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14/04 - 18:11hs

Cyberbullying é mais frequente que bullying, diz estudo pioneiro
Primeira pesquisa nacional sobre violência escolar mostra que maioria das agressões envolve a internet e os meios digitais

Nathália Ilovatte, iG São Paulo

Uma pesquisa inédita no Brasil revela que o cyberbullying, violência entre jovens praticada por meios virtuais, já é mais frequente que o bullying, as agressões feitas pessoalmente, normalmente dentro das escolas. Dos 5.168 alunos que participaram da pesquisa, realizada nas cinco regiões do País, 10% já sofreram ou praticaram bullying, enquanto 16,8% foram vítimas e 17,7% praticaram o cyberbullying. O estudo foi realizado pela ONG Plan Brasil, que atua no desenvolvimento de crianças e adolescentes.

De acordo com Cléo Fante, especialista em bullying e consultora da pesquisa, a internet favorece as agressões porque propicia a quem pratica o bullying uma falsa sensação de impunidade e anonimato. Ela também acredita que os números sejam maiores no caso de bullying virtual porque há quem comece a agredir um colega na escola e continue quando chega em casa, pela internet. “Também há aqueles que só têm coragem de fazê-lo virtualmente”, explica.

A diferença entre um e outro tipo de violência é simples. Enquanto o bullying é praticado pessoalmente, com constantes xingamentos, piadas de mau gosto e agressões físicas, o cyberbullying acontece em e-mails maldosos, comentários agressivos em redes sociais e perfis falsos criados para difamar alguém. As causas e efeitos de ambos são os mesmos, o que muda é o meio em que ocorrem.

“Mesmo os 10% [do bullying real] são uma porcentagem muito significativa”, lembra Gisella Lorenzi, do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor, que realizou a pesquisa em parceria com a Plan. “E se considerarmos que talvez haja um constrangimento da vítima em declarar que é alvo de bullying, fica fácil imaginar que esse número pode ser mais alto”, acredita.

Aconteceu comigo
A adolescente T.C., de 15 anos, sabe bem como o cyberbullying funciona. Fã do NX Zero, da Tessália do BBB e dos livros da Stephanie Meyer, ela tem várias amigas no colégio, mas se aproximou da maioria delas esse ano, quando mudou de turma. As meninas com quem estava acostumada a conversar e sair deixaram de ser suas amigas no ano passado, depois que um perfil fake no Orkut, que começou como brincadeira, causou brigas físicas e envolveu até a polícia. “Criei o perfil para conversar com outros fakes. Uma amiga fez isso primeiro e me incentivou a criar também”, conta. “Só que, um mês depois, um perfil sem fotos e sem amigos me adicionou e começou a fazer ameaças”, conta.

Não parou por aí. O anônimo também adicionou amigas de T.C. e começou a difamar a garota para elas. “Ele dizia que eu era falsa, que falava mal delas para outras pessoas e que iria hackeá-las”. Para a surpresa da adolescente, as garotas acreditaram no que o perfil anônimo dizia e se afastaram dela. “Isso aconteceu nas férias. Quando as aulas voltaram, ninguém falava comigo. Uso cadeira de rodas há quatro anos e, em uma das nossas discussões, tentaram me derrubar da cadeira”, lembra. Foi quando a briga tomou proporções maiores. “Minha mãe teve que se envolver. O advogado dela foi à minha escola, a polícia também. O colégio ficou em cima do muro e o caso não se resolveu, só foi abafado”, diz.

O desfecho violento da história abalou T., que ficou um mês sem ir às aulas. A decepção se agravou quando suspeitas da autoria do perfil anônimo caíram sobre uma amiga. “Um dia, conversando com uma das meninas pelo telefone, disse que minha mãe ia contratar alguém para descobrir quem estava me difamando. Ela entrou em pânico, perguntou o porquê disso e me disse para esquecer esse assunto. Uma hora depois dessa ligação, o perfil foi deletado”, diz. “Ela era minha melhor amiga e vinha à minha casa sempre. Foi horrível”, lamenta. Felizmente, T. deu a volta por cima e, hoje, está melhor do que antes. “Agora estou muito bem! Mudei de turno e de turma e só vejo as meninas que fizeram isso na hora da saída. Estou em uma classe ótima, que só tem pessoas de cabeça aberta e sem preconceitos”.

Perfis anônimos parecem ser um meio bem comum para pessoas descontarem sua agressividade sem sofrer as consequências. A jornalista Thalita Oliveira tinha 20 anos (hoje tem 24) quando abriu o Orkut e deu de cara com scraps ofensivos e ameaçadores de um perfil com a foto do palhaço Bozo. “Na época, estava na moda um modelo de celular pink e eu fui uma das primeiras pessoas a ter. Aí o Bozo deixou um scrap dizendo que ia me sequestrar, junto com o meu celular”. A estudante ficou assustada porque, além da ameaça de seqüestro, o perfil fake deixava recados descrevendo as roupas que ela usava para ir à faculdade.

Ela sabia que o autor das ameaças era da universidade, pois o “Bozo” do Orkut também falou mal do menino que Thalita namorava na época e chamou a estudante de patricinha, por ela gostar de moda. “Salvei o link do perfil e entrava todos os dias, achando que a pessoa deixaria escapar algo que a entregaria. Uns quatro meses depois, a menina ativou aquela conta como perfil pessoal, com direito a fotos e depoimentos”. Em vez de procurar briga, Thalita preferiu deixar para lá. “Não tirei satisfação porque fazê-lo seria me rebaixar ao nível da garota. Mas, até hoje, não sei o motivo de tanto ódio”.

Quem presencia também é culpado
Em casos de bullying há sempre um desequilíbrio de poder. Aquele que tem mais força física ou psicológica, além de um perfil agressivo, humilha o mais fraco, que apresenta aspectos psicológicos como timidez e baixa auto-estima. Mas, na maioria dos casos, se alguém perguntar ao agressor se ele está maltratando a vítima, ele vai dizer que é só brincadeira. E a vítima, por sua vez, vai concordar. “Eles têm vergonha de falar porque é humilhante, e o primeiro sintoma é a negação”, diz Cléo.

Além disso, apontar os que praticam o bullying pode agravar a situação, outro motivo para a vítima encarar tudo como uma grande brincadeira. “É preciso deixar clara a diferença entra a brincadeira e o bullying. É brincadeira quando há equilíbrio e espaço para todos”, diz a especialista.

Quando o bullying acontece dentro das escolas, os professores e diretores geralmente se omitem ou tomam as atitudes padrão: advertir, suspender e chamar os pais. Boa parte das escolas não tem um programa de enfrentamento de bullying. Os pais, por sua vez, culpam a negligência da escola ao saber do problema, num típico jogo de empurra.   

Dentro da sala de aula, os colegas que presenciam o valentão gongando a menina quietinha todos os dias e nada fazem para impedi-lo ou, pelo contrário, até riem das piadas que ele faz, só estão incentivando a prática. “É preciso orientar também quem presencia o bullying, pois o agressor precisa de plateia”, explica Cléo.

Então, o que fazer? Para quem é constantemente agredido, seja pessoalmente ou pela internet, Cleo Fante dá alguns conselhos. “Não fique em silêncio. Peça a ajuda da família, dos amigos e dos professores. Em casos mais extremos, pode ligar para o conselho tutelar. Ao denunciar o agressor para os pais ou professores, peça discrição e sigilo, para não agravar a situação. Mas não tenha vergonha de falar sobre isso. Se não souber lidar com a situação, peça ajuda”, encoraja ela.

Camiseta rosa para protestar
Os casos de bullying que terminam em tragédia têm crescido em outros países. Um exemplo é a história de Phoebe Prince, irlandesa de 15 anos que morava em Massachusetts e era alvo constante de ataques físicos e verbais, tanto pessoalmente quanto por SMS e via internet. O problema começou depois que Phoebe teve um breve relacionamento com um cara popular do colégio, e a gota d’água foi o dia em que atiraram uma lata de bebida na menina. Depois disso, Phoebe foi encontrada enforcada na escadaria do prédio em que morava.

Para discutir o bullying e o cyberbullying e desestimulá-lo entre os jovens, o primeiro-ministro canadense Gordon Campbell proclamou o dia de hoje, 14 de abril, como o Dia Anti-Bullying. Desde 2008, o Dia Anti-Bullying é usado para levantar essa discussão nas escolas, empresas e grupos políticos. Os jovens canadenses aderiram à data comemorativa e “lançaram tendência”: para protestar, fizeram deste também o Pink Shirt Day. Quem apóia a iniciativa vai para o colégio vestindo camiseta rosa. Ontem e hoje, os twitteiros canadenses falaram bastante do Dia da Camiseta Rosa, incentivando os colegas a tirar a sua camisa do armário para aderir à causa.    

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