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17/02 - 09:00hs

Sapabonde, sucesso do funk surgido na internet, faz primeiro show em São Paulo

Confira a entrevista exclusiva com as oito meninas homossexuais de Brasília que viraram mania em festas e baladas pelo País

Artur Tavares, especial para o iG

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Uma noite de bebedeira, uma câmera filmadora por perto e o refrão “vai, não se esconde, vem pro Sapabonde” animando a mesa. Pronto. Foi desse jeito – e com uma mãozinha do YouTube – que oito garotas de Brasília se transformaram num sucesso inesperado do chamado “funk carioca”, o Sapabonde. Seis meses depois, a banda – formada pelas MCs Carol Bitch, Holy Maria, Jubinha, Luara Marola de Fogo, Mary Versátil, Nina Afeta as Mina, Sereia e Tava G – toca pela primeira vez em São Paulo (mais informações abaixo), neste sábado.

Sem rótulo: "Homossexualidade não é gênero musical, é orientação pessoal"*

O nome do grupo é quase auto-explicativo, mas vale ressaltar que o sucesso do Sapabonde (veja, no final do texto, quem é quem na foto acima) está na naturalidade em transpor o costumeiro machismo do funk carioca para o universo lésbico. O iG Jovem aproveitou a oportunidade para conversar com as meninas sobre letras desbocadas, namoros internos no grupo e, claro, o homossexualismo na música e na sociedade.

iG: É a primeira vez que vocês tocam em São Paulo. Quando o Sapabonde deixou de ser uma brincadeira para virar um projeto musical sério?
MC Nina: Sim, é a primeira vez que tocamos fora de Brasília, por isso se torna ainda mais importante. Hoje, o Sapabonde é um projeto musical, mas brincadeira não vai deixar de ser nunca. Nos divertimos muito e isso é exatamente a nossa marca.

iG: A crítica vem apontando vocês como grande promessa do estilo funk carioca em 2011. Qual seria o motivo desse possível sucesso repentino?
MC Carol: Tudo aconteceu bem despretensiosamente, colocamos um vídeo amador na internet para as amigas verem e acabou virando hit em menos de dois meses. O coletivo "Funk Na Caixa" enxergou na gente um potencial e nos deram a oportunidade de gravar um EP com grandes DJs nacionais e internacionais. Em março lançaremos um novo EP pelo site deles.

iG: Vocês são, basicamente, um produto da internet. Como usaram a rede pra garantir espaço na playlist das pessoas?
MC Carol: O que fazemos é facilitar a vida das pessoas disponibilizando nossas músicas em vários sites de download gratuito e blogs. Também criamos várias páginas de relacionamento na internet para nos comunicarmos diretamente com os fãs. O Twitter, por exemplo, pra gente é a melhor forma de divulgação do nosso material.

iG: Como é o processo criativo de vocês? Quem escreve as músicas? Quem pensa nos samplers?
MC Carol: Fazemos tudo em conjunto. Normalmente fazemos músicas nas nossas reuniões no bar ou na casa de alguém. Cerveja vai, cerveja vem e acaba saindo algumas rimas legais. Os samplers nós damos um pitaco ou outro, mas a maioria fica por conta da criatividade dos DJs.

iG: O que vocês acham da questão do sexismo no funk? Foi natural transpor o ritmo para o universo lésbico?
MC Maria: O funk dominante é extremamente ‘heteronormativo’, quando não é machista. Então, como nenhum desses funks estavam falando com a gente, resolvemos fazer essa brincadeira, de transpor as situações que vivemos diariamente para a musica, e cantar o que as milhares de lésbicas por aí gostariam de ouvir.
MC Nina: A gente não idealizou fazer um bonde de funk, e depois pensamos no conteúdo lésbico. Na verdade, esse conteúdo é muito natural para todas nós, e já estava presente em nossas rimas iniciais bem antes de chegarmos de fato ao funk.

iG: Vocês já pensaram se teriam o mesmo sucesso se fossem um grupo formado por homossexuais masculinos? Acham que eles sofrem mais preconceito – não só no funk, mas na música como um todo – do que lésbicas?
Mc Nina: Muito pelo contrário. A música gay já é completamente difundida e aceita pelo mundo. Por exemplo, temos muita dificuldade de encontrar espaço para fazermos nossos shows, por isso acabamos fazendo o show de lançamento em uma casa noturna gay (voltada para homens homossexuais), a Blue Space, em vez de tocarmos em um espaço mais frequentado por mulheres. O que posso afirmar é que a cidade de Brasília se destaca das outras cidades brasileiras por já ter um universo lésbico consolidado por muitas jovens.
MC Maria: Concordo, Nina. A musica gay existe mundialmente há muito, muito tempo. Icones gays, divas, boates gays etc. A música lésbica hoje está em guetos ou disfarçada por uma licença poética na MPB. Não existe nem esse termo "música lésbica", justamente porque isso não tem sido feito. Musica gay existe aos milhões.

iG: As meninas lésbicas estão se assumindo mais, ou simplesmente se autorizando a experimentar relacionamentos? O que fez a situação mudar?
MC Maria: Há muitas pessoas achando que hoje existem mais gays do que antigamente. Acontece que hoje existem mais gays, lésbicas e bissexuais assumidos, justamente por essa abertura que a sociedade como um todo está dando para a homossexualidade. Gays existiram sempre, e sempre existirão. A diferença é se a sociedade permite ou não que ele seja feliz do jeito que é.
Tava G.: A situação não mudou. A sociedade está mais aberta para esses ‘novos-velhos’ tipos de relacionamento, e, a partir do momento em que nos sentimos seguras para expressar nossa sexualidade, os casais homo começaram a ser vistos com mais frequência.

iG: E na música, vocês gostam das cantoras lésbicas? Acham que se tornou quase um “gênero” dentro da MPB?
Tava G.: Acho babaca generalizar, a homossexualidade não compõe um gênero musical, e sim uma orientação pessoal, que não interfere na música ou no talento dessas artistas.
MC Maria: Assim como eu gosto de ver filmes que falam sobre lésbicas, livros sobre lesbianismo, também gosto de ouvir musica que trata disso. Estamos constantemente sendo bombardeadas com romances, novelas, músicas, poemas sobre casais heterossexuais. Acho muito chato não ser contemplada em 99% do meu dia. Gosto de ver, ouvir, ler coisas que tenham a ver comigo, para variar

iG: Vocês são de Brasília, uma cidade muito ligada ao rock. Como o pessoal de lá encara um monte de garotas fazendo funk?
Mc Nina: As pessoas se assustam um pouco. Mas, de um modo geral, por ser muito nova, a cidade está bem acostumada com diferenças e mudanças, muito mais do que o Rio de Janeiro, por exemplo, que já tem uma cultura muito bem delineada na história. Brasília está se fazendo neste momento, e nós estamos escrevendo algumas páginas.

iG: E como vocês veem o funk em geral? Eram fãs antes de começarem a tocar?
Tava G.: O funk é um fenômeno musical e por mais que alguns ainda torçam o nariz, ele está presente na nossa musicalidade e faz parte da nossa cultura. Escolhemos o funk também por isso, ele já tinha nos invadido.
MC Maria: Acho que todas gostavam de funk antes, mas um funk alternativo, como Bonde do Rolê, Bonde das Impostora, Marina Gasolina, M.I.A etc. Acho que sempre admiramos a sacada genial de pegar a batida rebolante e deliciosa dos atabaques do funk e inserir uma letra divertida e que fosse a cara daquilo que você está vivendo.

iG: Vocês acham que as pessoas aceitam mais o funk hoje em dia? Tem como explicar para os leitores essa onda de Neo-Funk?
MC Carol: Com certeza a aceitação das pessoas está muito maior do que antes, hoje os grupos de funk estão participando de grandes festivais e premiações da TV, o que antes era limitado a grupos de rock e MPB. O funk está com uma nova cara, um novo som! Essa ideia de misturar o batidão de funk com o electro e o fidget house deu uma chance para quem antes não gostava do som escutar melhor e passar a enxergar o funk com novos olhos. Dai chamamos de neo-baile-funk, new laje e electro funk.

iG: Mudando de assunto, quem são as Sapabondes no dia a dia? Como vocês se conheceram?
MC Nina: O sapabonde é um rebuce***o. (risos)
MC Maria: uma namorou a outra, que terminou e começou a pegar aquela outra que tinha acabado de terminar com aquela ali que já começou algo com aquela lá que na verdade tava ficando com a outra ali, mas que queria terminar porque queria pegar a outra lá que tava prestes a terminar comigo. Sacou? (risos) E hoje todo mundo se ama!

iG: Vocês trabalham com o que? Com música também?
MC Nina: Tem atriz, designer de moda, diretora de cinema, DJs e por ai vai. Com certeza, cada uma tem uma historinha que anda paralela ao funk.

iG: E planos para a banda? Já dá pra ter algum?
Tava G.: Sem grandes planos ou pretensões... À medida que as propostas surgem, nós caminhamos.
MC Maria: Vamos continuar caminhando, continuar nossas parcerias com DJs que adoramos, quem sabe trabalhar com produção nós mesmas. Continuamos despretensiosas do jeito que sempre fomos.

Serviço:
Show do Sapabonde
Quando: 19/02
Onde: Oui Oui – Cumple Issue 2 anos
R. Treze de Maio, 830, Bela Vista, São Paulo
Quanto: R$ 40 (R$ 30 com nome na lista, no email ouiouiparty@gmail.com)
Ouça:
(Atenção, algumas letras têm conteúdo sexual explícito) 
http//:soundcloud.com/sapabonde
http//:twitter.com/sapabonde
* Quem é quem na foto:
Em cima, da esquerda pra direita: MC Tava G, Sereia, Mari, Maria, Carol
Embaixo, da esquerda pra direita: Luara, Nina (gêmea da Sereia) e Jubinha
Crédito: Izo Junior

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