
Não foi fácil. São 11 anos de carreira e passei por várias situações desafiadoras. No inicio, minha família não me deu apoio e me achou louca. Tinha um emprego bom, em uma assessoria de imprensa, e ganhava muito bem para 25 anos. Eu sabia que viver de literatura era um sonho ambicioso, mas achava que podia fazer isso. Eles ficaram com medo, afinal o brasileiro não tem o hábito de ler. Mas, mesmo assim, joguei tudo para o alto.

iG: Como surgiu o desejo de ser escritora?
Thalita Rebouças:
Queria ter sido astronauta, para ter meu foguete; tive o sonho de ser dona de shopping porque queria ter um só para mim; e o desejo de ser dona de boate para poder dormir tarde. Mas enquanto tinha esses sonhos, também comecei a fazer livrinhos. Quando cresci, resolvi ser jornalista. Mas é uma profissão que não se pode inventar história. E eu queria. Comecei a pensar que o jornal de hoje, embrulha o peixe de amanhã. Mas o livro não, ele fica. Aí, o meu marido Cal (o fotógrafo Carlos Luz) me deu força para eu começar a escrever. E é por causa dele que estou aqui hoje.

iG: No seu site, você diz que é a escritora mais animada...
Thalita Rebouças:
Ah, porque eu fazia uma bagunça nas bienais. Engoli minha vergonha em prol dos meus sonhos de criança. Confesso que não é fácil subir em cima de uma cadeira em meio à Bienal. Mas quando vi que aquilo estava dando o resultado que eu queria, me desencanei. Sabia que tinha um livro bom. Mas precisava ser lida.

Isabela Kassow
Thalita Rebouças: "Sabia que viver de literatura era um sonho ambicioso, mas achava que podia fazer isso"
iG: Não pensa em escrever livros de outro estilo ou para outros públicos?
Thalita Rebouças:
Não. Acho muito bacana fazer companhia para adolescentes, que é uma fase aonde a pessoa se afasta dos livros. Nunca um adulto vai chegar para mim e falar que começou a gostar de ler por minha causa. Olha que delícia? Nunca quis ser levada a sério e nem escrevi livros para ganhar prêmios.

iG: E as comparações com o autor Paulo Coelho?
Thalita Rebouças:
Gente, nunca falei que queria ser o novo Paulo Coelho, mas as pessoas me perguntam: você se acha a nova Paula Coelha? (risos). É claro que quero vender tanto quanto ele e até brinquei que também queria ter o meu castelo. Mas quando ele ficou sabendo que falei isso, postou no meu twitter: “Thalita, parabéns pelo sucesso merecido, mas não compre o castelo. Dá muito trabalho”. Meu único contato com ele foi esse e o achei muito carinhoso. Depois disso, desisti de comprar meu castelo. (risos)

iG: E o que você acha de JK Rowling, autora de Harry Potter?
Thalita Rebouças:
Ela é incrível! Antes de Harry Potter, as pessoas tinham vergonha de admitir que liam. O que ela fez por nós, que escrevemos para esse público... Além disso, a história dela é maravilhosa e é a mulher mais rica da Inglaterra, né? Tirando a rainha, claro. Eu queria ser a JK Rowling. Se eu fosse o chinelinho dela, já estaria feliz.

iG: Qual é o seu sonho de consumo?
Thalita Rebouças:
Quero publicar na Itália e na Espanha. Algumas editoras me sondaram, mas quero algo parecido com o que temos em Portugal, que está indo superbem. Procuro uma editora que distribua bem os títulos.

Isabela Kassow
Thalita Rebouças: "sabia que viver de literatura era um sonho ambicioso, mas achava que podia fazer isso"
iG: Este ano você está lançando “Era Uma Vez Minha Primeira Vez”, o 12º da sua carreira, o que fala sobre a perda da virgindade. Como foi a sua primeira vez?
Thalita Rebouças: Eu tinha 18 anos e foi bem bacana. Foi tarde para os padrões de hoje. Não foi com um cara que eu estava apaixonada, mas era um grande amigo, que eu ficava há muito tempo. Foi ótimo porque rolou muito respeito, o que é o mais importante nesse momento. Mas acho que tem meninas que estão tendo relações mais cedo do que deviam. Sempre quis escrever sobre esse tema porque é um marco importante para a vida da menina. E o engraçado é que estou descobrindo que é marcante para os meninos também. Sempre pensava que eles eram tão resolvidos e sabiam de tudo, mas não.

iG: O que você acha da fase da infância estar sendo encurtada?
Thalita Rebouças:
Acho triste, mas é um caminho sem volta. A gente não pode ficar se lamentando. Outro dia escrevi um texto no meu blog sobre uma menina de oito anos que fez uma festinha no salão de cabeleireiro, com as amiguinhas, e ela pediu para o maquiador passar mais corretivo porque odiava olheira.
Isabela Kassow
Thalita:"Quero vender dois milhões, depois mais um (risos)... Até ninguém me aguentar mais"
iG: E a questão da bebida na adolescência?
Thalita Rebouças:
Eu estou horrorizada com a quantidade de bebida que eles estão consumindo. Os adolescentes de hoje não pensam em fumar cigarro, que era moda na minha época. Eles abominam cigarro, mas adoram bebida. Ele associa o estar bêbado com desinibição. É tão perigoso. Eu ainda não escrevi nada sobre isso, mas fiz a Malu, do livro “Fala sério, mãe”, odiar bebidas.

iG: Você criou a campanha ler é bacana. O que é preciso ser feito, nas escolas, para que as crianças gostem de ler?
Thalita Rebouças:
Na escola, tive um professor de literatura que no mesmo ano que ele nos deu Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos passou o livro “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva. Que foi um dos livros que mudaram a minha vida. O segredo é misturar o clássico com o contemporâneo. Lembro que uma vez uma menina falou para mim: ‘Cara, estou lendo Dom Casmurro. Que coisa horrorosa! E, na boa, se esse Machado de Assis é o melhor escritor do Brasil, não quero ler mais’. Achei genial esse pensamento porque todo mundo diz que ele é o melhor e eu odiei a obra dele, quando tinha 14 anos. Já quando tinha 18 anos, me apaixonei. As pessoas têm que descobrir que tipo de livro gosta.

iG: Há 11 anos você vive nesse mundo infanto-juvenil. Não te dá vontade de ter filhos?
Thalita Rebouças:
Ser mãe não é minha prioridade. Não vou dizer que é um sonho porque não é. Até porque acho que é muito fácil fazer um filho e muito difícil ser mãe. Se um dia optar por colocar uma pessoinha no mundo, será para educá-la e me entregar totalmente a ela. E, nesse momento, não tem a mínima condição de acontecer isso. Imagina?! Quero vender dois milhões, depois mais um (risos)... Até ninguém me aguentar mais.


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