31/10 - 09:00 Pichação também é arte? Odiada por muitos e defendida por poucos, a pichação é a intervenção urbana que mais gera polêmica. Carolina Monterisi

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Quando se fala em arte de rua, a primeira coisa em que pensamos é no grafite. Os desenhos coloridos nos muros da cidade são aceitos como obras artísticas e considerados uma forma de expressão até por muita gente. Mas por que a pichação não tem o mesmo tratamento?

O visual agressivo da pichação está diretamente ligado à forma que ela é percebida. “É uma estética feita para agredir mesmo”, explica Choque, fotojornalista que documenta a arte de rua em São Paulo e registrou a intervenção dos pichadores na abertura da Bienal no domingo (26).

Para ele, a pichação funciona como uma válvula de escape para o jovem da periferia. “É uma geração das ruas. O cara quer falar, mas não sabe o que, ele não teve acesso à educação”. Dessa forma, a pichação vira uma forma de comunicação fechada, pois não faz questão de ser entendida. “O cara foi excluído da sociedade e, agora, quer que ela seja excluída”, explica.

O valor da pichação

Se a pichação não quer agradar pela estética, qual é o seu valor? “O legal é ver o risco que o cara teve, o quanto ele tá disposto a arriscar pelo trampo dele”, acredita Choque. 

O pichador busca sempre aproveitar o máximo possível do suporte e a pichação é dividida em modalidades. “É como uma empresa segmentada: tem cara que só pinta muro, tem cara que só faz no alto...”, exemplifica. Além disso, o picho não é uma técnica de pintura, como o grafite. Ele depende dos movimentos do corpo, o que o torna muito mais pessoal. 

As letras de cada pichador têm que se adaptar à arquitetura da cidade. Em um lugar como São Paulo, por exemplo, os desafios são muitos porque a cidade é muito vertical. “São Paulo é como um caderno de caligrafia para o pichador”, acredita Choque.

A pichação também evolui

Até 1995, o grafite e a pichação eram tratados como vandalismo. Com a valorização do grafite fora do país, ele começou a ser visto com bons olhos por aqui também. O mesmo não aconteceu com o picho. “Pichação só tem aqui, não é comum em outros lugares do mundo”, conta Choque.

Há alguns anos, o grafite começou a ser considerado uma alternativa à pichação no Brasil. “O grafite é mais aceito porque é próximo do padrão de beleza burguês”, acredita o fotojornalista. Então, os muros começaram a ser pintados por grafiteiros para evitar a presença dos pichadores.

Mas o “atropelo” (nome que é dado quando um artista pinta sobre a obra de outro) não conseguiu ser totalmente evitado. Recentemente, alguns grafites de SP apareceram pichados.“O atropelo sempre existiu. Não dá para cobrar respeito do outro se você não tá respeitando a casa alheia”, acredita Choque. Para ele, a arte de rua é efêmera e feita para ser apagada. “A diferença é que os pichadores se ligaram onde fazer para não serem apagados”.

E existe algum limite para a arte de rua? “Se tivesse limite não teria graça! Isso que é legal!”, finaliza o fotógrafo.

Veja algumas pichações registradas por Choque

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