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24/08 - 12:56hs

"Sociedades discretas" para adolescentes mantêm vivos rituais seculares

Ordens de jovens maçons, rotarianos e da ACM parecem misteriosas, mas quase sempre existem para promover liderança e caridade

Emilio Franco Jr, especial para o iG

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Milhares de jovens brasileiros fazem parte de organizações semi-secretas (na verdade, eles as definem como “discretas”, e não “secretas”) formadas exclusivamente por adolescentes. Muitas vezes cercados por mistérios e histórias mal-contadas, esses grupos têm quase sempre a intenção de promover a liderança de seus integrantes e realizar trabalhos sociais. Nossa reportagem foi conhecer três sociedades do tipo – a Ordem Demolay, o Rotaract e a ACM. Veja o que descobrimos.

A Ordem Demolay
A seriedade dos jovens logo chama a atenção. Meninos que chegam ao templo maçônico de bermuda e camiseta, em poucos minutos estão de calça social preta, camisa branca e gravata preta, a roupa oficial sem a qual não podem participar das reuniões da Ordem Demolay. “A vestimenta em duas cores simboliza a dualidade entre os opostos, assim como a luz é oposta à sombra”, filosofa Murillo Gomes Ferrarez, 20 anos (seis como membro da organização), mestre conselheiro – espécie de presidente – da região metropolitana de São Paulo.

Na roupa oficial dos encontros, cada cor ou detalhe tem um significado

Sob a tutela da Maçonaria, a Ordem completa 30 anos no Brasil em 2010. Fundada em 1919 nos EUA, para unir garotos de 12 a 21 anos que perderam os pais na 1ª Guerra Mundial, o Demolay tem o objetivo principal de transformar jovens em líderes – segundo eles, por meio do fortalecimento de sete virtudes: amor pelos pais, referência ao sagrado, cortesia, companheirismo, fidelidade, pureza e patriotismo. “A maçonaria investe na Ordem por julgá-la fundamental no engrandecimento da humanidade”, conta José Roberto Torquato da Silva, maçom responsável por uma subdivisão da Ordem, o Capítulo Frank Shermann Land.

Por ser uma ordem discreta, como eles dizem, e não propriamente secreta, o Demolay desperta a imaginação de quem não conhece direito seu funcionamento. Parte do mistério existe em função da origem do grupo. O nome Demolay é uma homenagem ao último grão mestre da Ordem dos Templários, Jacques DeMolay, que foi queimado na fogueira pela Inquisição por se negar a entregar seus companheiros e os segredos que guardava. Em respeito a essa história, os jovens preservam a tradição e por isso pregam a amizade e a discrição.

Guilherme Falconi, nomeado diácono, zela pela "vela das virtudes"

Murillo também explica que os sinais, cumprimentos e rituais secretos são apenas uma maneira de preservar essas tradições sem alterações ao longo do tempo. “Nossa ritualística é fechada para não perdermos os detalhes com influências externas”, diz. “Até podemos ter segredos, mas o mais importante são os trabalhos filantrópicos que realizamos”, desconversa. Entre as ações principais, cita, estão as campanhas de doação de sangue e medula óssea.

A Ordem é divida em dois graus, o iniciático, formado pelos recém-ingressados, e o Demolay, que reúne os mais experientes, elevados após uma sabatina para testar seus conhecimentos. Neste caso, além do traje social, os membros vestem uma capa preta com detalhes em vermelho e dourado. “O vermelho representa o sacrifício para nosso aprimoramento e evolução; o preto representa o mistério e simboliza a morte da antiga vida fora da Ordem; já o dourado, significa as virtudes de cada membro”, explica Murillo.

Os meninos que atingem o segundo grau são divididos em cargos e cada um tem seu dever. O Capelão, por exemplo, é responsável pelo elo entre os membros e o Pai Celestial – que não é chamado de Deus já que todos os credos são aceitos. A autoridade máxima é o mestre conselheiro, como é o caso de Carlos Augusto Bicudo Caraça do Nascimento, 18 anos, empossado recentemente no comando do Capítulo Frank Shermann Land nº59 do Grande Conselho de Capítulos Demolay do Estado de São Paulo. “É uma grande responsabilidade, mas é um sonho que estou realizando”, celebra Carlos.

Patriotismo é uma das "sete virtudes" buscadas pelos jovens da Ordem

Para ingressar na Ordem Demolay, o jovem deve ser indicado por algum integrante da organização ou por um maçom. Depois disso, o candidato é submetido a uma sabatina na qual os meninos buscam conhecer melhor a formação e as ideias dos chamados forasteiros. “A Ordem não é uma religião ou seita, mas a crença em um ser supremo é um dos requisitos para ingressá-la”, explica José Roberto Torquato.

Os garotos que fazem parte da Ordem afirmam reconhecer o valor dos aprendizados. “Em meio aos Demolays tive importantes exemplos para a minha formação, os quais, provavelmente, eu não teria em outros lugares”, acredita Carlos. Para Murillo, a maior lição é o companheirismo. “Não julgamos as pessoas, damos logo um abraço fraterno”, garante.

O Rotaract
O Rotary é uma organização bastante difundida e famosa. Entretanto, o grupo apresenta ramificações pouco conhecidas voltadas exclusivamente para os jovens, como é o caso do Rotaract, dedicado a meninos e meninas de 18 a 30 anos, e do Interact, para o pessoal de 12 a 18 – este último possui menos grupos formados. O lema de todos eles é “companheirismo através do serviço”.

Jovens do Rotary (também fundado por maçons) em ação no grupo Rotaract

Assim como a Ordem Demolay, o Rotary foi fundado por maçons com a proposta de desenvolver a liderança e as relações profissionais de seus integrantes – quase sempre por meio de trabalhos sociais. Para ingressar não é necessário ser convidado, mas seus líderes explicam que é apropriado que o interessado procure um clube que responda aos seus anseios. “Em São Caetano, por exemplo, mantemos uma creche e uma sala de alfabetização de adultos”, conta Felipe Alan Rifa, 26 anos, fundador do Rotaract Club São Caetano do Sul Olímpico.

O Rotaract também possui uma hierarquia interna. Cada clube tem seus presidentes, secretários, tesoureiros, entre outras funções. Ana Paula Rodrigues da Silva, 22 anos, é a atual presidente do Rotaract fundado por Felipe. “É uma experiência nova e muito diferente em minha vida. Estou aprendendo muito”, orgulha-se. Para ela, a principal dificuldade é coordenar outros líderes. “Todos têm ideias diferentes e isso é complicado, mas também é saudável”, afirma. “A cada dia aprendo mais sobre a importância de aceitar os diferentes pontos de vista”, confessa.

Para ela, outra grande dificuldade é encontrar jovens com vontade de dedicar parte de seu tempo livre para atividades filantrópicas. “É raro ver garotos que queiram pensar em outras pessoas além deles mesmos nessa fase da vida”, lamenta a presidente do Rotaract. “Se as pessoas soubessem o que fazemos seria diferente”, acredita. “Além de ajudar os outros, amadurecemos como seres humanos e profissionais”, afirma.

O Brasil concentra o segundo maior número de rotaractianos no mundo, perdendo apenas para a Índia. São cerca de oito mil jovens, divididos em mais de 600 núcleos. Felipe Rifa afirma que participar do grupo lhe trouxe diversos ganhos, inclusive profissionais. “As empresas valorizam quem realiza trabalhos assistenciais. Isso não acontece apenas pela caridade, mas porque o jovem adquire experiências de vida que vão além da sala de aula”, afirma.

A ACM
Ao contrário do que muita gente pensa, a ACM (Associação Cristã de Moços) não é apenas uma academia ou espaço para lazer. A organização também leva a sério a tarefa de ensinar jovens a ocupar papéis de liderança. Atualmente, doze mil associados, entre meninos e meninas de 15 a 30 anos, integram as unidades paulistas da Associação – cujas unidades às vezes parecem mesmo uma academia de ginástica. A parte destinada a essa faixa etária é chamada de CampusACM.

Associação Cristã de Moços: 12 mil sócios e foco em liderança e caridade

Com a orientação de um conselho de 33 jovens de suas diversas unidades, a Associação afirma ter três objetivos principais: Desenvolvimentos do Caráter, da Liderança e da Habilidade de Convivência. Isso, para eles, ocorre de diversas maneiras. Romulo Augusto Gomes Dantas, secretário-executivo da ACM São Paulo, diz que o esporte, por exemplo, é a atividade que consegue envolver a maior quantidade de jovens. Além de incentivar essa prática, o voluntariado é outra missão abraçada pelo grupo. “Na unidade da Lapa, os jovens cuidam de praças, realizando o trabalho de limpeza. O pessoal de Santo Amaro, por sua vez, faz campanhas de doações para uma instituição que cuida de crianças”, explica.

Os jovens contam com duas instâncias na organização. O Corpo de Líderes tem encontros semanais em todas as sedes. “São reuniões preparatórias para as nossas atividades”, explica Romulo. “Discutimos agendas, prioridades e ações que envolvam a sociedade”, completa. Já o Conselho do CampusACM é só um, o mesmo para todas as unidades. “Essa instância é mais ligada a temas de estratégia e gestão”, pontua Romulo.

O presidente do CampusACM, Leonardo Bitencourt Tamagusuku, de 19 anos, conta que as reuniões começam com uma saudação ao Pavilhão Nacional. Na sequência, os acemistas realizam um ato devocional para refletir sobre o trabalho do grupo. “Apresentamos relatórios de atividades e novas propostas que contemplem a juventude”, explica. “Dialogamos sobre liderança, cidadania e outros temas importantes”, completa. 

Os jovens contam ainda com programas de intercâmbio cultural, o mais recente aconteceu na China para debater a cidadania global. “Lá discutimos as posições da organização no plano mundial”, diz Romulo. “Aproveitamos esse momento para compartilhar boas práticas nas áreas social e educacional”, acrescenta.

Além de a organização reunir jovens engajados, a ACM desenvolve valores que fortalecem a amizade. “É um lugar no qual as pessoas te aceitam como você é e estão prontas para aprofundar os laços de amizade”, conta Romulo. “A ACM ajudou a definir meu caráter, minha fé, profissão e a forma como encaro a vida”, pontua. “É uma escola e a maior preocupação é entregar ao mundo pessoas para fazer a diferença”, conclui. Leonardo Bitencourt tem pensamento semelhante. “A ACM influenciou minha formação como líder e como pessoa”, conta.

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