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25/11 - 15:30hs
Hip hop, capoeira e parkour libertam jovens em periferias abaladas pela guerra
Kabul, Gaza e Beirute estão distantes do Brasil geograficamente, mas os sonhos e a “correria” dos adolescentes às vezes são parecidos
Solange Cavalcante, especial para o iG
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Os garotos que jogam capoeira nas ruas de Beirute, os que fazem rap entre as casas pobres de Kabul e os que saltam muros nos cemitérios e armazéns da paisagem triste de Gaza têm em comum a mesma fisionomia expressiva da galera brasileira. Principalmente porque não parecem, em nada, com os temíveis terroristas de que falam a TV e os jornais. Vítimas dos intermináveis conflitos e guerras em seus países, a garotada dessas regiões tem recorrido ao hip hop para enfrentar seus medos.
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No Afeganistão, por exemplo, o atual conflito começou em outubro de 2001, com a invasão dos Estados Unidos. Mas isso só deu prosseguimento a uma guerra anterior que já dura 30 anos. Muitos jovens afegãos cresceram sonhando em fugir de Kabul, atravessar o deserto em direção ao Irã e entrar na Europa. O documentarista italiano Gigi Roccati, que acaba de lançar o livro fotográfico “Estrada para Kabul”, conta que esteve na capital afegã, em 2009, e tomou conhecimento dos problemas dos jovens, ali. “Todo garoto afegão tem um dia na vida em que deve escolher entre tornar-se policial por 100 dólares ao mês, entrar no exército por 120, ou trabalhar para algum político ‘senhor da guerra’, comercializando víveres com as missões estrangeiras”.
Gigi diz que os adolescentes afegãos vivem sob o terror dos atentados, dos carros-bomba e dos mercenários pagos pelas empresas de segurança. Para se ter uma ideia do estado de guerra, o Afeganistão está ocupado, atualmente, por tropas de mais de 40 países. “Kabul inspira tédio, frustração, raiva e medo nesses garotos”, informa o documentarista. “As leis locais proíbem meninos e meninas de se encontrarem em público se não são parentes. Além disso, eles não têm cinemas, nem galerias, nem locais com música ao vivo”.
Menos mal que, em 2006, apareceu o DJ Besho na cena afegã, um dos primeiros rappers do país. Ele é amado por uma multidão de fãs, mas encarado com desconfiança pelos conservadores islâmicos, que veem em sua música e roupas largas uma ameaça à cultura do Afeganistão. O rapper define o seu estilo como um “gangsta rap inspirado na vida”. E explica: “Quando eu tinha 10 anos, vi meu melhor amigo morrer atingido por um projétil, num ataque militar”. Por isso, nada de garotas nuas ou apologia a fuzis em seus vídeos. “Falo de paz, contra a guerra, as armas e as drogas. E não estimulo o ódio entre os irmãos”, garante. Os vídeos de Besho são campeões de acesso no Youtube, para os padrões de um país fundamentalista. Depois dele, surgiram dezenas de outros rappers por lá. Além do rap, a galera afegã pode se permitir duas bandas de rock: o Kabul Dreams e a White City. Ambas costumam se apresentar juntas, uma verdadeira revolução para a juventude de Kabul. Afinal, segundo os preceitos religiosos do país, a música é até tolerada, mas o prazer em ouvi-la, não.
Capoeira para sobreviver em Beirute
Zena El Khalil é uma artista plástica nascida na Inglaterra, mas libanesa de origem. Seu livro “Beirute, eu te amo” acaba de ser lançado na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo. Zena estava em Beirute, em 2006, quando Israel desencadeou um ataque sobre que durou 34 dias. Foi mais uma tragédia para a população, que já tinha enfrentado uma guerra civil de 15 anos, entre 1975 e 1990. Zena, então, começou a postar seus medos num blog. Os posts ficaram conhecidos quando passaram a ser publicados nos jornais mais importantes do mundo. “Quando você vê um arranha-céu virar poeira em um segundo, é como morrer”, compara. “É por causa disso que, em Beirute, a moçada bebe e dança como se isso fosse uma cura. É o medo de que a guerra possa recomeçar amanhã”.
Além de Zena, outros jovens agitam para espantar as lembranças da guerra. Zeid Hamdan é um dos maiores promotores da cultura underground, no Líbano. Ele faz a produção de artistas emergentes, não somente no país, mas também na África, e tem a sua própria banda, a Zeid and the Wings. Foi o documentarista Gigi Roccati quem dirigiu o clipe da música “General Suleiman”, da banda de Zeid. A letra é uma mensagem não só ao presidente Suleiman, que assumiu o governo em 2008, mas a todos os militares e ditadores. “Zeid and the Wings viraram um delírio na internet”, conta Gigi. “O clipe foi parar na MTV até do Marrocos. Diversos jornais internacionais, inclusive os de Israel, deram destaque aos 40 mil acessos no Youtube em menos de um mês, com milhares de comentários”.
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Mas o diretor do vídeo, num certo ponto, começou a se preocupar pela segurança do rapper. “O governo ameaçou prender Zeid, porque as leis libanesas proíbem qualquer contato com Israel”. Zeid, que estudou na França, conta que viu lá um cenário cultural bem diferente do Líbano. Ele reclama da condição subalterna das mulheres, do medo que a rapaziada libanesa herdou de seus pais e da pressão para se obter estabilidade e dinheiro. “Meu vídeo mostra um Líbano plural, porém não é bem assim”, lamenta. “Mas tenho certeza que vamos chegar lá”.
Nos escombros e nas várzeas de Beirute, e por toda a parte, vê-se adolescentes jogando futebol e capoeira. Esta foi parar nas ruas de Beirute por conta de Arbi Sarkissian (ou melhor, Monitor Papagaio), um armeno que viveu nos Estados Unidos e que agora se ocupa do replantio de árvores na capital libanesa. Brazuca de coração, já no primeiro contato, no Líbano, ele começa com um “I aê, mano?”, em bom português (ou quase). Arbi é presidente do grupo Volta ao Mundo e também joga no Capoeira Sobreviventes.
Ele conta que conheceu o jogo há dez anos, no Brasil. “Como brasileiros e libaneses são muito próximos entre si, achei que ia encontrar pelo menos cinco grupos de capoeira no Líbano”, relembra. “Mas não tinha nenhum. Então, mesmo não jogando direito, depois de um tempo me pediram para treinar um grupo de oito garotos”. Em 2006, Beirute começou a ser bombardeada, e muitos tiveram que fugir do país. Do grupo de Arbi, ficaram somente quatro alunos. “Vivi um momento de incerteza, com meus pais gritando dos Estados Unidos para eu escapar”. Ele conseguiu fugir para a Grécia, onde ficou um mês. Quando finalmente conseguiu contato com Beirute, soube que seus alunos não tinham parado de treinar nem mesmo um dia, e que tinham saído ilesos dos ataques. “Foi aí que surgiu o nome ‘Sobreviventes’”.
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O capoeirista fala da segregação que existe no Líbano por causa da cor da pele, do gênero e da nacionalidade. Ele conta que, depois da faculdade, os jovens costumam sair do país, no processo chamado “fuga de cérebros”. Mas Arbi também acredita que as coisas vão melhorar: “O movimento de liberação está crescendo entre os adolescentes, e eu creio na capoeira, porque ela nos traz muito axé”, torce. Em 2009, seu grupo foi oficialmente reconhecido pela United Capoeira Association, de Los Angeles. No Facebook, os fãs da Sobreviventes já chegam a 427 membros. Ah, e tem batizado de capoeira em dezembro, para quem quiser aparecer por lá.
Jackson Allers é um jornalista que se cobre e promove a cena hip hop há mais de 15 anos. Agora ele está se ocupando do movimento no mundo árabe. Como vive em Beirute, ele conhece bem o 961 Underground Family, um projeto que reúne a nata do movimento hip hop no Oriente Médio e África. Jackson desfila sua lista de nomes de peso do rap árabe, que conta com o sírio Omar Offendum, do grupo Nomads, e o palestino Ragtop, do The Philistines. Sem falar na MC Lix, uma rapper libanesa que despontou na MTV quando tinha apenas 16 anos. E por aí vai. “Nos Estados Unidos tem muita rivalidade entre os rappers das Costas Leste e Oeste. Aqui, não, vem todo mundo. Tem a rapaziada dos ramos sunita, xiita, tem os cristãos, os sírios e os africanos. O hip hop tem esse poder unificador”, garante, enquanto o DJ Lethal Skillzs arredonda: “Os irmãos têm que ficar unidos para mostrar que não somos terroristas. A gente aqui é do bem”.
Parkour e grafite para libertar a mente em Kabul
A vida não é mais fácil para a rapaziada da bélica Faixa de Gaza, um território de apenas 360 km2 pela qual israelenses e palestinos se batem há quase 50 anos (só para falar da fase histórica “recente” dos conflitos entre os dois povos). Ali os jovens resistem com o rap de grupos como o Camps Breakerz, o Darg Team, o Phoenix Renaissance e a popularíssima Shadia Mansur, mais conhecida como MS Mansour, a primeira mulher rapper do mundo islâmico. “Minhas músicas parecem raivosas, mas minha mensagem é de resistência pacífica”, assegura. Letras pacifistas ou não, a Palestina é sempre um campo minado, em todos os sentidos. Há pouco tempo, a rapper ficou detida sob a mira de agentes armados, no aeroporto de Israel, talvez porque muita gente se sinta incomodada com sua música. Mas ela garante que só teme uma coisa: “Não quero ofender os palestinos conservadores”.
A galera palestina também tem se descoberto nas evoluções do parkour. Nos armazéns, estacionamentos, cemitérios, campos de refugiados e diversas áreas abandonadas de Faixa de Gaza, o pessoal praticamente voa entre muros e bancos, sob o olhar severo do Hamas e o bloqueio armado israelense, que não permite a livre circulação das pessoas. Os garotos “voadores” têm sido fotografados por diversos jornais que cobrem os conflitos entre Israel e Palestina. Mas é muito difícil o contato com esses garotos, devido ao isolamento imposto por Israel. Sabe-se que os palestinos só têm energia elétrica em determinado período do dia e, portanto, o contato via rede também é limitado.
E como todo movimento hip hop que se preza tem sua crew de grafiteiros, há pouco tempo, em Kabul, surgiu um grupo anônimo de artistas de rua autodenominado Talibansky (uma mistura de talibãs com Bansky, famoso grafiteiro britânico). Pelas ruas esburacadas da cidade, em meio aos escombros metralhados pelas tropas de ocupação, diversos estênceis denunciam a indústria da guerra, que têm custado milhares de vidas humanas. Difícil não se lembrar dos muros grafitados pela galera, no Brasil, e da letra do Rappa: “O que as paredes pichadas têm pra me dizer/O que os muros sociais têm pra me contar...”.
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