iG - Internet Group

iBest

brTurbo

meninos

17/06 - 12:44hs

O surfista verde

Engenheiro de 24 anos cria a primeira prancha do mundo a receber
o selo "Carbon Free", mas ainda esbarra no preço da ideia

Jaqueline Li, especial para o iG

> Leia também: grafiteiro leva Copa a prédio ocupado em SP
> Surfista Lucas Silveira, 14, vive sonho real no Havaí
> Siga o iG Jovem no Twitter!

Surfar exige conexão total com a natureza. Mas você sabia que é possível fazer ainda mais? Ciente de todo material nocivo que é empregado na fabricação das pranchas, Daniel Aranha, um engenheiro de materiais de 24 anos, uniu o útil ao agradável. Surfista, ele não poupou esforços e descartou mais de 50 protótipos até chegar ao ideal de uma “board” 100% ecológica, fabricada artesanalmente em um dos galpões de sua empresa SurfWorks em São Paulo e Santos.

Daniel em sua fábrica: "quero passar a vender tecnologia, não pranchas"
 
Pode-se dizer 100% ecológica porque não só os materiais que utiliza na confecção da e-board (como é chamada a “prancha ambientalmente correta”) são orgânicos e recicláveis, mas todo o processo de manufatura é livre de compostos tóxicos. O bloco é de poliestireno expandido (água é usada no lugar dos tradicionais solventes durante a expansão) e não de poliuretano derivado da extração do petróleo. A pintura é feita com corantes naturais, a resina de revestimento não exige antiquados catalizadores, e a sobra da cura com o endurecedor é apenas água. As quilhas são recicladas e a longarina é feita de madeira certificada. Da feitura à logística (todo consumo de energia elétrica, transporte e reaproveitamento dos resíduos) tem seu CO2 neutralizado através do programa Carbono Social, fazendo dela a primeira prancha do mundo a receber um selo carbon free.

Para merecer esse status, outros méritos vão para lista do projeto de Aranha: a cada prancha, ele economiza 16 kWh de energia (o suficiente para passar roupas por um mês), graças ao reaproveitamento de materiais. São evitados 600 gramas de CO2, já que a origem da matéria prima não depende mais da extração mineral. Dois quilos de resíduos deixam de ser gerados como lixo, pois são 100% reciclados na fábrica, reaproveitados na forma de sabonete, xampu e cartões de apresentação da empresa. O engenheiro também já compôs diversos troféus para campeonatos de surf com os materiais que reutiliza. 
 
Praticante do esporte desde os 12 anos, ele também se preocupou com que a e-board cumprisse certas exigências de todo surfista: boa resistência e pouco amarelamento conforme ela envelhecesse. E explica que conseguiu resultados de flexibilidade em impacto melhores que os habituais, utilizando resina epóxi a base d'água e sem cheiro. "O filtro de proteção solar não é uma novidade, mas muitas fábricas vendem equipamentos dizendo que colocam o protetor UV e não o colocam, devido seu alto custo", acusa Aranha.
 
Vem daí sua frustração por não vender tantas “pranchas verdes” quanto gostaria. "Infelizmente produtos ecológicos são associados a baixa qualidade, o que é mentira", revida o idealizador. "Porém, como todo o processo tem que ser sustentável, desde a extração da matéria prima até o produto final chegar ao cliente, alguém tem que pagar a conta", explica. Atualmente elas podem ser encontradas somente nas lojas Osklen, principal mantenedora do Insitituto-e, organização sem fins lucrativos que reverte parte do faturamento de iniciativas como essa para programas de proteção ambiental. Feitas sob medida para o surfista, as e-boards tendem a custar quase o dobro de uma comum e
acabam tendo mais saída para o estrangeiro, segundo Aranha.
 
Mesmo com a agenda disputada, o empreendedor apaixonado pela natureza consegue dedicar-se a projetos de educação ambiental, de desenvolvimento da e-wax (a parafina biodegradável como a prancha, que é feita de cera de abelhas) e a outras iniciativas interessantes para melhoria da qualidade de vida. É o caso da parceria com a cooperativa profissionalizante da praia do Campeche em Florianópolis/SC que confecciona a e-fin (a quilha ecológica). Ali, garotos entre 17 e 22 anos recebem instruções quanto às técnicas artesanais de shape e fabricação de quilhas, usando além das sobras de resina, materiais de marinas e estaleiros que seriam descartados.
 
O microempresário segue fazendo planos para o futuro: quer deixar de produzir pranchas e passar a vender tecnologia. Seu objetivo é transformar o e-board em um selo reconhecido. "O selo que temos do Instituto-e é usado para empresas que adotam novos processos e métodos produtivos, porém não no desenvolvimento de novos materiais e técnicas para diversas aplicações, que é o que a SurfWorks faz", complementa. E ele segue disposto a ampliar sua luta pela preservação do meio ambiente: "o jovem que tiver ideias de como reciclar ou neutralizar matéria-prima tóxica, reutilizando-a em novos produtos, pode contar com a minha ajuda e a minha estrutura para o seu desenvolvimento".

Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG



Contador de notícias