Ler sempre foi um dos melhores passatempos disponíveis no mercado. Ver televisão é ótimo, papear no computador diverte...Mas quase sempre um livro acompanha melhor do que qualquer coisa a caneca de guaraná e uns pedaços de bolo. Para alguns, porém, isso não era uma verdade durante os anos do colégio. Existiam obras capazes de fazer alguns de nós roerem a quina da parede por genuíno ódio à literatura brasileira.
Vai ter que passar por cima de mim o jovenzinho ranheta adepto da frase “Machado de Assis é um saco”. Já briguei com muitos moleques por causa disso. O autor de “Dom Casmurro” é ainda um dos maiores nomes quando se pensa em bons livros – e não à toa, mas pelo puro mérito de saber costurar palavras de maneira invejável.
Duro é que até ele, do alto de toda a sua sapiência, já me fez roncar de preguiça ao dissecar um livro. Não só Machado de Assis, por sinal. Naqueles anos de escola, muitos livros bons demais caíram aqui nas mãos – sendo os mais queridos “Memórias de um Sargento de Milícias”, “Vidas Secas” e “O Primo Basílio”.
E outros, horrivelmente chatos, também vieram a mim. Amaldiçoei mestres da escrita nacional, confesso. Mas quem agüenta uma história lenta e triste sobre a certa virgem com lábios de mel? Ou com dois irmãos neuróticos brigando por uma garota idiota chamada Flora? Faz favor... não é à toa que a garotada reclama de precisar ler o que segue abaixo.
Você também nanou em “Iaiá Garcia”?
Jorge amava Estela, Luis amava Estela, todo mundo queria a danada da Estela – e Iaiá ficava no meio de tudo só para estorvar. É disso que me lembro ao rememorar a obra de Machadão. Autor de preciosidades como “Quincas Borba” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, eu não sei onde ele esqueceu a inspiração na hora de escrever esse romance. Era bem enfadonho, vá? Eu podia dar cabo daquela garota em dois tempos. E da Estela na seqüência!
E quem não preferia mastigar o próprio braço a ler “Senhora”?
José de Alencar é mestre? É. Seus poemas são pérolas raras, tão boas de fazer até chorar? Com certeza. Mas eu confesso: tive dificuldade de chegar no fim de quase todos os livros do sujeito. De “Iracema” a “O Guarani”, de “Lucíola” até “A Pata da Gazela”, ler suas obras era como inalar gás narcótico. Neste aqui, Aurélia era pobre e apaixonada, foi chutada, ficou ranzinza e vingativa. Se fosse novela mexicana, chamaria com certeza “Maria do Bairro”.
Queria correr três dias e três noites em vez de ler “Amor de Perdição”?
Metade da novela trata da lentíssima, sofrida e pegajosa narração sobre o namoro entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque. Eles são separados por uma rixa entre suas famílias (gostava de Shakespeare, hein, Seo Camilo Castelo Branco?). O pai da Teresa quer casá-la com um fidalgo (não sei exatamente o que faz um fidalgo, mas sempre é um homem muito mau), mas a moça mantém-se firme. Já Simão vai se esconder na casa de um ferreiro, cuja filha apaixona-se por ele. Sacou, né? Como em “Romeu e Julieta”, eles podiam beber veneno e se apunhalar logo! A agonia é nossa, poxa!
Só os fortes sobreviveram a “Esaú e Jacó”...
E lá vai nosso Machado de Assis descer a ladeira de novo. Quando soube que este livro cairia na prova do vestibular, emburrei. Já tinha tentado finalizar aquelas páginas nada menos do que SETE vezes. Sempre parei no meio, optando por tarefas muito mais importantes como lavar o carro, cerzir os furos das meias ou passar babosa no cabelo. A história dos irmãos Pedro e Paulo e sua disputa pela desenxabida Flora davam sono em bicho-preguiça. Não foi acaso a menina bater as botas... Morreu de tédio, por certo.
... e nem esses aturaram a vida depois de “O Ateneu”
Pior do que ler essa obra modorrenta do senhor Raul Pompéia, seria estudar naquele antro descrito no texto. Na minha classe, apenas a menina mais CDF conseguiu chegar ao fim dessa tragédia – além de mim, mas fiz isso só para ver onde tudo iria dar. Que me desculpem os intelectuais de fato, mas a “obra-prima do realismo brasileiro” é dura de encarar como uma jarra de chá de quebra-pedra. Sérgio, já crescido, narra suas desventuras durante os anos de vida no internato. Nunca se viu aulas, professores, colegas, recreios e até a descoberta da sexualidade de maneira tão... cinza. Logo no começo, já damos de cara com a frase “’Vais encontrar o mundo’, disse-me meu pai à porta do Ateneu. ‘Coragem para a luta’". Obrigada por avisar, Raul... mas nem coragem adiantou.
(Por Flá Wonka)
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