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17/07 - 09:00hs

Pais adolescentes

Como fica a vida depois de uma gravidez não planejada?

Bruno B. Soraggi

Independentemente da idade ou circunstância em que se viva, ter um filho causa uma grande transformação na vida de ambos os envolvidos na concepção e gestação da criança. Não por estar relacionado ao período da vida no qual os novos pais se encontram, mas sim por alterar a rotina na vida dos dois em razão da necessária adaptação à ideia de se ter um bebê sob seus cuidados. Se na vida adulta isso já acontece, no caso de pais adolescentes toda essa ruptura fica mais evidente e difícil de superar por diversos fatores.

“Quando uma pessoa decide ter um filho, vai precisar contar com uma rede social de apoio para que tudo ocorra bem. No caso do adolescente, o suporte desta rede é ainda mais importante, pois, via de regra, eles ainda moram com seus familiares e dependem deles financeira, psicológica e socialmente”, explica a advogada e psicóloga do Instituto Papai (grupo fundado em 1997 e que se destacou pelo Programa de Apoio ao Pai Adolescente e Jovem), Ana Roberta Oliveira. Isso, de acordo com a especialista, não acontece em grande parte dos casos em razão do preconceito de grande parte das pessoas perante a ideia de adolescentes com filhos. “Nossa sociedade não espera que um filho faça parte do plano de vida de uma pessoa ao longo da adolescência e, portanto, valoriza o fato como uma escolha sempre negativa”, diz.

Quem sentiu isso na pele foi Marcos*, atualmente com 18 anos, mas que teve um filho aos 16. Segundo o rapaz, sua família cogitou a ideia de tirá-lo da escola e arrumar-lhe um emprego quando soube da notícia de que seriam avós. “Meus pais não se conformavam com o que eu tinha feito. Diziam que era uma responsabilidade que cairia para eles, que já não tinham tanta condição de dar conta de sustentar nossa família; que a criança só traria gastos e atrapalharia meus estudos...”, lembra. Diógenes, 17, também. “Minha mãe quase teve um troço” [quando soube que sua namorada, Carolina, estava esperando um filho seu. Ambos tinham 15 anos à época].

Nem sempre, porém, a hostilidade vem só de casa. A própria Ana Roberta lembra de um caso parecido que se passou no Instituto: “um adolescente que foi expulso da escola quando a diretora ficou sabendo que ele ia ser pai. O caso foi parar na Justiça, pois impediram o rapaz não apenas de ver sua namorada, como também de frequentar as aulas para que não servisse de ‘má influência’ para os colegas”.

As causas por trás desse preconceito à ideia de se ter um filho quando ainda se está na escola variam desde a irresponsabilidade até a inexperiência juvenil e falta de capacidade financeira para sustentar a criança que está por vir. Ainda assim, muitas crianças vêm à luz e, em alguns casos, toda a ira inicial se transforma em sentimentos de afeto pelo recém nascido. Foi exatamente o que se passou com Diógenes. “Depois que a Julia [sua filha] nasceu, minha mãe se apegou muito a ela”, conta.

Essa transformação é recorrente na família da jovem mãe. O que se vê diversas vezes é que o homem, para sempre ‘manchado’ pela imagem de ‘irresponsável’, fica relegado à tarefa de prover mulher e filho. Segundo a psicóloga e advogada, isso acaba por ser, por vezes, mais prejudicial ao futuro da criança e a relação dos pais do que a falta de experiência ou questões monetárias. “O problema é quando invisibilizamos o pai adolescente, seja por não lembrar que ele existe no contexto da gravidez - a mulher não engravidou sozinha -, seja por partir de um pressuposto comum, segundo o qual o pai adolescente é sempre imaturo, irresponsável e não vai assumir seu filho. Posturas como esta contribuem para o afastamento”, afirma.

A situação de Flávio D., 17, é um bom exemplo de como isso pode ser contornado de maneira positiva. Após engravidar sua namorada de 16 anos, ambas as famílias, passado o choque inicial, resolveram aceitar a situação e apoiá-los no que podiam. “É claro que eles foram duros comigo. Disseram que eu teria que começar a trabalhar depois da escola, o que deixou minha vida muito diferente da dos meus amigos, mas fazer o que, não é? Pelo menos eles ajudam a gente levando para fazer os exames, dando dicas e tal. Eu que fiz o filho, né? Não adianta agora querer fugir”, diz. Prestes a acabar o colégio, o jovem diz que pretende continuar seus estudos em algum curso universitário assim que conseguir um emprego de melhor remuneração. “Ter um filho agora é cedo, sim. Mas isso não quer dizer que sua vida acabou”, afirma.

Gravidez planejada
Ainda que a ocorrência de pais adolescentes seja uma realidade que, apesar não muito estudada no Brasil, devesse ser aceita com menos resistência, isso não quer dizer que ter filhos antes da fase adulta seja algo completamente normal. “O ideal é que a decisão por ter um filho seja sempre negociada, o que acontece com menos frequência do que seria o necessário. É importante que os dois conversem sobre se esta possibilidade é o que de fato desejam para si, e quais serão os passos seguintes, como contar aos pais, por exemplo. Quando o casal consegue permanecer em sintonia, ou seja, quando a decisão foi compartilhada pelos dois, ambos ficam fortalecidos”, ensina Ana Roberta Oliveira.

Para a especialista, não é a idade do pai que fará uma criança problemática ou não. Se fosse assim, “filhos de pais adultos nunca teriam problemas”. “Crianças nascem de casais adultos que não a planejaram, crianças são abandonadas por mães e pais adultos. Estes são fatos que ocorrem com muito mais frequência do que com adolescentes, mas isto não é problematizado. Só se acha que um bebê pode ter problemas em seu desenvolvimento porque seu pai e/ou sua mãe são adolescentes, e só”, expõe. Ou, como conclui: “ter um filho na adolescência será mais ou menos complicado a depender do suporte que este pai tenha para exercer a paternidade de seu filho. O que é importante que todos saibam é que o preconceito contra o pai adolescente é muito mais prejudicial do que sua inexperiência”.

Você conhece alguém que passou por isso? O que você faria se estivesse nessa situação? Comente!

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados.

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