Londres: a jovem Loretta Fondo, de 15 anos, em frente à loja do pai que foi atacada por protestantes
Há 32 anos, a banda punk britânica The Clash embasava as melodias agressivas de sua música com letras que retratavam um cenário não muito diferente do vivido hoje em Londres. Em "London's Burning" (“Londres está queimando”), de 1979, os versos do vocalista Joe Strummer já retratavam o sentimento racista dos londrinos, afirmando "black or white turn it on / face the new religion" (“Negro ou branco mude isso, encare a nova religião”).
Há seis dias, violentas manifestações amedrontam os moradores da capital inglesa, no episódio que já ficou registrado como uma das piores ondas de violência e depreciação do patrimônio público na história da Inglaterra. Jovens revoltados com o sistema, após a morte de um jovem negro assassinado pela polícia, destruíram fachadas de prédios comerciais, colocaram fogo em carros e ônibus, bem ao estilo dos ataques registrados em São Paulo por parte do PCC, em 2006.
E a música do The Clash se faz mais atual do que nunca.
Nessa quarta-feira (10), o quinto dia da revolta londrina, muitos jovens ainda sensibilizados e preocupados com novos ataques foram às ruas com vassouras para limpar os destroços da baderna, em uma atitude simbólica de solidariedade e civilidade.
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Jonattan Harlem, 17, negro e morador do bairro de Hackney, um dos mais atingidos de Londres, contou que cresceu em meio ao racismo por parte dos colegas negros com os brancos que vivem na região. Ele diz que já foi traficante de drogas e há tres anos resolveu mudar de vida. "Nunca vi nada parecido em toda a minha vida. Eu decidi abraçar a paz. Para mim, violência não está com nada. Por isso decidi fazer trabalho voluntário em escolas, ensinando pintura. Jovens precisam estar perto da família e longe de gente mal intencionada. Estou muito triste.”
Filha de um comerciante de Hackney, Loretta Fondo, 15, diz que se for preciso ela mesma fará os reparos nas vitrines e outros estabelecimentos destruídos: "Minha vida é a loja do meu pai. Eu nasci e cresci aqui. Estou muito revoltada porque meus amigos fazem parte do grupo que esta por aí destruindo tudo. Já chorei muito, mas prefiro não vê-los nunca mais.”
O aspirante a estilista Bruce Alende, jovem branco de 17 anos que também mora na região, acredita que os manifestantes estão perdendo a razão praticando atos de violência: “Não entendo porque as pessoas precisam destruir sua própria cidade. Eu não estou nem aí se a pessoa é rica, pobre ou qual e a cor da pele. Existem outros caminhos para chamar a atenção do governo, apesar de que eu não estou nada feliz com os cortes e outras desigualdades jamais vistas, como contam meus pais.”
Música pop debaixo de fogo
No início da semana, uma fábrida da Sony DADC ao norte de Londres foi atacada por saqueadores. Segundo a "BBC", o depósito que armasenava estoques de selos independentes de música (como a Domino e XL Recordings) pegou fogo, destruindo milhares de discos. Com o acidente, a distribuidora Pias, maior do Reino Unido para títulos indie, perdeu produtos de artistas como Adele, M.I.A., Franz Ferdinand e Arctic Monkeys.
Alex Kapranos, vocalista do Franz Ferdinand, publicou em seu Twitter: "Meus pensamentos vão a todos os selos que perderam seus estoques no incêndio da Pias", disse. A anglo-senegalesa M.I.A., conhecida por suas declarações polêmicas, comentou apenas: "Negativismo não anula o negativismo e transforma isso em positivismo. Ele cria uma nova classe de supernegativismo."
Ouça "London Calling" da banda britânica The Clash: