Não quero crescer!

Guilherme Rampazo

Foi-se o tempo em que videogame, desenho animado, livro infantil e parque de diversão eram coisas de criança. Está cada vez mais comum vermos marmanjões por aí que não fazem questão nenhuma de abandonar as brincadeiras de adolescente.

Esses adultos que assumem comportamentos infantis ganharam o apelido de “adultescentes”, uma mistura de adulto com adolescente. Quando chega ao extremo, essa atitude pode ser prejudicial e recebe o nome de “síndrome de Peter Pan”, referindo-se ao garoto da história infantil que quer ser jovem para sempre.

Algumas pesquisas têm revelado um grande aumento no número de adultescentes no mundo. O instituto de pesquisa Nielsen Media avaliou que existem mais adultos entre 18 e 49 anos que assistem ao canal de desenhos Cartoon Network do que à noticiosa CNN nos EUA.

Segundo o canal Nickelodeon, 26% dos americanos que assistem regularmente ao desenho animado “Bob Esponja” têm mais de 18 anos. Esse é o caso de Fernando Alvarez, de 23 anos, que é fanático pela estranha e sorridente esponja amarela que dá nome à atração. “Chego do trabalho e assisto sempre que posso”, conta.

Alvarez já leu toda a coleção de livros do “Harry Potter” e tem em casa os dois filmes do pequeno mágico. E não pára por aí: ele não perde um filme de animação no cinema, também adora o desenho “Marvin” e reúne-se com os amigos todo final de semana para disputar campeonatos de videogame. “Minha infância foi muito legal. Não tenho porque sair dela. Quero sempre ter o espírito de uma criança e não me sinto nem um pouco mal com isso”.

Outra pesquisa mostrou que a média de idade das pessoas que jogam videogame hoje é de, nada mais nada menos, 29 anos. Há 13 anos, a média era 18. Breno Oliveira é um exemplo que comprova esses dados. Ele tem 30 anos e se diz fissurado pelo seu Play Station 2. “Sempre guardei dinheiro para comprar um videogame melhor, mais avançado”. Ele joga, no mínimo, durante uma hora por dia e conta que já chegou a ficar três dias plantado na frente da TV com o “joystick” na mão. “Praticamente não comi e dormi durante esses dias. Virou vício mesmo”.

Francisco Ortiz de Carvalho, de 25 anos, acredita que existe um preconceito em relação às pessoas, que como ele, gostam de coisas tidas como do universo infantil. “Tem muita gente que pensa que o adulto tem que ser sério e não pode gostar de coisas divertidas. Acontece que as coisas infantis podem servir como matéria imaginativa e inventiva para o mundo hoje”.

Carvalho freqüenta Lan Houses com os amigos, adora os livros infantis do Ziraldo e é vidrado em desenhos animados. Mas sua grande paixão mesmo são as histórias em quadrinhos. “Sei de cor passagens de alguns dos gibis da minha coleção”. Ele garante que sempre procura conhecer jogos infantis novos. “Meu irmão de 13 anos é meu informante”.
 
Mas o que está por trás disso?

A proliferação de adultescentes tem chamado a atenção dos especialistas e muitos livros sobre esse tema vêm sendo publicados. Todos tentam decifrar o que está por trás dessa característica infantil de tanto marmanjo.

Segundo a psicóloga e psicodramatista Norka Bonetti, ser adulto significa ter a responsabilidade da auto-sustentação financeira, afetiva, moral, social e intelectual. “Está cada vez mais difícil conquistar tudo isso, gerando um grande medo. Esse medo é que causa a necessidade de se manter um ‘garotão’ a vida toda”, afirma.

A psicóloga acredita que a “adultescência” pode ser prejudicial quando o lado adolescente se sobrepõe ao adulto, gerando a síndrome de Peter Pan. “Aquele que não aceita o envelhecimento e vive agarrado na barra da saia dos pais não terá a experiência da vida adulta, passará por problemas de amadurecimento em todos os aspectos e estará perdido quando os provedores morrerem”.

Bonetti defende que o prejuízo pode se estender à sociedade. “Conforme cresce o número de adultescentes, diminui a quantidade de adultos de verdade, criando um vácuo social e uma falta de modelos para as gerações seguintes”, conclui.  

Para a ludoeducadora Maria Stela Graciane, coordenadora do Núcleo de Trabalhos Comunitários da PUC-SP, a brincadeira na fase adulta é extremamente saudável quando é de bom gosto e acontece dentro de alguns limites. “Não podemos deixar morrer a criança que está dentro de nós, mas também não podemos deixá-la tomar conta da gente. A infantilização irresponsável é prejudicial”, explica.

Será que sou um adultescente?
 
Não se trata de um teste com base científica. A única base é o bom senso. Selecionamos 10 atividades típicas de crianças e adolescentes. Conte os tópicos com os quais se identifica, pense na periodicidade com que se diverte com essas coisas e avalie-se:

1. Videogame
2. Desenho animado
3. Livro infantil ou infanto-juvenil
4. História em quadrinhos
5. Filme infantil
6. Parquinhos
7. Música infantil
8. Brinquedinhos em geral (bonecos, carrinhos etc.)
9. Brincadeiras tipo pega-pega e esconde-esconde
10.  Brinquedões tipo piscina de bolinha e escorregador 



IMPRIMIR | ENVIE PARA ALGUÉM
Anuncie no iG Jovem | Coloque o iG Jovem nos seus favoritos | Cadastre-se
© Copyright 2000 - 2006, uma empresa do Internet Group - Portais: iG - iBest - BrTurbo