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16/02 - 19:49hs

Depoimento
João Felipe Scarpelini, 22 anos, não perde tempo quando o assunto é abraçar causas sociais. Desde pequeno, ele ajuda outros jovens a fazer do mundo um lugar melhor até transformar seu hobby no seu estilo de vida

Da Redação do Jovem

Eu estive envolvido com voluntariado e ações sociais em Santos, minha cidade, desde os tempos da escola. Quando eu estava na 5ª série, uma professora de filosofia nos desafiou a descobrir nosso bairro e vi que os problemas da cidade não estavam só nas áreas mais pobres, mas em todos os lugares. No começo, eu fazia o básico: organizava mutirões de limpeza em praias, mangues e instituições de caridade, e arrecadava alimentos e livros, muitas vezes batendo de porta em porta.

Com o tempo, fui crescendo e entendendo, mais a fundo, a raiz dos problemas. Nos meus 15 anos, rolou um projeto em Santos que se chamava “Gincana da Cidadania”, que era, na verdade, um processo realizado em várias escolas que tentava despertar nos alunos a vontade e o interesse em trabalhar para resolver os desafios da comunidade. Enquanto a maior parte das escolas se focou em se envolver com coisas mais pontuais, como doação de sangue, educação sexual e restauração ambiental; meu grupo, o “Reticências”, encontrou um desafio diferente justamente porque estávamos estudando numa escola de classe média alta: precisávamos abrir os olhos dos nossos colegas de classe.

Mobilização
Primeiro, nós mesmos tentamos falar com a galera, mobilizar os alunos e mostrar que, além de os problemas não acontecerem apenas nas comunidades carentes, nós não podíamos depender dos adultos. Não adiantou! Não só pela falta de vontade e de motivação, mas pela ausência de apoio dos professores, que achavam que aquilo não levaria a lugar nenhum. Mudamos de estratégia e passamos a usar a internet, um meio a que todos têm acesso tanto na escola como em casa.

Começamos a procurar jovens que estivessem fazendo projetos, participando de movimentos sociais e organizações. Eu escrevia para um monte de gente, muitas pessoas não responderam, mas as que fizeram contato se colocaram à disposição para ajudar, ir até a minha escola e mostrar sua trajetória.

Uma dessas pessoas, aliás, foi Isis Lima Soares, que desenvolvia um trabalho com o intuito de capacitar crianças e jovens a produzirem a própria mídia e, assim, entender melhor a mídia que eles consumiam. Ela chegou a ir para a Cúpula Mundial da ONU (Organização das Nações Unidas) em Johanesburgo, na África do Sul, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por tê-lo desafiado em público a cumprir suas promessas de envolver os jovens como parceiros no progresso do País. Ela é dois anos mais nova do que eu e já trabalhava com isso desde os oito!

Nós, do “Reticências”, organizávamos circuitos de palestras para conscientizar as pessoas sobre o papel dos jovens na sociedade. Éramos em 15 pessoas, mas perto de eventos e ações esse número aumentava até para cem! Um dos nossos programas mais legais se chamava “Mudando a Cara”, em que nós nos reuníamos e escolhíamos uma associação, visitávamos para saber do que eles estavam precisando e, em duas semanas, arranjávamos tudo: equipamentos de enfermagem, alimentos, produtos de limpeza, de saúde e de higiene e materiais de construção.

É muito difícil descrever, é um lance meio mágico saber que você fez a diferença para alguém. É muito especial! Ver resultados é motivador e compensa qualquer cansaço físico. Fazíamos tudo isso aos fins de semana, porque estávamos todos na escola e não podíamos perder aulas.

De Santos para o mundo
Eu estava numa fase de me conectar com o mundo, empolgado com as possibilidades de fazer parte de um movimento global por um lugar melhor. Como uma parte de nosso trabalho era questionar a imagem dos jovens, especialmente na mídia, fazíamos análises de tudo o que tinha saído nos principais meios de comunicação relacionados a eles, discutíamos e escrevíamos comentários, opiniões e reflexões para as redações.

O grupo inteiro se inscreveu para participar da equipe de jovens de uma revista adolescente e, talvez por eu ser ator, falar a mesma língua das leitoras e ter um “outro lado” que tem a ver com o público dela, fui selecionado. Na minha inscrição, deixei claro que meus objetivos eram de mudar a publicação, mas depois me esforcei para conseguir compreendê-la.

Antes de tudo, rolou um teste: essa revista publicou um artigo bem pequeno falando sobre o meu trabalho social com uma foto minha para ver se os leitores se interessariam. Para minha surpresa, quase caí para trás com mais de 300 e-mails vindo de pessoas de todas as partes do Brasil. Tirando as meninas dizendo que eu era fofo e que gostaram do meu corte de cabelo, 99% queriam saber o que fazer para começar a ajudar.

Eu sabia que boa parte dessas pessoas que me escreveu nunca tinha feito nada, mas eu não podia deixar morrer! Era uma chance que tinha de fazer acontecer. Por sorte, tenho ótimos amigos que organizaram uma força tarefa para responder cada um dos e-mails. Nós pesquisávamos o que estava rolando em cada cidade e aproveitávamos para dar indicações de onde ir. Apesar de cansativo, isso motivou muita gente que começou a agir. Eu virei meio que uma central de informações e passava o dia atrás do computador conectando pessoas. Com isso, a revista começou a receber uma resposta positiva também!

Participei de vários fóruns sociais e, em 2003, fui convidado para coordenar a delegação brasileira de jovens que foi para o Marrocos participar do Congresso Mundial da Juventude, minha primeira experiência internacional que, definitivamente, mudou minha vida. Eu sabia que nunca mais seria o mesmo, não conseguiria voltar para o Brasil, terminar o Ensino Médio e ir para a faculdade. O grupo “Reticências” existe até hoje e acabou virando a nossa contribuição para a escola.

Hoje
Foi aí que eu descobri que não era apenas um hobby e comecei a trabalhar para uma organização chamada “Peace Child International”. Todos nós que nos formamos no colégio passamos a fazer parte da articulação da “Peace Child”; eles na equipe brasileira e eu na Inglaterra desde 2005 para assumir a coordenação geral no escritório central, de onde organizamos os escritórios em 158 países. Moro numa casa com 11 pessoas, um de cada país. É como morar no Big Brother! É sempre bem intenso, porque passamos 24 horas juntos. 

Eu não sei quantos países eu já visitei, mas conheci mesmo 31, porque parte do meu trabalho é resolver pepinos dos projetos internacionais, então quando sou mandado para algum país, tenho algumas semanas (às vezes dias) para viver a cultura local e entender o estilo de vida e os problemas para desenhar o plano de ação.

Trabalho 100% do meu tempo com isso e ganho o suficiente para pagar todas as minhas despesas: casa, comida, transporte e a faculdade de Mídia, Administração e Desenvolvimento Internacional. Também trabalho como consultor para várias instituições e sou conselheiro jovem do “Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas”.

Você tem alguma história para contar? Mande para comportamentojovem@ig.com.br!

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