Todo mundo tem cicatrizes, nem que seja uma pequenininha escondida em algum lugar do corpo, e muita gente parece se orgulhar delas, principalmente os meninos, que quase sempre contam entusiasmados as histórias dos tombos e acidentes que geraram cada marca.
Muitas vezes eles não admitem que usam as cicatrizes como “marketing pessoal”, mas na hora de contar seus “causos”, não há quem segure a empolgação. Cada machucado merece uma história, de preferência cheia de detalhes. Os segundos anteriores ao acidente, o momento fatídico, a reação que teve, a aparência do corte, o socorro, o número de pontos tomados. Enfim, tudo entra na narrativa.
As brincadeiras de crianças são as recordistas na lista dos maiores causadores de cicatrizes. Ricardo Cardenas, de 23 anos, tem quatro marcas de infância e confessa que gosta de contar como as adquiriu. A do joelho esquerdo e a da perna são as maiores. A primeira é resultado de um tombo durante o pega-pega. “Caí e bati o joelho na beira da piscina. Quando olhei, tinha um bife pendurado”, conta. Mas ele nem se abalou. Fez um curativo e só. Ficou a marca de mais ou menos quatro centímetros.
Já o machucado da perna surgiu quando Ricardo resolveu se equilibrar em cima de uma barra de ferro fincada no chão de um parque. “Quis dar uma de gostoso e me dei mal. Escorreguei e rasguei a parte de dentro da coxa”. Hoje ele tem a recordação na pele. “Parece uma taturana de uns 10 centímetros”, afirma.
O álcool também é responsável por cicatrizes de muita gente. Duas das três marcas de Alexandre Sinato, de 20 anos, surgiram do excesso de bebida alcoólica. Uma delas foi adquirida na saída de uma festa. “Estava meio bêbado e, quando fui entrar no carro do meu amigo, bati o supercílio no batente da porta. Ficou parecendo que eu tinha levado uma porrada”, lembra.
O outro corte foi mais sério, e segundo ele mesmo, mais engraçado também. Alexandre, novamente alcoolizado, decidiu pular uma escadinha. “Sabe como é bêbado, né? Cismei, calculei errado o impulso e enfiei a canela em um banco de cimento”. Na hora ele não sentiu nada, mas depois de alguns minutos sentiu o sangue escorrer pela perna. Foi para o hospital e tomou doze pontos. “Acho divertido contar essas histórias. Fico indignado pensando como é que consegui fazer tanto estrago sozinho”, diz.
Francisco Pascoal, de 21 anos, assume que quando era mais novo gostava de narrar os “causos” das suas cicatrizes para impressionar as pessoas. “Eu achava engraçado ver as pessoas se arrepiando toda vez que contava da vez que machuquei a mão”, ressalta. Eis a tal história: quando ele era mais novo, se pendurou no travessão, a parte de cima da trave de futebol, e um daqueles ganchinhos que prendem a rede furou a palma da mão dele. “Fiquei pendurado lá, só pela pele. Quando me soltei, olhei para o corte. Dava para ver tudo por dentro. Quase desmaiei. Foram quatorze pontos”, recorda.
Além dessa, Francisco tem ainda uma marca cotovelo, decorrente de uma batida em uma janela de vidro, e uma na sobrancelha, que surgiu por causa de uma queda na quina do sofá. “Não nasce mais pêlo na parte da cicatriz. Fiquei com uma falha na sobrancelha”.
No final das contas, de todos os tombos, quedas, cortes e batidas, ficam os “causos”. É claro que o momento do acidente normalmente não é muito agradável, mas a verdade é que as cicatrizes sempre rendem boas histórias.