14/10 - 12:43 Rua é palco criativo e democrático para o teatro Fazer da praça pública um espaço de convívio entre pessoas de diferentes classes sociais, faixas etárias e formação político-cultural. Letícia Macedo
Essa é a proposta grupos de teatro que escolheram a rua como palco, por considerá-la um espaço democrático por natureza e um elemento cênico suis generis.
É o caso da Brava Companhia de Teatro, que se apresenta no centro e na periferia da capital paulista. “A rua é o espaço mais democrático que pode existir. Temos desde o executivo até o morador de rua em um mesmo momento assistindo a nossa apresentação. Não há a barreira econômica ou social que a gente vê nas salas de teatro”, explica o diretor e ator da companhia Fábio Resende.
Atriz da Brava Companhia, Rafaela Carneiro narra um episódio que ilustra bem essa diversidade: “Na semana passada, alguém deixou 100 reais no nosso chapéu, o que é para nós um fato histórico. Ao mesmo tempo, um garoto vendedor de pipoca colocava um pacotinho de pipoca doce no nosso outro chapéu. Isso é o que ele dispunha naquele momento”, constata.
Olho no olho
Apresentar-se para um público tão diverso parece ser um dos atrativos da rua para os atores. “Isso não é dificuldade. É um desafio. Não há um termômetro melhor que as pessoas que têm menos acesso ao teatro. Elas acabam sendo mais sinceras. Se gostam ficam e intervêem. Em um público “mais preparado” essa espontaneidade é bloqueada”, observa Rafaela Carneiro que vai interpretar Joana D’Arc na peça “A Brava” que ficará pela primeira vez em cartaz em um espaço alternativo do circuito comercial (no Centro Cultural Vergueiro).
Para o ator, palhaço e fundador do núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo, Marcos Pavanelli, a proximidade com o público é um diferencial interessante do teatro de rua. “Eu gosto de ter contato direto com o público. O olhar, a interação, a resposta rápida são muito importantes para nós que fazemos circo”, afirma. Os espetáculos da companhia que levam técnicas circenses para as ruas de São Paulo costumam emocionar o público. “A resposta das crianças é rápida, mas os mais velhos chegam a chorar no final”, observa o palhaço.
Jogo de cintura
A rua acaba atuando como um elemento cênico rico e interessante. “A rua tem uma possibilidade criativa difícil de se reproduzir dentro de um teatro: as pessoas que passam, uma esquina, nós a usamos de uma maneira diferente do que estamos acostumados no dia-a-dia”, observa o diretor da Brava Companhia.
Nas praças públicas, onde não se consegue controlar completamente o que acontece em volta da apresentação, muitas vezes a única saída é incorporar as interferências. “Não adianta ignorar o que se passa em volta se não a gente perde a atenção do público. Pelo contrário, é preciso estar aberto a essas interferências e aproveitá-las dentro da cena. Se passa uma ambulância e estamos fazendo uma peça de guerra como “A Brava”, a gente considera esse barulho como o resgate de feridos em conflito”, exemplifica Rafaela Carneiro.
Para atuar nas ruas, é preciso estar pronto para o improviso. “Na rua é mais intensa a coisa. Requer muita verdade e requer mais jogo de cintura do ator”, afirma o ator e diretor da Companhia Buraco d’Oráculo, Adaílton Alves.
A luta por um teatro a céu aberto
Mais jogo de cintura ainda as companhias têm que ter para conseguir levar os espetáculos para as ruas. “O custo é alto: há gastos com cenário, com os atores. Muitas companhias não tem incentivos e acabam se mantendo com recursos próprios”, constata Adaílton Alves que é também um dos líderes do Movimento de Teatro de Rua, que reúne cerca de 15 grupos atuantes.
“O movimento defende que algumas praças públicas da cidade possuam uma programação regular de espetáculos de várias companhias. Isso já acontece um pouco, mas é informalmente. Certos grupos têm algumas praças de sua predileção e se apresentam ali com uma certa frequência. No entanto, gostaríamos de um incentivo do Estado nesse sentido para levar o teatro àqueles que não têm acesso”, explica Adaílton.
A cidade de São Paulo possui a lei de Fomento ao Teatro, que é inédita no país e serve de exemplo para outros municípios que discutem leis de incentivo à cultura. Anualmente, contempla até 30 grupos de teatro (de rua ou não) que fazem pesquisas dramatúrgicas ou cênicas, não necessariamente acadêmicas. “Reconhecemos que se trata de uma verba considerável, mas ainda é pouco. Só a Cooperativa Paulista de Teatro reúne 300 grupos”, afirma o diretor do Buraco d’Oráculo, que conseguiu incentivo municipal. “O problema é que a lei incentiva um tipo de teatro, um tipo de teatro que dá uma contra-partida mais artística do que social”, observa o ator e diretor Marcos Pavanelli cuja companhia também conseguiu verbas da prefeitura.
A presença do Estado (em qualquer esfera) como fomentador do teatro de rua é algo muito importante porque “a arte funciona como sensibilizador”, na opinião de Adaílton. Com sua experiência na companhia Buraco d’Oráculo, que se apresenta na zona Leste, ele acredita que o teatro contribui para uma tomada de consciência junto a classes menos favorecidas. “Nas discussões, muitos começam a perguntar: por que uns têm acesso ao teatro e nós não temos? Eles acabam por se conscientizar de que o acesso ao teatro, à arte, é um direito.”, observa.
Companhias:
Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo
Buraco d’Oráculo
Brava Companhia de Teatro
Movimento do Teatro de Rua de São Paulo
Cooperativa Paulista de Teatro
