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22/06 - 20:30hs
Colégio tem convênio com agências para aprovar modelos que não vão à aula
No Avanço (SP), parceiro de empresas como a Ford Models, basta ter 25% de presença e fazer trabalhos em casa para ser aprovado
Nathália Ilovatte, iG São Paulo
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Modelos e atletas têm um dia a dia cheio de compromissos que, às vezes, são imprevisíveis. E, como muitos são jovens e ainda não concluíram o Ensino Médio, uma pergunta frequente é: como conseguem conciliar as atividades paralelas com o colégio? Na última São Paulo Fashion Week, o iG Jovem apurou que alguns deles não precisam ter a frequência em aulas mínima exigida pelo Ministério da Educação, que pede 75% de presença, para garantir o diploma do terceiro ano.
O Colégio Avanço, em São Paulo, oferece alternativas para quem não vai à escola, ou tira notas baixas. Foi lá que a modelo Cecília Buscarioli, de 18 anos, concluiu os estudos. “Fiz o segundo e o terceiro ano [do ensino médio] aqui em São Paulo”, contou, nos bastidores da semana de moda paulista. “Mas esse colégio em que eu estudei é meio que... especial. Ele tem convênio com a Ford Models, porque não dá para a gente ir à aula. A gente ia quando dava, mas nunca tínhamos tempo, então o colégio é mais para você ter o diploma mesmo. Quando eu quiser prestar vestibular, vou ter que fazer um cursinho”, explica.
O convênio entre a Ford e o colégio oferece às modelos um desconto na mensalidade, de R$ 1.188,87. Outras modelos da agência confirmaram à reportagem que o sistema de aprovação do Avanço funciona dessa forma. Uma delas, de 19 anos, que também desfilou na SPFW e pediu para não ter o nome citado, cursou ali o terceiro ano do Ensino Médio. “Eu só ia à escola para fazer prova. Era um teste com 72 questões e eu chutava todas. Não via a nota da prova, só a média final, que era sempre cinco, o suficiente para passar”.
Nas paredes do Avanço, há um mural repleto de “composites” (espécie de currículo fotográfico) de modelos da Ford e de outras agências. “Se o aluno não tiver 75% de frequência, vai estourar o limite de faltas. Mas, se ele tiver pelo menos 25%, pode fazer a reposição, que é pagar mais uma mensalidade e fazer trabalhos em casa”, explica uma das secretárias do colégio, Priscilla Menengelo. “É tranquilo, principalmente para quem tem uma atividade mais puxada fora da escola”, disse à reportagem, que se passava por interessada em fazer a matrícula.
A comunidade do colégio no Orkut exibe mensagens de ex-alunos que reforçam a ideia de que eles são aprovados com facilidade, mesmo não frequentando as aulas. Num dos tópicos, uma usuária da rede social conta que seu irmão é modelo e não quer perder o ano, mas não tem tempo de ir à escola. Em resposta, o ex-aluno “Lucas P. de L.” a acalma: “(...) tem gente que paga um ‘a mais’. Um menino da minha sala, quando eu estudei, fazia isso. Ele trabalhava e precisava faltar em certos dias da semana, então, com o ‘a mais’, os caras cobriam as faltas dele, e ele não reprovava por isso”. No mesmo post, o usuário afirma que notas também não são problema no Avanço. “As provas são fáceis e eles sempre estão abertos a uma negociação financeira, tudo em prol do aluno, como eles dizem”.
A diretora responsável pelo colégio, Marta Bittar, afirma que, de acordo com a legislação, não há nada de errado com o método de reposição utilizado pela escola. “Não adianta você tentar questionar o que está sendo feito se a lei permite. Se o aluno teve 25% de frequência, pode fazer a reposição”. De fato, o artigo 79 do parecer nº 67/98 do Conselho Estadual de Educação informa que “os critérios e procedimentos para o controle da frequência e para a compensação de ausências serão disciplinados no regimento da escola”.
Na explicação da diretora, “o aluno [que tiver pelo menos 25% de presença] pode fazer reposição, e ele não precisa repor a carga horária, mas o conteúdo perdido em aula”. Isso significa que basta o aluno comparecer em 25% das aulas no ano letivo (pouco mais de um dia por semana), pagar uma mensalidade extra e fazer, em casa, trabalhos complementares para ser aprovado.
Quando questionada sobre a efetividade dessa reposição do ponto de vista pedagógico, Marta afirma que isso depende do aluno. “O conteúdo do ensino médio é muito complicado, tem coisas que eles só vão ver por ver, tem muita coisa que eles não vão usar”, disse. “Tem alunos que estudaram aqui e entraram em faculdade federal”. No entanto, ela não sabe afirmar o índice de aprovação em vestibulares. “Não marco índice de aprovação. Aqui eu não rotulo aluno”.
A diretora também não sabe dizer qual é o índice de reprovados no Ensino Médio do colégio. Isso porque, além do sistema de reposição via trabalhos, ainda há duas recuperações por ano. Se mesmo assim o estudante não conseguir ser aprovado, ele passa de ano, mas faz uma “dependência” no ano seguinte. “Nós temos progressão automática, antigamente falava dependência. Ele é aprovado, mas fica com DP [dependência]. Há uma reprovação para o [aluno] que não faz nada, mas é um número pequeno”.
Na opinião dela, o Avanço é um colégio diferenciado. “Eu tenho alunos com dislexia, ou que estão tratando problemas com drogas. Todas as escolas rejeitam esses alunos. E a maioria aqui é filho de ministros, deputados, artistas e outros, inclusive do Conselho Estadual [de Educação]. São alunos rejeitados pela sociedade e outras escolas e nós recuperamos esses alunos. Então há muitos motivos para aprovar um aluno desses”.
Procurada pela reportagem do iG, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo decidiu ir ao colégio para apurar se havia “venda” de presença. Um supervisor do órgão visitou a escola e abriu uma apuração preliminar para dar andamento à investigação. “Se for comprovado que acontece alguma irregularidade, a Secretaria vai abrir uma sindicância e providências serão tomadas”, afirmou a Secretaria, através de sua assessoria de imprensa.
Sobre o comentário da ex-aluna e modelo citada no começo da reportagem, de que todos tiram nota 5, Marta foi evasiva. “Eu acho um comentário bem sem lógica, porque eu acho que se você está em um lugar que acha que não está sendo de acordo, a primeira coisa que tem que fazer é sair desse lugar”, sugeriu.
A agência de modelos Ford Models foi procurada insistentemente pela reportagem, que por diversas vezes explicou o enfoque da notícia a sua assessoria de imprensa, mas não se pronunciou a respeito.
Veja trechos da entrevista com Marta Bittar, diretora responsável pelo colégio:
Entrevista a Nathalia Ilovatte e Pedro Carvalho
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