“Eu tentei fugir. Não queria me alistar.
Eu quero lutar, mas não com essa farda”
Os versos da música “Núcleo base” da banda Ira! retrata o que passa pela cabeça de muitos dos jovens que são obrigados, no ano em que completam 18 anos, a fazer o alistamento no serviço militar. Porém, apesar da grande maioria deles torcer muito contra a convocação, boa parte dos que são sorteados e entram no Exército, Marinha ou Aeronáutica acabam gostando da experiência.
É comum ver garotos comemorando o fato de não terem sido chamados para ingressar nas Forças Armadas. Alguns acham que seria perda de tempo, outros acreditam que o Exército está muito longe de suas expectativas profissionais e muitos têm pavor da rigidez da corporação.
Mas nem todo mundo pensa assim. Oswaldo Drumon, de 21 anos, sempre gostou de coisas ligadas às Forças Armadas e tentou de tudo para ser convocado para a Marinha e seguir carreira militar, mas foi reprovado no exame médico por causa de um problema na visão. “O que mais me atraía eram a possibilidade de subir de posto e o salário, que é razoavelmente bom e não seria gasto com casa e comida, porque eles fornecem. Acho que seria uma lição de vida”, afirma.
Diego Sierra, de 22 anos, enfrentou a situação oposta. Apesar não ter em seus planos o Exército, foi convocado e teve que comparecer. Como já tinha terminado o Ensino Médio, ele teve a opção de se candidatar ao Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR). Neste caso, o cara cumpre o serviço militar inicial como aluno, e depois, se quiser, pode trabalhar no Exército como oficial temporário.
O que o Diego não esperava é que iria curtir a experiência. “Acabei me acostumando e até gostando, porque fiz muitos amigos e aprendi muita coisa importante para a minha vida, como disciplina, trabalho em grupo e respeito”. Mas ele lembra que existia o lado ruim também. “Perdi vários finais de semana montando guarda e dormindo mal”, diz. Apesar, de no final das contas, ter aprovado o CPOR, ele nem cogitou a possibilidade de seguir carreira militar. “É bom só como lembrança. Gosto mesmo é de Engenharia”, explica.
Outra forma de prestar o serviço militar é por meio dos Tiros-de-Guerra (TG), que são órgãos de formação de reserva muito comuns nas cidades menores. Lá, os convocados passam por um treinamento inicial na própria cidade e por isso podem trabalhar e estudar ao mesmo tempo.
Astor Aversa, de 23 anos, morava em Araçatuba (SP) no ano em que completou 18 anos e foi, contra sua vontade, obrigado a entrar no Tiro de Guerra da cidade. “Não queria saber daquelas obrigações chatas, tipo acordar às 5 horas da manhã e ouvir ordens o tempo todo. Isso realmente acontece, mas acabei curtindo muito pela zoeira que a gente fazia. Eu recomendo”, afirma.
Segundo ele, o lado mais legal do Exército, além das aulas de tiro e dos acampamentos, era fazer as coisas proibidas. “Eles ficam tentando te ensinar a ser uma pessoa mais disciplinada, mas o efeito é contrário. Todo mundo que entrou comigo só ficava fazendo bagunça”. Astor lembra de muitas histórias engraçadas daquele tempo, como a vez em que ele e os amigos do TG resolveram comprar algumas cervejas para tomar escondidos no telhado do quartel. “Foi divertido, mas quebramos várias telhas e os vizinhos escutaram nossa gritaria e deduraram a gente. A bronca foi brava”, recorda.
A pior parte do Exército para ele eram mesmo as regras rígidas e a hierarquia. “Como você está no cargo mais baixo, só toma na cabeça. Tínhamos que fazer faxina, montar guarda por várias horas, essas coisas”. Mas mesmo nessas horas, ele garante que davam um jeito de se divertir. Uma vez, ele ligou para a casa de um amigo imitando a voz do sargento e convocou o cara para fazer faxina logo cedo no quartel. “Era só para sacanear. A gente zoava muito e tenho amigos de lá até hoje, mas eu não queria o Exército para a vida toda”, garante.
Hierarquia, disciplina e regras rígidas continuam caracterizando as Forças Armadas e fazendo com que muitos caras torçam o nariz para a instituição. Mas parece que aquelas histórias de duros castigos e humilhações dos bastidores do Exército que corriam por aí estão sendo substituídas por “causos” mais leves e até divertidos. Ainda bem.