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24/07 - 12:54hs
Torcidas organizadas
Até onde vai a fidelidade dos torcedores?
Carol Patrocinio
Muito se fala sobre as torcidas organizadas quando acontece algum problema que as envolve. Ônibus pegam fogo, pessoas são mortas e muitos feridos chegam aos hospitais. Só que as torcidas organizadas não existem apenas nesses dias, elas estão em funcionamento durante todos os dias do ano, mesmo quando não há conflito.
O que move esses jovens a se unirem? Amor pelo esporte? Pelo time? Paixão pela torcida? Vontade de se unir com pessoas com as mesmas crenças que você? Conversamos com dois garotos que participam já há algum tempo de torcidas diferentes, em estados diferentes e a realidade é a mesma: a torcida está muito além do confronto!
Roberto, 23 anos, faz parte da Torcida Fanati-Cruz, do Cruzeiro, desde 2005. "Um dia fui em um jogo contra o Paysandu, era jogo promocional, e uma torcida cantava sem parar, o jogo inteiro, uma única música. A princípio fiquei até com raiva, não trocavam por nada a música. Depois cheguei em casa, entrei no orkut e vi comentários sobre a TFC. Entrei na comunidade e tinha um tópico lá sobre uma 'pelada' que ia rolar, perguntei se poderia jogar, fui muito bem recebido e a partir daí fiz várias amizades e todo jogo estou lá no repinique da bateria", conta.
Ricardo, 24 anos, faz parte da Gaviões da Fiel, do Corinthians, desde 2000. “Comecei frequentar estádios em 1998, com o tempo fui percebendo a festa da torcida e me interessando. No início de 2000, eu tinha uns 14 anos e decidi entrar para torcida”, lembra.
Frequência
Os dois rapazes assistem a quase todos os jogos no estádio, junto com a torcida, sempre festejando e animando o time do coração. “Desde 2005, Cruzeiro x Corinthians, que foi meu primeiro jogo na TFC, deixei de ir a quatro jogos, todos porque eu estava viajando.A TFC é um bando de fanático, em todos os jogos a maioria do pessoal esta lá em peso”, comenta Roberto. Já Ricardo explica que há diferença entre jogos “em casa” e fora - “Eu vou em quase todos. Nos jogos em casa a maioria dos membros vão, mas fora de casa são poucos que vão, a não ser quando é jogo decisivo, na reta final de algum campeonato”.
Mas e a grana para viajar sai de onde? O pessoal larga tudo para seguir o time amado? O pessoal da Fanati-Cruz, assim como da Gaviões usa ônibus fretados para viajar pelo país. “Existem empresas e donos de ônibus que alugam só para esse tipo de evento. Quando o ônibus é alugado já vem incluso o preço de pedágio, diesel e motorista, esse valor é dividido por 46 pessoas (a capacidade do ônibus), dessa forma não tem como uma pessoa conseguir desconto e nem como a torcida lucrar com a viagem”, explica Ricardo.
“Eu faço minhas correrias, nem todos vão a todas as viagens. Eu procuro selecionar as melhores. Até dezembro vou pagar a minha viagem a Porto Alegre, para o jogo Cruzeiro x Grêmio da Libertadores e pra Buenos Aires, para o primeiro jogo da final, contra o Estudiantes. Porque as duas eu fui de avião”, conta Roberto.
Ricardo ainda fala sobre as loucuras que já viu membros fazerem para poder participar de uma viagem: “Tem sempre aquele que tá faltando 20 ou 30 reais e sai pedindo, já vi cada loucura de pessoas venderem tênis, celular, boné e até deixar de por comida em casa ou pagar conta para pode viajar”. Mas essas são exceções, a maior parte das pessoas que viajam trabalham e conseguem a grana - “Em muitos jogos é preciso comprar um atestado médico ou forjar alguma coisa para conseguir ser liberado do serviço para ir ao jogo fora”.
Família
Qual a mãe que não fica morrendo de preocupação ao ver o filho indo para a torcida organizada? Com esses garotos não é nada diferente, a família de Ricardo nunca aprovou a ligação dele com a Gaviões - “Acho que até hoje ainda não aceitaram” - e para Roberto é ainda mais difícil, sua mãe é atleticana e nunca gostou dele ser cruzeirense, muito menos de torcida, “mas hoje em dia ela já está 'de boa', ela viu que a TFC tem um propósito diferente”.
E qual seria essa diferença? Segundo o torcedor, a TFC não tem fins lucrativos, tem letras de músicas enaltecendo o time e não a torcida, além de existir por causa do time, unicamente. “Para entrar na TFC, é preciso ter um 'padrinho', tem que se ambientar no meio da galera, se tornar realmente um amigo, e antes de tudo é preciso ser um apaixonado pelo Cruzeiro”, explica.
Outras torcidas
Eles têm torcidas amigas, que são aquelas do mesmo time e algumas aliadas. A TFC mantém contato com as aliadas da Máfia Azul: Torcida Os Fanáticos, do Atlético Paranaense; Independente e Dragões da Real, do São Paulo; Os Imbatíveis, do Vitória; Camisa 12, do Internacional; Leões da TUF, do Fortaleza e Torcida Jovem, do Sport.
Ricardo explica que as torcidas podem até ter aliados, porém existem torcidas rivais e isso não é de hoje: “A maioria das rivalidades existem há mais de 20 anos e dificilmente deixarão de existir. Em alguns confrontos a rivalidade é tão grande que passar a ser um verdadeiro ódio, gerando uma guerra sem fim”.
Confronto
Os dois garotos já se envolveram em brigas de torcida e contam como funciona as coisas. Se você pensa que uma briga de balada ou mesmo no colégio pode ter alguma coisa em comum com esses conflitos, pode esquecer, as coisas são bem diferentes. “Ambas as torcidas com sangue no olho, buscando algum tipo de troféu - camisa, faixa, boné da outra torcida. Muitas vezes não rola pancadaria mesmo, a maioria é pedrada, foguete, bombas...”, comenta Roberto. Isso acontece “porque a polícia dá escolta para as torcidas visitantes, por isso rola pedrada, foguetada... Mas algumas vezes a polícia dá um vacilo, aí torcedores se encontram no corpo-a-corpo e o pau quebra”, completa.
“É completamente diferente de uma briga na balada, pois nela você briga por um desentendimento momentâneo e o problema se encerra no local. Enquanto nas torcidas são rivalidades históricas, você sabe com quem esta brigando, sabe o motivo da briga, o histórico e sabe que daqui 10 anos alguém estará no seu lugar, brigando com aquele outra torcida”, define Ricardo.
Jogos em casa são totalmente diferentes de jogos na casa adversária, explica Roberto - “Quando o jogo é fora de casa não tem divisão de torcida, somos a 'torcida visitante' e temos que nos unir. Se o jogo é contra Vasco, Palmeiras ou Corinthians, que são considerados jogos de 'guerra', nós vamos já sabendo que poderemos tomar pedrada, foguetada”.
Ricardo explica ainda que as brigas mudam muito dependendo do estado ou da cidade - “Em locais como o Rio de Janeiro, a maioria das vezes as brigas são resolvidas com arma de fogo. Em São Paulo, entre a Gaviões e Mancha, existe acordo para brigarem com mãos limpas, ou seja, apenas socos e chutes. Mas nos confrontos envolvendo a Independente são usados paus, pedras, barra de ferro e, às vezes, até bomba caseira”.
A certeza de Ricardo é que o conflito nunca termina naquele jogo e sempre é levado com os torcedores para casa: “Uma torcida que toma um prejuízo vai procurar se vingar, mesmo que demore anos e anos, um dia ela se vinga”.
Vai acabar?
“Infelizmente, briga entre torcidas virou coisa normal. No Brasil, elas começaram no início dos anos 80, se agravaram nos anos 90 e, pelo andar das coisas, estamos muito longe de ver as brigas acabarem pelo fato das autoridades não saberem como lidar com elas”, contextualiza Ricardo.
Roberto assume que antes acompanhava as brigas, mas hoje acha uma “idiotice tremenda” - “Você vai ao jogo pra se divertir, encontrar seus amigos, torcer para seu time e corre o risco de tomar pedrada, foguetada, voltar todo machucado. Enquanto isso, os jogadores estão lá com seus salários astronômicos. E os torcedores, ganhando salário mínimo, e brigando por motivo besta”.
Vale a pena?
Correr o risco de apanhar, de ser preso ou até de deixar a vida no estádio para assistir a uma partida de futebol e sentir a emoção do estádio? Para Roberto, vale! “É muita zoação dentro do ônibus, só quem viaja pode saber. Até no avião a gente canta, zoa... As duas viagens de Buenos Aires foram sensacionais; ano passado paramos o centro da cidade cantando músicas do Cruzeiro”.
Ricardo acredita que só entra em briga quem quer - “Ir a um jogo de futebol não tem risco nenhum, basta ir sozinho para o jogo ou com seu carro e você não corre risco nenhum. Ir sem camiseta de torcida ou só usá-la quando chegar na porta do estádio também ajuda. Dificilmente uma pessoa que não quer se envolve em uma briga”.
O torcedor corintiano afirma que as brigas acontecem , em sua maioria, nas estações de trem ou terminais de ônibus nas periferias da cidade. “As pessoas que vão brigar, em muitos casos, não conseguem ir para um jogo sem brigar. Quem quer brigar normalmente muda completamente o trajeto para o estádio; vai para estações de trem ou para regiões que sabe ser caminho do adversário, para bairros onde eles se concentram. Em outras palavras, sentem prazer com isso”.
Você faz parte de alguma torcida? Já fez ou teve vontade de fazer? Comente!
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