24/11 - 09:00 I Mostra Cultural da Cooperifa Afinal, existe essa história de literatura marginal? Eduardo Ribas
“Li uma vez que literatura é igual a desenho animado: tudo pode acontecer”, vislumbra Sérgio Vaz, um dos fundadores do sarau da Cooperifa, além de ser escritor e poeta. Essa foi uma das falas mais marcantes do segundo debate que rolou na primeira Mostra Cultural da Cooperifa. Ela surgiu para celebrar os 7 anos de existência do coletivo e contou com uma programação vasta, que teve shows, saraus, mostra de cinema, dança, feiras e exposições.
Hoje em dia classificam os livros de autores vindos da periferia como Literatura Marginal. Mas será que essa derivação deve realmente ser usada? Ferréz e Sérgio Vaz não têm qualquer problema com isso. “Tudo é rotulado”, assegura Ferréz. Sérgio completa dizendo que esse tipo de literatura é algo mais ligado à tradição oral, ou seja, das histórias contadas em cada canto da “quebrada”. No entanto, todos sabem da importância do registro dessas prosas que acontecem todo dia. “A oralidade trouxe para nós o gosto pela leitura”, conclui Sérgio Vaz.
Ferréz, por sua vez, teve o seu primeiro estímulo para ler por meio dos quadrinhos. “Tem cara que é melhor que muito escritor”, afirma o autor, que cita Alan Moore com uma grande referência até hoje para seus trabalhos. Autor de livros conhecidos, como “Capão Pecado”, Ferréz acredita que é possível existir vida antes da leitura dos grandes nomes da literatura mundial. Partindo dos quadrinhos, acabou ficando mais fácil seguir para os livros renomados. Um dos autores mais citados por Ferréz é o alemão Hermann Hesse, escritor do século 20, que virou referência para o movimento de contracultura dos anos 70.
Já para o escritor Sacolinha, que admite ter um nome peculiar, rotulá-los como escritores periféricos é algo complicado. “O que eu faço é literatura, seja ela boa ou ruim”. Além disso, Sacolinha ressalta que um morador de periferia já possui rótulos demais. Autor do livro “85 letras e um disparo”, Sacolinha tem apenas 6 anos na literatura, “tô cheirando a leite ainda”. Apesar de seus 24 anos, o autor já está em seu segundo livro e pensa em casar com sua noiva. No entanto, disse que só casa depois que tiver escrito três livros. “Essa é a primeira vez que eu vejo alguém usar a literatura como desculpa para enrolar a noiva”, entra na conversa outro grande escritor, o pernambucano Marcelino Freire.
Para Sérgio Vaz, esse rótulo não o limita. “Quem pode dizer o que eu posso e o que eu não posso?”, indaga. Para ele, esse tipo de literatura trouxe novos leitores. “Na minha quebrada, eu vendo mais que o Paulo Coelho”, pontua o escritor. No entanto, muita gente acusa a literatura marginal de ser carregada de gírias e até de não se utilizar da norma culta da língua portuguesa. “O que eu quero é me comunicar”, enfatiza Sérgio Vaz. Para Ferréz a história não é bem assim. “A estrutura está toda lá, só a forma de se dizer o conteúdo é diferente”, pontua.
Todos sabem muito bem o caminho que querem seguir, mas é Ferréz quem verbaliza. “Nossa ganância é ficar tão popular quanto o rap!”, enfatiza. A internet, hoje, ajuda e de acordo com Sérgio Vaz potencializa o que é feito nos livros, nos saraus ou até na própria mostra. Ferréz vai além, “a mídia hoje é pautada pelo que a gente diz na internet”. Todos os participantes dessa conversa têm blogs, repletos de poesia, contestação e ótimos textos. O Colecionador de Pedras é onde Sérgio Vaz se expressa. Ferréz tem um blog que leva seu nome. Sacolinha é dono do Sacola Graduado e Marcelino Freire escreve no Era o Dito. Para fechar a conversa, Marcelino Freire, que é conhecido por ser muito espontâneo, diz o que pensa de Ferréz, Sérgio Vaz e Sacolinha: “vocês são f***!”.
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