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13/04 - 19:53hs
A melhor entrevista do mundo
Cineasta Laís Bodanzky mergulha no universo adolescente para retratá-lo sem filtros em "As Melhores Coisas do Mundo"
Larissa Drumond, iG São Paulo
Depois de “O Bicho de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade”, Laís Bodanzky volta aos cinemas de todo o Brasil com o longa-metragem “As Melhores Coisas do Mundo”. A cineasta fez visitas a sete escolas particulares de São Paulo para contar a história de Mano – o protagonista de 15 anos, vivido por Francisco Miguez –, com um olhar autenticamente adolescente, carregado de todos os problemas que essa fase costuma trazer: angústias, conflitos amorosos, frustrações e a ansiedade antes da primeira vez. “Me encantou falar a linguagem deles com sinceridade, sem ser de cima para baixo”, revela Laís.
O resultado é um filme sem falas artificialmente decoradas ou atores de 25 anos interpretando personagens de 15. A premiada cineasta paulistana conversou com o iG Jovem sobre o projeto do filme – que estreia sexta-feira (16) e também traz no elenco Fiuk, atual queridinho das adolescentes –, as conversas com a galera teen durante sua pesquisa, a relação entre pais e filhos e o papel da escola na sociedade.
iG Jovem: Como surgiu a ideia de fazer o filme?
Laís Bodanzky: O convite surgiu da Warner e da Gullane Filmes para o Luiz [Bolognesi] roteirizar e eu dirigir. E veio de uma forma diferente, porque era um convite para a gente inventar uma história a partir do universo do protagonista da série de livros “Mano”, do Gilberto Dimenstein e da Heloísa Prieto. Um menino de classe média, com pais esclarecidos, vivendo questões típicas dessa fase da vida. Como esse projeto inicial era muito interessante e curioso, a gente resolveu aceitar e percebeu que era necessário fazer uma pesquisa sobre o universo do adolescente hoje.
iG Jovem: Qual foi sua maior descoberta durante esse mergulho no mundo dos adolescentes?
Laís Bodanzky: Para falar a verdade, minha maior descoberta foi perceber que a adolescência pode mudar de uma geração para outra, a moda pode ser outra, as tecnologias serem novas, mas ela é a mesma [risos]. Seus dramas, suas dúvidas e seus aprendizados: tudo isso é universal e atemporal.
Confira o trailer do filme:
O iG Jovem vai dar ingressos e brindes do filme no Twitter
iG Jovem: Como você realizou a pesquisa para o “Melhores Coisas do Mundo”?
Laís Bodanzky: Eu tive que entrar no mundo do protagonista do livro. A gente visitou escolas que o Mano pudesse estudar de verdade. Escolas particulares de São Paulo, mas muito diferentes umas das outras: Bandeirantes, Sion, Arquidiocesano, Santa Cruz, Vera Cruz, Equipe e Oswald de Andrade – que, aliás, é a escola do Francisco Miguez, o protagonista. A gente montou grupos de conversação para entender quem eles são. Eram conversas que duravam a tarde inteira, com muita calma. Eles falavam o que pensavam, sentiam e o que está pegando hoje na vida deles.
iG Jovem: E os atores saíram dessas escolas?
Laís Bodanzky – Não necessariamente dessas sete, mas quando eu resolvi selecionar o elenco, achei melhor buscar os atores dentro de colégios mesmo. Foram umas vinte escolas, se eu não me engano. A gente pediu autorização e colocou o aviso para que quem tivesse curiosidade, fizesse a inscrição e o teste. Foram 2.500 inscrições. Depois da entrevista, filtrei 500 pessoas, que fizeram outro teste pessoalmente.
iG Jovem: O filme trata de bullying, homossexualismo, divórcio e vários outros conflitos. Como você selecionou esses temas?
Laís Bodanzky – Isso que é engraçado. A gente simplesmente respeitou tudo o que ouvia! Os temas já estavam lá, embutidos. Durante as conversas, esses temas apareciam como histórias. A gente simplesmente fez um retrato do que eles pensam e vivem.
iG Jovem: Qual é a importância da escola na formação do adolescente?
Laís Bodanzky: É fundamental. O que ficou claro nas conversas é que o adolescente passa mais tempo na escola do que em casa com a família. Então, é ali que está se formando uma pessoa. Para falar a verdade, eu acredito que metade do papel da escola é ensinar conteúdo e a outra, ajudar a formar essas pessoas numa fase da vida em que elas não sabem quem são.
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iG Jovem: Você acha que os filhos são reflexo dos pais?
Laís Bodanzky: São. Todo mundo erra, mas errar querendo acertar é muito importante. Os pais também se transformam com seus filhos. Eu me tornei outra pessoa depois que fui mãe, porque tudo é troca. É difícil essa questão de ser mais velha e, por isso, deter a informação e o saber. Mas para obter essa troca, é necessário observar e ouvir. Eu sinto que muitas das angústias dos adolescentes existem por não serem ouvidos, percebidos e notados em seu momento mais íntimo, em sua maior dificuldade. Isso é até perigoso.
iG Jovem: Perigoso em que sentido?
Laís Bodanzky: Por exemplo, o Pedro, o personagem do Fiuk, é um garoto sensível. Tudo na vida o toca de uma forma maior. Os adolescentes vivem um momento de transformação hormonal e, para alguns, essa transformação vem de uma maneira galopante. O mundo fica vivo demais na sua frente e você não dá conta dessa realidade toda. O adolescente pode entrar, tranquilamente, numa depressão profunda. A vida é forte demais.
iG Jovem: Por que a música escolhida para o Mano aprender a tocar no violão foi “Something”, dos Beatles?
Laís Bodanzky: Nessas conversas nas escolas, a gente sempre perguntava sobre o universo musical deles. “Que som você curte?” E eu me surpreendi quando escutei Beatles várias vezes. Não era da boca para fora. Eles eram conhecedores, até através de pesquisas na internet. Eu gostaria que o protagonista fosse um desses, que amasse a banda e conhecesse de verdade. Mas não foi nada fácil ir atrás de uma música dos Beatles. Custa caro, é difícil e é uma burocracia enorme para conseguir os direitos do fonograma, mas a Gullane Filmes conseguiu no último minuto. Quase que a gente ficou sem “Something” no filme.
iG Jovem: O que o professor de violão representa na vida do Mano?
Laís Bodanzky: A ideia do filme era ter uma pessoa que quase todo adolescente tem: aquela figura que você admira e se espelha de alguma forma. Pode ser seu irmão mais velho, seu pai, sua mãe, um professor ou um cantor. Normalmente, o adolescente tem um ídolo e transforma o quarto naquele altarzinho. A gente buscou essa referência forte no personagem do Paulinho Vilhena: ele não é o professor de violão, ele é também o professor de violão. Ele escuta o Mano e dá toques importantes.
iG Jovem: E a ideia de fazer o pai do Mano ser gay?
Laís Bodanzky: Foi ideia do Luiz [roteirista]. O pai não era homossexual, mas ele achou que seria surpreendente. Ele me deu essa opção para ler e tomei um susto. Mexeu comigo profundamente e eu imaginei que fosse mexer com os espectadores da mesma forma. A gente seguiu com o homossexualismo não só com o pai, mas também com a personagem da Bruna [estudante do colégio de Mano]. É um tema que está no dia a dia desses meninos e, muitas vezes, a escola não sabe como se comportar. Por mais que exista um discurso de ‘somos todos liberais’, na prática é diferente. Meninos e meninas que se assumem gays enfrentam uma barra pesada.
iG Jovem: O filme também trata bastante do bullying. Como você pretendeu retratar esse tema?
Laís Bodanzky: O bullying sempre existiu. O que não tinha era essa palavra, que, aliás, está faltando no português. Os adolescentes sabem o que é, conhecem essa palavra e falam com propriedade, porque essa é a rotina deles. Mas o bullying, diferentemente da minha época, ficou mais intenso e violento com a questão da internet e dos meios digitais. O que acontecia apenas dentro da sala de aula agora vai para fora do colégio; às vezes muda de cidade. O grande medo deles é ser apontado como esse diferente e se tornar excluído do grupo.
iG Jovem: Qual foi sua maior intenção ao fazer o filme?
Laís Bodanzky: Ser muito fiel a eles. O objetivo sempre foi retratar sem classificar como certo e errado e colocar na tela quem eles são. Com o olhar deles, não com o meu. A intenção foi respeitar aquilo que a gente ouviu nas conversas, sem filtro. Claro que é difícil, porque passa pelo meu olhar e pelo do Luiz, mas a gente fez um esforço muito grande para mostrar como eles são de verdade.
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