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26/08 - 17:42hs
Gravadoras de bandas independentes lançam filmes "faça você mesmo"
Selos de rock indie abraçam diretores de cinema de baixo orçamento e criam formas novas de distribuir e divulgar as obras
NYT
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Numa noite deste verão norte-americano, um pequeno grupo de pessoas, muitas delas de óculos e bolsas tipo carteiro, reuniu-se no bar Zebulon, em Williamsburg, Nova York, para ver um novo filme de orçamento pequeno chamado “The Builder”. A história de um imigrante irlandês se desenrolava lentamente, levada muito mais pelo ambiente do que pelos diálogos, mesmo assim a plateia assistiu com paciência, sentada em pequenas mesas à luz de velas e cervejas na mão. “É a antítese de um típico evento de cinema de verão. Isso aqui é muito mais intimista do que ver o filme no cinema”, disse R. Alverson, diretor do filme.
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Tudo em “The Builder” parece intimista. Alverson, um músico que virou cineasta, produziu o filme com amigos e atores inexperientes com um orçamento de US$5.000 (cerca de R$ 8.800), incluindo os gastos com o equipamento. Para lançá-lo, ele foi atrás do Jagjaguwar, uma gravadora de rock independente de Bloomington, estado de Indiana, cuja safra de músicos inclui BonIver, Okkervil River e a antiga banda de Alverson. O selo lançou “The Builder” em DVD, organizou algumas sessões de projeção e torceu pra tudo dar certo.
“Não temos nenhuma experiência como distribuidores de filmes. Estamos lidando com a distribuição da mesma forma que fazemos com música, ou seja, encontramos um bom local e colocamos o trabalho à mostra de maneira digna”, disse Chris Swanson, um dos responsáveis pelo selo.
A platéia era pequena, mas o Jagjaguwar já concordou em financiar o novo filme de Alverson. Para a distribuidora, ele é visto como um investimento artístico: ajudá-lo a desenvolver sua obra é o mesmo que apoiar uma banda a lançar seu primeiro CD. “Percebi que sua voz artística é muito mais forte para o cinema, e se ele tiver um trabalho contínuo, isso terá um significado real. E nosso público sabe dar valor nisso”, disse Swanson.
O Jagjaguwar é um dos vários selos de música independente que se transformaram em distribuidora de filmes, algumas seguindo o modelo traçado por selos de punk seminal, como o Dischord e o Touch and Go: mantendo-se pequeno, conhecendo seu público e lançando coisas que ele gosta. Nos últimos anos, o mundo do cinema e da música independente se estratificou, espremidos pelas vendas digitais, por um mercado de entretenimento saturado e pelo colapso de grandes divisões de estilos especializados. É bem mais difícil lucrar atualmente. Mas poucos descobriram que existe um nicho, e uma clara sobreposição, em lançar musica e filmes ao estilo “faça você mesmo”.
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“As duas mídias não são exatamente iguais, mas o jeito de fazer as coisas e de fazer a divulgação tem muitas semelhanças”, disse David Fenkel da Oscilloscope Pictures, empresa fundada por ela juntamente com Adam Yauch, muito mais conhecido como o MCA do Beastie Boys. “Uma campanha promocional de um filme não é tão diferente assim de sair em turnê com um músico e criar um evento”, disse Fenkel, para quem a evolução da música para o cinema é “natural” e “incrível”. Em seus dois anos de experiência, a Oscilloscope já lançou vários filmes e documentários que despertaram a atenção do público e até mesmo conseguiram algumas indicações ao Oscar, como em “The Messenger” e “Burma VJ”.
Nos últimos meses, o selo de Chicago Drag City distribuiu “Trash Humpers”, quinto filme de Harmony Korine (roteirista de “Kids”, de Larry Clark). “Ficamos muito felizes em assumir o projeto, pois é algo novo e diferente, e nós gostamos de coisas assim. E também porque não tem a ver com o mercado musical no momento, que está meio em crise”, disse Rian Murphy, diretor de vendas do Drag City. O selo, que representa músicos como Joanna Newsom e Silver Jews, comprou cópias do filme e “garantiu que as mesmas estejam sempre rodando” em todo país.
“‘Trash Humpers’ não seguiu os caminhos tradicionais de distribuição de filmes, pois não sabemos quais são eles”, disse Murphy. Ele completou: “Se alguém nos envia um email, e essa pessoa não é completamente lunática, ou mesmo se é, e tem dinheiro e um filme...”
O resultado é que o filme foi exibido em um bar de Chattanooga, no Tennessee, em uma livraria em Houston e no George Eastman House, museu de fotografia de Rochester, Nova York – atravessando as fronteiras do centro de artes. (Quantos filmes? Murphy não soube responder; a empresa mal assina contratos com seus artistas. Na opinião do empresário, “isso muda o clima”.) O DVD de “Trash Humpers” tem lançamento agendado para setembro.
No ano passado, Matt Grady fundou a Factory 25, distribuidora que lança discos de vinil acompanhando seus filmes. Com as vendas de DVD ameaçadas pelos downloads digitais, Grady sabia que iria precisar de outra abordagem para atrair os consumidores, mas ele não queria sacrificar o objeto físico. Então criou pacote de DVDs com edições limitas de LPs. “Eu queria criar algo legal, como um objeto de fetiche desejado pelas pessoas”, disse ele.
Na maioria dos casos, o álbum é a trilha sonora do filme, mas para “Make-Out With Violence”, filme de zumbis para adolescente que será lançado este mês no RerunGastropub Theater, no Brooklyn nova-iorquino, a Factory 25 estará lançando a música de uma banda, a Non-Commissioned Officers, formada pelos protagonistas do filme. A banda se formou durante as filmagens e desde então está em turnê, além de ter tocado no Bonnaroo, festival de música do interior do Tennessee.
Entretanto, nem o filme nem a banda são tão conhecidos assim. Um número típico para Grady – único funcionário da Factory 25 – é um total de 1.000 DVD-LPs. Ele precisa vender cerca de 400 deles para atingir o ponto de equilíbrio financeiro. Ele também comercializa seus lançamentos no iTunes e disponibiliza downloads em seu próprio site. Ele espera conseguir construir a reputação da Factory 25 com um catálogo de filmes difíceis de encontrar em qualquer lugar, tendo em mente os colecionadores. “Estou lançando um documentário sobre o black metal – para um gênero tão específico, as pessoas vão querer algo físico. Definitivamente estou atrás de títulos que tenham um público específico, seguidores que anseiam por algo assim”, disse ele.
Esse também é um dos objetivos de Todd Sklar, 26 anos, que bebe na fonte do mundo musical mais diretamente: ele leva os filmes em turnê. Começando em 2008 com seu próprio filme, uma comédia universitária, ele rodou os Estados Unidos em uma van com alguns parceiros de empreitada, dormindo em sofás de amigos e montando projeções para filmes inéditos – dentre eles alguns favoritos de festivais. No ano passado, sua empresa, a Range Life, levou 14 filmes para 40 cidades, usando seu Toyota 1986 como escritório móvel. Ele já construiu uma rede de cinéfilos e contatos de mídia em cada parada, mas ainda está afinando seu plano de negócios. Ganhamos dinheiro para os filmes, mas nossa empresa só está conseguindo se manter”, disse Sklar, que se mudou para Nova York em fevereiro. Para aumentar sua receita, a RangeLife alavancou sua credibilidade como empreendedora do “faça você mesmo” para promover filmes como “Exit Through the Gift Shop”, documentário sobre Banksy. No outono norte-americano, a empresa irá levar oito filmes para 85 cidades.
Janet Pierson, produtora do festival SXSW que ocorre em Austin, estado do Texas, disse que ainda é cedo demais para dizer o que pode ou não funcionar nesse cenário criativo em plena mutação, mas afirma as possibilidades deixaram muita gente empolgada. “Nem a indústria fonográfica nem a cinematográfica pode contar com o que as sustentou por várias décadas, então todo mundo está tentando descobrir o que pode ser feito, como poderemos nos conectar com os diferentes públicos”, disse ela.
Como mostram a Oscilloscope e diversas bandas independentes bastante determinadas, o sucesso pode ser encontrado às margens do mercado dominante. Fenkel, da Oscilloscope, diz: “É tudo uma questão de gosto. A prioridade é encontrar e lançar filmes porque você quer lançá-los e trabalhar com eles de forma digna”.
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