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10/10 - 13:15hs

Nas capitais europeias, grafiteiros tentam driblar rigor da lei e conservadorismo
Artistas de rua do continente encaram multas altíssimas, "tolerância zero" e regras que os colocam na mesma categoria de ladrões

Solange Cavalcante, especial para o iG

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Pode ser a garotada do Rio, São Paulo, Roma ou Londres. Se tem uma coisa que os grafiteiros não gostam é de ter seu trabalho considerado genericamente como pichação ou vandalismo. Nas capitais europeias que vivem do turismo, é ainda pior. Quando monumentos artísticos e históricos começam a submergir entre tags (assinaturas), stickers (adesivos) e grafites, o resultado é que, volta e meia, os governos decidem ser severos até com quem não tem nada a ver com isso.

Alguns políticos europeus chegaram a criar uma entidade para combater o grafite, a Nofitti, com “tolerância zero” para o grafite nas capitais, principalmente. Uma das justificativas é o custo da limpeza de monumentos, metrôs, ônibus e pontes. Calcula-se, por exemplo, que a cidade de Berlim empregue, anualmente, cerca de 50 milhões de euros (115 milhões de reais) para se livrar das pinturas e das colagens indesejadas.

Muro em Roma com pintura de Hogre: sujeito a multa de até 2 mil euros

Já em Roma, a prefeitura estabeleceu, recentemente, multas de até mil euros (mais de dois mil reais) e prisão de um a seis meses para vândalos e artistas de rua, indiscriminadamente. Claro que isso não agradou aos street artists, e alguns resolveram se manifestar. “Ele não sabe distinguir vandalismo de street art”, criticou o locutor de um programa de rádio para jovens da periferia. “Aquilo que não se compreende, se reprime”. A raiva é até justificável, pois a prefeitura incluiu os artistas de rua no “pacote” municipal de combate à violência colocando, juntos, street artists e batedores de carteira.

“Não somos contra a arte de rua, mas contra a agressão aos monumentos e às obras de arte”, explica Paola Carra, da associação Retake Roma. Uma vez por mês, a entidade leva estudantes às ruas para descolar cartazes e limpar os muros. Até o prefeito aderiu. “Pedimos a ele uma lei contra a poluição visual e ele nos prometeu um projeto”, conta.

Fake grafita rua de Amsterdan, onde lei é mais branda para artistas de rua

O artista parisiense C215 não se importa muito nem com a polícia nem com as restrições. “Paris, Roma, todas as cidades adotam a política da limpeza, tratando a arte de rua como vandalismo. Mas são as pessoas que têm que dizer o que é arte ou não”. Ele conta que pintou uma Virgem na frente de uma igreja, em Roma. “Chegou a polícia e quis me prender. Mas o padre viu meu trabalho, achou bonito e até o abençoou”.

“Roma é bombardeada por cartazes, mas a culpa é também dos comerciantes”, acusa o street artist italiano Omino71. “Basta que uma lojinha de calçados faça uma liquidação que o proprietário espalha anúncios por toda a parte”. Para tentar uma solução, ele explica que é preciso, primeiro, saber bem como se dividem as tribos na arte de rua. “Começa que o grafite é filho da cultura hip hop, assim como o rap e o break dance. Eu, por exemplo, sou um street artist, porque venho do punk, e não do hip hop. São coisas diferentes”.

Mesmo com as diferenças, Omino diz que muita gente do grafite e da street art tem regras rígidas contra a pichação de monumentos. “Uma coluna romana não precisa da intervenção de ninguém”. E vai mais longe. “O tagging, que é quando o sujeito escreve o nome dele por aí, não serve a ninguém, nem a ele mesmo. É como o cachorro que faz pipi num poste”. Ele também reclama dos tags feitos por cima das produções dos artistas de rua. “Ofereceram um muro para o Uno, Urka, Hogre, Agostino e para mim, no bairro San Lorenzo”, conta, citando alguns dos artistas urbanos mais conhecidos de Roma. “Fomos lá, pintamos, mas já estragaram. Esses caras gostam de acabar com o trabalho dos outros”.

Desenho de Omino71: "Precisamos desestabilizar o cotidiano da cidade"

Omino garante que nunca usou spray. “Prefiro papel, gesso e sticker, que são mais fáceis de limpar”. Ele usa espaços publicitários vazios ou faz colagens em cima de propaganda política que, em Roma, também é desenfreada. “Precisamos desestabilizar o cotidiano da cidade ou, pelo menos, embelezá-la”, ele diz. Sobre quem escreve “te amo” ou “força, Roma” (o time de futebol) num muro de quase 2 mil anos (construído pelo imperador Aureliano, em 273 d.C), Omino dispara. “Para mim, é um débil mental ou alguém que precisa crescer”.

Rivalidade, multa e cadeia
Nos últimos tempos, Londres se dividiu entre as turmas de Robbo (ex-skinhead e ex-hooligan, da violenta torcida de futebol britânica) e de Banksy, o queridinho da cena de rua inglesa. Conta-se que os grafiteiros estão com Robbo e os street artists com Banksy. A briga entre os dois começou quando, em 2009, Banksy incorporou ao seu um grafite de Robbo, que figurava há mais de 25 anos no Regent’s Canal. Desde então, Robbo e seus “simpatizantes” passaram a interferir nos desenhos de Banksy. Onde Banksy mandou “Eu não acredito na guerra”, por exemplo, a turma de Robbo tripudiou com os dizeres “Tarde demais”. E assim por diante, onde quer que os grafiteiros encontrassem um trabalho de Banksy dando sopa. A imprensa e os aficcionados do mundo inteiro estão de olho no desenrolar dessa briga.

À parte essa disputa de egos na arte de rua de Londres, o fato é que a confusão visual ali é tanta que alguns governos locais, como o de Hillingdon, distribuem kits gratuitos para remover pichações em geral, bastando fazer o pedido pelo site. Só para livrar o metrô de grafites e stickers, a cidade gasta o equivalente a 160 milhões de reais por ano para limpar a cidade toda. Mas Keegan Webb, do blog London Vandals, ironiza essa cifra. “Na verdade, o governo gasta mais com o sistema judicial, botando o pessoal na cadeia, do que se limpasse a cidade dez vezes”.

Ele conta que as intervenções (artísticas ou não) na cidade não são permitidas. Em algumas paredes, as pinturas são somente toleradas por governo e polícia. “Ninguém te prende, mas às vezes a polícia deixa o pessoal à vontade, nessas paredes, só para espionar”, hipotiza. “Se você for pego, é melhor correr, porque a polícia nao vai deixar barato”, adverte o blogueiro. “Revistam sua casa atrás de provas e levam você para o tribunal. Se pegam em flagrante, então, é encrenca na certa”.

Pao deixou de pintar pinguins nas ruas de Milão para vendê-los em lojas

Em Londres, a pena para quem é pego grafitando se resume a serviços comunitários, se o “artista” for primário. Mas é bom que a polícia inglesa não reconheça sua assinatura em nenhum outro ponto da cidade: os reincidentes chegam a pagar o equivalente a 25 mil reais de multa. Pintar trens, no Reino Unido, também é um alto risco, e as sentenças podem chegar a 18 meses de prisão. Keegan conta, inconformado, que um jovem foi preso e acabou cometendo suicídio. “A gente se pergunta como é que o grafite é punido com esse rigor, enquanto quem comete crimes hediondos anda solto por aí”, protesta.

Há dois meses, numa visita oficial a Washington, o primeiro ministro britânico David Cameron presenteou o presidente Barack Obama com um grafite de Eine, um dos street artists mais populares do Reino Unido. “Mas no mesmo mês, o grafitista Image foi parar na cadeia porque foi pego”, conta Keegan, inconformado.

Das ruas para o "Olimpo das artes"
Há quem diga que 70% de Amsterdã seja coberta de pieces (ou “obras”). Fake, um artista urbano da cidade, conta que, ali, basta ter uma autorização escrita do proprietário do imóvel para que a polícia permita a pintura. Dessa forma, a coisa é mais ou menos tranquila. Caso não se tenha essa permissão, a multa é de €150 por metro quadrado “danificado” (quase 350 reais). Se forem pegos, os grafiteiros podem ficar presos de um a três dias. Os tribunais aplicam uma multa por vandalismo e obrigam a limpar o muro. Já da segunda vez, o tempo de xadrez aumenta e a multa também. Entretanto, a justiça holandesa é geralmente branda, porque o intuito é o de descriminalizar a arte de rua. A estratégia da prefeitura de Amsterdã é convencer a garotada a trocar a parede pela tela, patrocinando os trabalhos mais expressivos para que eles cheguem a galerias e museus.

Esse tem sido, mais ou menos, o caminho de alguns streets artists: num dia, circulam sorrateiramente na sombra das ruas das capitais; no outro, são chamados para as grandes galerias, museus e para o seleto circuito das artes. O inglês Banksy, por exemplo, já teve um trabalho arrematado pelo equivalente a três milhões de reais num leilão de caridade da Sotheby’s. Já na Holanda, essa talvez seja a estratégia do governo: de premiar os “bons” para desestimular os “ruins” (ou seja, os taggers), e livrar a cidade dos vândalos.

Fake, que garante respirar liberdade nas ruas de Amsterdã (ele diz que nunca foi multado), afirma que também não gosta dos taggers. “As pessoas gostam mais da street art porque ela é nova, popular e fácil de se gostar. Tornou-se mainstream”. Mas ser “mainstream” (acessível, comercial ou de moda) não é considerada uma coisa feia, no código das ruas? O grafiteiro Robbo, por exemplo, diria que ser comercial é coisa de filho de papai. Compreensível: Robbo é um sapateiro da periferia operária de Londres que sempre foi um inconformista. Mas Fake não concorda com ele. “Ser mainstream significa somente que mais gente vai ter acesso ao que você faz. Significa arte para todo mundo”, justifica.

Movimento "Stick My World" é rival dos "taggers": para eles, é vandalismo 

Sair das ruas para ser aceito oficialmente foi o que aconteceu com o artista urbano Pao, de Milão. Em 2000, ele resolveu pintar os chamados “panetones”, uns blocos de cimento que existem aos milhares na cidade e que servem para impedir o estacionamento de carros. Pao pintou fraques em diversos panetones, transformando-os em graciosos pinguins. Na época, a façanha lhe rendeu fama, mas também uma bela multa. Em abril deste ano, porém, Pao foi catapultado para a cena artística oficial: foi convidado por uma grande grife a colocar seus pinguins nos bondes de Milão e, em maio passado, estreou numa galeria. Hoje ele tem seu próprio estúdio artístico, que produz pinguins de brinquedo. Pao tornou-se bastante respeitado e pode até aparecer com seu nome verdadeiro, que é Paolo Bordino.

Omino71 vê a ascensão dos street artists ao circuito da arte “de verdade” como um percurso natural. “A street art é a verdadeira arte contemporânea”, afirma. Antes, o artista só dava entrevistas cobrindo o rosto com um chapéu. Hoje, ele organiza mostras e projetos para divulgar seu talento e o de outros artistas. No momento, está promovendo projetos como o “Stick My World” (adesivos artísticos do mundo todo), o Eikonprojekt (com o artista Mr. Klevra, de pôsteres de santos em estilo bizantino) e a exposição 20th Keith, pelos 20 anos da morte do artista de rua americano Keith Haring.

Recentemente, a imprensa britânica divulgou que Robbo fechou sua sapataria e foi a uma galeria de arte, vestindo jaqueta com capuz e calça de agasalho. Ele acompanhou um leilão e até desejou ter um trabalho seu exposto ali, se aceitasse ir pelo mesmo caminho de Banksy, por exemplo. O rebelde pichador de trens teria declarado que nunca ganharia dinheiro vendendo seus grafites. “Mentiroso!”, atacou o francês C215. “Ele está na galeria Pure Evil, de Londres, vendendo as coisas dele!”. E a rivalidade continua.

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