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25/10 - 20:33hs
"Não sinto ódio", diz jovem que namorou garota de programa em Nova York
Estêvão Romane viveu com Fernanda durante oito meses e agora conta a experiência no livro "Eu Amei Victoria Blue"
Larissa Drumond, iG São Paulo
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Agosto de 2008, aniversário de 21 anos de Estêvão Romane, restaurante do MoMA (The Museum of Modern Art), Nova York. Champanhe, risadas, charuto. Depois da sobremesa, só ele e ela vão para o jardim do museu – aberto depois de convencerem o maître. Ela era Victoria Blue. Ou Fernanda, uma gaúcha de 34 anos que passava as tardes na pós-graduação de Artes. Alta, pele branquinha, olhos azuis, rosto bem delineado e cabelos pretos estilo chanel. Pura elegância e inteligência. Quase bom demais para ser verdade.
Aos 18, Estêvão foi para os Estados Unidos estudar na City College of New York. Ficaria por três anos e meio. Voltou com a faculdade inacabada, boas referências culturais e gastronômicas da cidade e manuscritos de um livro de 190 páginas, que acaba de lançar. A história? Seu relacionamento com uma prostituta de luxo supostamente chamada Fernanda, em NY.
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Sem vontade de continuar trabalhando como engenheiro de som – profissão que segue desde os 15 –, hoje ele tem planos de abrir uma empresa de terceirização de produção de roupa e tornar-se escritor. “Comecei a escrever uma semana depois que descobri que minha namorada mentia compulsivamente sobre tudo: desde o nome do meio e a idade até a história da família”, conta Estêvão, que jura não ter acrescentado nenhum detalhe fictício à obra “Eu Amei Victoria Blue”. “Tentei chegar tão próximo da realidade quanto minha memória permitiu. A única liberdade que tomei foi a de condensar diálogos que aconteceram em dias diferentes”, completa.
Na verdade, ele também trocou o nome do protagonista para Davi. Mas o resto é tudo verdade. Foram cinco meses para tirar as memórias da cabeça e passar para o papel – além dos oito de bloqueio. “Sofri muito relembrando diálogo por diálogo, tanto que só consegui sentar para contar a história quando estava namorando outra garota, já no Brasil”, revela. A decisão de trocar todos os nomes foi tomada três semanas antes de o livro ser enviado para a gráfica. “Materializar [ele mesmo] com um pseudônimo foi uma questão filosófica. Os personagens não têm a possibilidade de mudar e evoluir. Eu mudei muito e não penso mais como o Davi”, admite, ciente de que todos sabem que o livro se trata de sua própria experiência.
A maior dificuldade foi selecionar o que entraria no livro. “Se eu fosse contar todos os detalhes, escreveria 700 páginas brincando. A filtragem do que contar, quando contar e por que contar foi bem difícil”, diz. A estratégia foi mostrar os rascunhos para os amigos e coletar opiniões. “Eles não apontaram muitas falhas, mas meu pai me ajudou muito na edição”. O estilo da narrativa foi inspirado em Charles Bukowski. “Com a diferença que eu não sou um personagem que fica bêbado e vomita o tempo todo. Mas também uso a linguagem nua e crua, sem pudores”. É um livro contado como se o autor estivesse numa mesa de bar, dividindo sua vida com os amigos.
La Belle du Jour
Estêvão (ou Davi) morava num prédio de cinco andares no Upper West Side, “até que bem cuidado pelo que se pode observar na região”, como descreve na página 9. Após quase dois anos morando no mesmo lugar, Robert, o dono do prédio, lhe pediu ajuda para alugar um apartamento vago no andar de cima para uma brasileira. Alguns passeios com o cachorro depois, os dois já não viviam um sem outro. “Nosso relacionamento foi inevitável. Só não foi mais rápido porque eu namorava uma menina de 47 anos e Fernanda ainda tinha namorado. Uma história esquisita, que também não sei se é verdade”, explica.
Com a convivência, os dois passaram a morar juntos. Pelo menos, o dinheiro do aluguel dela poderia ter outro fim. Foi quando as mentiras começaram. “Ela tinha umas crises de ciúme bem estranhas. A loucura dela ficou exponencialmente mais visível. No último mês, tentei terminar o namoro três vezes”, lembra.
Mas o que mais impressionou Estêvão foi o mundo que ela construiu e a quantidade de histórias inventadas. “Não eram coisas pequenas, como falar que foi ao mercado quando, na verdade, foi a outro lugar. Eram histórias longas, de situações que nunca existiram”. Era uma mulher de, pelo menos, quatro personalidades: uma com o namorado, outra com a família, outra com as amigas que sabiam que ela era garota de programa, outra com as que não sabiam... “Fiquei com muito medo, porque ela é completamente fragmentada. Sei lá eu o que essa mulher tem”, desabafa.
A descoberta
“Não tenho ódio, nem quero vingança. Foi uma pessoa que precisei enterrar”, diz Estêvão, que nunca mais falou com Victoria. Ou Fernanda. Ou seja lá qual for o nome. Na verdade, o relacionamento chegou ao fim sem que ela soubesse da descoberta. E numa cidade com a magia de Woody Allen, em que as pessoas vivem se encontrando, o receio de revê-la sem querer era grande. “Toda vez que entrava num bar, eu a imaginava vindo em minha direção e tacando uma taça de vinho na minha cabeça”, confessa. A desculpa foi dizer que precisava de um tempo sozinho – para depois, talvez, reatar. “Meu padrinho sugeriu que eu dissesse que tinha AIDS e teria de voltar ao Brasil para fazer exames. Mas não achei uma boa ideia”, diz, aos risos, sem traumas.
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Fernanda, que chegava a faturar 15 mil dólares por mês, dizia ser designer de interiores e sair à tarde para aulas de pós-graduação de Artes. “Ela tinha uns quadros, mas não sei até hoje se ela era a pintora. Se trabalhava como designer ou não, fez um trabalho de decoração incrível no meu apartamento”. E durante essas saídas é que Estêvão vasculhou um baú, onde ela guardava documentos, álbuns de fotos, livros e cadernetas. Debruçou-se ali por oito horas, durante três dias. “Não sou nada ciumento, mas essa mulher estava sob o mesmo teto que eu. Tinha o direito de investigar”.
E aí ele encontrou o que queria – ou não. “A agenda com os programas tinha códigos, demorei um tempo para decifrar a lógica. Depois achei o cartão com os valores que ela cobrava e tive certeza”. Por mais estranho que pareça, o jovem escritor não conseguia parar de rir. “Que Victoria fosse mentir sobre isso, é compreensível, mas tive que terminar o namoro antes que ela descobrisse que eu sabia o segredo”. Com o livro, talvez ela venha a saber. “Se um dia ela quiser me processar, tudo que está no livro é uma grande mentira. É só o meu olhar sobre o que me era contado, não é a vida dela”, avalia.
Filho de jornalistas, Estêvão sabe contar uma boa história. E fez isso sem medo de se expor. “Técnico de futebol é muito mais exposto e ainda é xingado. Eu vou só escrever um livro, então dane-se”, diz, tranquilo. “Meus amigos brincam que se o mundo estivesse acabando, eu estaria assando uma picanha e bebendo cerveja”, diverte-se. As namoradas pós-Victoria Blue não sentem ciúmes. “Mas é complicado, porque acabo contando detalhes da minha vida íntima sexual. E elas pensam: ‘O que eu vou falar para os meus pais?’”, ri, encabulado de dizer que é experiente, mesmo depois de relacionamentos com uma mulher de 47 anos e uma garota de programa. “Só me acho em relação à cozinha”, conclui.
Leia um trecho do livro:
Já havia visto junkies e gente esquisita em minha vida, mas todos juntos num mesmo local, tomando cerveja ao meu lado, era novidade. Um sujeito careca, gordão com tatuagens por todo o corpo, entrou no bar com um cachorrinho do tamanho de um ratão a tiracolo. O diabo do cachorro era uma graça, o que dava àquela figura ares de amabilidade.
Sentado ao balcão, eu bebia uma cerveja atrás da outra, tentando captar os fluidos da noite. Acabei por puxar conversa com uma loira americana de cabelos descuidados, dotada de um rosto com traços finos e olhos azuis muito bonitos e convidativos. Ela tinha uma voz
mansa, gostava de sorrir, mas seu olhar era de quem havia sofrido muitas dores do coração. De fato, ela ainda carregava a plaqueta de identificação do exército de seu noivo, morto a tiros num estacionamento por dois jovens viciados em crack.
Em pouco tempo de conversa ela me apresenta sua irmã, Jovana, que falava sobre sexo com o barman, algo sobre surubas; uma coisa levou à outra e obtive seu telefone. Ela se dizia “curiosa para provar uma carne mais nova”. Saímos dois dias depois, belo domingo, e logo estávamos aqui em casa trepando em meu sofá sujo.

Serviço
"Eu Amei Victoria Blue"
Estêvão Romane
Geração Editorial
R$ 29,90
190 páginas
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