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18/04 - 08:45hs

Aborto
Queremos saber a sua opinião sobre o assunto

Carol Patrocinio

Este é um tema complicado, cheio de tabus e preconceitos, mas, afinal, o aborto é crime? Deve ser legalizado no Brasil? Existem clínicas que atendem esse tipo de necessidade? Conversamos com quem já fez um aborto, com quem trabalha em hospitais e com religiosos de diversas correntes. Entenda um pouco mais sobre o assunto e forme sua opinião!

“Ter um filho com 18 anos não é bom pra formação de nenhuma menina”
Aos 18 anos, Marina* tinha uma relação que já durava um ano e então soube que estava grávida. “Quando fiquei sabendo contei direto a ele, pois éramos muito amigos, além de namorados. Ele não descartou a hipótese de ter o filho, sempre gostou de criança e disse que estaria ao meu lado em qualquer decisão que eu tomasse. Mas me deixou dar a última palavra, pois disse que o corpo era meu e ele nunca iria sentir nem metade do que eu iria sentir, tanto corporalmente quanto psicologicamente”, conta.

Depois do susto inicial, a garota parou para pensar nos prós e contras de ter o bebê – seus sonhos, sua vida, sua imaturidade. “Seria muito egoísmo da minha parte ter um filho só por gostar de crianças. Colocar uma criança no mundo é muita responsabilidade”. Ela explica que entendia que o filho não seria só dela, já que era muito nova, frequentava a escola e tem uma família superprotetora, que influenciaria na criação desse novo membro. “Seria uma criança da minha família e não minha, é até legal ter um filho 'em grupo', mas não concordo nem com a forma que meus pais me educaram, que dirá do meu filho”.

Apesar do sonho de ser mãe - “não das formas tradicionais, se fosse pra ter um filho, eu gostaria de ter longe da cidade grande, com uma educação diferente” -, ela sabia que não conseguiria dar tudo o que acreditava ser certo para a criança. “Eu era uma criança colocando outra criança num mundo em que nem eu tenho certeza de como viver”.

A primeira pessoa a saber sobre sua decisão foi a irmã, as duas não conheciam ninguém que já tivesse abortado, mas levaram a ideia adiante. “Minha mãe era totalmente contra, por princípios religiosos, ela acredita que 'as coisas não acontecem por acaso'. Meu pai arcou com os custos, mas foi muito enfático que não concordava nem com eu ter, nem com eu não ter; ele gostaria que não tivesse acontecido”, lembra.

O procedimento foi feito em uma clínica particular - “a clínica mais 'de boy' que eu já fui na vida” -, que cobrou R$ 2.500, indicada pelo ginecologista de Marina, que avisou que não faria um aborto, mas indicaria um lugar confiável. Ela conta que o lugar parecia uma clínica de estética, mas o médico foi bacana e passou segurança.

“Foi tudo muito rápido, mais rápido do que qualquer cirurgia que eu já fiz. Eu entrei, tomei anestesia, dormi e acordei no quarto. Durou mais ou menos uma hora”. Depois disso, ainda no mesmo dia, a garota saiu da clínica com sua mãe e seu namorado, que a acompanharam. No dia seguinte, sentiu algumas cólicas, que passaram rápido e voltou à clínica para que o médico a examinasse e tivesse certeza de que estava tudo bem.

Marina faz questão de dizer que não ficou com nenhum sequela física ou emocional: “As pessoas colocam uma nuvem negra em cima de algo que pode ser muito simples se for feito rápido (até os 3 meses de gestação) e com um médico confiável. Eu não tenho grilos emocionais com isso, ainda posso ter filhos justamente por ter feito num lugar seguro. Não sou religiosa, não acredito em acaso e muito menos que um feto de 1cm tenha vida. Acredito que ter um filho, com 18 anos, não é bom pra formação de nenhuma menina”. Mas completa dizendo que apesar de ter sido tranquilo, não deixa de ser um problema, principalmente, por ser ilegal.

Marina não se arrepende,
diz que agiria da mesma forma normalmente e que apoiaria uma amiga que quisesse fazer um - “desde que fosse a vontade dela e ela tivesse dinheiro pra fazer num lugar seguro”. Ela diz que respeitaria a decisão da amiga e ajudaria no que fosse possível - “Amiga é pra essas coisas, apoiar e ajudar, discordando ou não da decisão da outra”.

A garota acredita que: quem tem dinheiro aborta em um lugar seguro; quem não tem aborta num lugar perigoso ou tem um filho sem vontade. Uma das saídas, para ela, seria haver plebiscitos para questões dessa importância e diz que não vê discussões e debates sobre o tema, apenas polêmicas.

“Ainda assim, acho que a decisão tem que ser tomada pela mulher, só você mesma pode dizer o que sente, e o que deve fazer. A lei não pode me obrigar a ter um filho num país onde faltam escolas, crianças passam fome e não há a mínima infra-estrutura para se ter uma criança [a não ser que você pague (e muito caro) pra isso]”.

E no futuro, Marina pensa em ter filhos? “Penso sim, mas penso em adotar também. Já tem muita criança no mundo precisando de pai e mãe”, finaliza.

“A mulher já chega sob olhares preconceituosos, a maioria dos profissionais julgando”
A realidade brasileira é de que as mulheres não podem fazer o aborto a menos que tenham engravidado por causa de um estupro ou que corram risco de vida. Existe uma proposta de lei para que seja incluída uma terceira possibilidade da realização do aborto: quando há constatação de anomalias fetais.

Mas qual a realidade que uma mulher encontra ao chegar no hospital durante um aborto – seja ele espontâneo ou induzido? Conversamos com a enfermeira Joana*, que explicou um pouco sobre o preconceito dos médicos em relação a esse momento.

Quando a mulher chega ao hospital abortando, ela precisa fazer uma curetagem, que seria como uma limpeza no útero - “Na maioria dos casos não dá pra saber se o aborto é espontâneo ou induzido, mas todo mundo já chega sob olhares preconceituosos e a maioria dos profissionais julgando”, comenta.

Joana contou um caso em que a mulher, uma profissional de saúde, teve três abortos espontâneos e todas as vezes que ia para o hospital por causa desses problemas sentia-se ainda pior, por causa do preconceito e dos olhares que a julgavam.

Os casos em que é possível comprovar indução do aborto, como uma “gestante que abortou no banheiro e foi cortando o bebê em pedaços”, por exemplo, são denunciados pelos profissionais da saúde. “São nesses casos que eles acabam denunciando, quando é algo muito absurdo”, finaliza.

“O aborto tem sido utilizado pelos países desenvolvidos para uma política global de controle populacional”
O movimento “Brasil Sem Aborto” é supra-partidário e supra-religioso, ou seja, agrega pessoas de diversas crenças e posicionamentos que “se uniram na defesa da vida e da promoção da pessoa humana, especialmente na luta por um Brasil que respeita a vida, um Brasil sem aborto”, segundo o Secretário-Geral do Movimento Brasil Sem Aborto, coordenador do Movimento Legislação e Vida, Vereador (PHS), Presidente da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí (SP) e professor Hermes Rodrigues Nery.

O secretário explica que a posição do movimento se dá por serem “a favor da vida, da dignidade da pessoa humana, em todos os seus aspectos e em todas as suas fases, da concepção à morte natural”. De acordo com o representante do movimento, um recente congresso internacional em defesa da vida, realizado no Brasil e com a participação de dez países, o aborto, seja químico ou cirúrgico, tem sido utilizado pelos países desenvolvidos como a principal ferramenta para sustentar uma política global de controle populacional.

Ele explica que a partir de 1952, quando surgiu o Conselho Populacional – que se uniria com a  Fundação Rockefeller, Ford, Gates e outras – foi implantado um programa de controle demográfico. “O projeto inclui a disseminação de uma mentalidade antinatalista, compreendendo a implantação de anticonceptivos, o aborto legal e outros ataques contra a vida, que decidiu priorizar o combate à pobreza impedindo os pobres de ter descendência, em vez de investir no desenvolvimento econômico”. Nesse pacote, ele ainda inclui a anticoncepção, o aborto e também a eutanásia, tudo numa política mais ampla, “que busca a implantação do monopólio econômico”.

Atuamos por uma política pró-vida, em defesa do pleno e vital desenvolvimento humano, de real promoção da pessoa, para o bem de todos. Não podemos nos esquecer que o aborto elimina a vida de um ser humano em gestação, o mais indefeso nesta história”, comenta o secretário.

Para o movimento, a proposta do Ministro da Saúde para solucionar a gravidez indesejada não é um benefício para a mulher, pois “os médicos honestos sabem que o aborto acarreta sérias consequências negativas (físicas e psicológicas), como, por exemplo, a síndrome pós-aborto, gerando mulheres deprimidas, inclusive com tendências ao suicídio”. Ele acredita, ainda, que a prática do aborto ao invés de resolver um problema, cria outros mais graves.

Em caso de estupro, Hermes acredita que os promotores do aborto estão “manipulando o sofrimento alheio para promover uma agenda internacional que pretende elevar o crime do aborto”. Ele explica que o estupro é uma violência hedionda, mas que ainda assim não justifica outra violência, “que é a de matar um ser humano inteiramente indefeso no ventre materno”.

“A respeito do aborto, a Igreja não foi nem contra nem a favor”
A Igreja Católica “manteve a sua fidelidade à Verdade, ao Caminho e à Vida, de modo que a sua mensagem não se adaptou ao mundo e aos costumes, mas foi impregnando às diversas civilizações ao longo desses 21 séculos”, explica o Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, responsável pela Seção VIDA do CELAM e médico, D. Antonio Augusto Dias Duarte.

A posição da religião em relação ao aborto é clara: “A Igreja não foi nem contra nem a favor, mas sempre defendeu a vida humana e a dignidade da pessoa, desde a sua concepção até a sua morte natural”. A crença de que a vida é um dom de Deus e que qualquer tentativa de tirar a vida de um ser humano não é aceita por quem segue a doutrina.

Os problemas gerados pela prática do aborto ilegal, segundo o Bispo, reforçam a posição da Igreja em relação ao respeito à vida. “A vida e a saúde das pessoas são dons divinos, concedidos para que sejam administrados, e tanto os políticos, os médicos e tantas outras pessoas que se encontram diante de uma mulher que está aflita com uma decisão tão difícil de se tomar, como é dar a morte ao seu filho e sofrer as consequências desse ato decisório, devem acolher essa mulher, ajudá-la psicologicamente, socialmente e com todos os recursos da medicina moderna acessíveis ao povo brasileiro”.

Nos casos de estupro, o aborto “não é o caminho para se enfrentar a violência à mulher, dentro e fora de casa. A mulher já está profundamente sofrida e agredida, e o aborto será mais uma grave e lesiva agressão física e psicológica”, explica o religioso. Segundo ele, a Igreja acolhe essas mulheres e proporciona outras soluções, “mesmo que isso a obrigue encontrar caminhos econômicos e sociais para que se tenha a criança gerada”.

Os métodos anticonceptivos, na posição da Igreja, são prejudiciais à saúde da mulher, alguns são considerados abortivos e transformam os relacionamentos sexuais em uma busca do prazer sexual, transformando a ideia de que gerar um filho é um dom dos pais em uma falha técnica do método.

O Bispo explica que, do ponto de vista religioso, o aborto é um pecado, mas “Jesus Cristo ensinou que ao pecador se ama e se acolhe, e ao pecado se perdoa”, desde que não se volte a pecar.

Em relação ao Direito Canônico, válido para os batizados na Igreja, há uma pena que visa impedir esse pecado: a excomunhão automática, ou seja, quem comete o aborto não pode receber os sacramentos, “até que se arrependa e seja perdoado desse pecado contra a vida”.

Na Bíblia, você pode encontrar os ensinamentos que norteiam as posições da Igreja Católica quando se fala sobre a criação do homem e da mulher que “é de autoria divina e que a vida é um dom recebido gratuitamente e deve ser acolhido com responsabilidade e liberdade”. Há, ainda, inúmeros textos que, segundo o Bispo, confirmam essa doutrina “em que se valoriza a vida humana ou se condena abertamente toda e qualquer tentativa de fratricídio, de homicídio, de agressão física, de guerras injustas, de matança de inocentes como foi feita após o nascimento de Jesus Cristo”.

“É preferível interpor obstáculos à reprodução do que cometer  aborto”
Um dos membros da diretoria da Federação Espírita Brasileira, Marta Antunes Moura, explica que a Doutrina Espírita é contra o aborto, exceto quando a vida da mãe está em risco e elenca os motivos: “pela  gestação, o Espírito pode reencarnar e esse é o mecanismo de misericórdia e justiça divina que favorece a evolução do ser espiritual; por meio da reencarnação o Espírito repara erros cometidos em existências anteriores e, pelas provações da vida no plano físico, progride, em moral e em conhecimento”.

Segundo ela, o aborto é um atentado à vida, que é direito natural do ser humano, além de ser um ato de extrema covardia, um assassinato frio, pois mata quem não tem meios de reagir contra a agressão. Os religiosos creem que “o aborto sempre produzirá reflexos, diretamente na saúde da mulher ou indiretamente na vida dos responsáveis pelo ato”. Ela lembra ainda que essa “desarmonia” não se manifesta apenas na saúde física, mas também na psíquica.

Nos casos do estupro “é preferível não matar o ser em gestação, porque seria combater um crime com outro”. A orientação para esses casos é de que a criança seja entregue à adoção após o parto, caso não deseje criá-lo.

Os métodos anticonceptivos são, segundo Marta, tolerados pelo Espiritismo, já os abortivos, como a pílula do dia seguinte, não; isso “partindo do princípio de que é preferível interpor obstáculos à reprodução do que cometer aborto” e proporcionar o planejamento familiar.

A religião prega que a mulher e os envolvidos no aborto responderão por ele nesta encarnação ou nas próximas
, “quando terão oportunidade, por meio das provas da vida, de reparar atentados cometidos contra a lei de Deus”.

“O feto não é um ser humano, mas é uma vida em potencial”
O Rabino da Congregação Israelita Paulista, Michel Schlesinger, explica que, em linhas gerais, o Judaísmo é contra o aborto - “não é algo bom, não é algo positivo” - e não o encara como um método de controle de natalidade. “Existem outros métodos contraceptivos que podem ser utilizados e o aborto não deve ser usado com esse fim”, complementa.

Em alguns casos, a prática do aborto é aceita, como quando a vida da mãe corre risco - “o Judaísmo entende que o feto não é um ser humano, mas é um ser humano em potencial, é uma vida em potencial”. Nesse caso, você precisa optar por uma vida completa, que seria a vida da mulher. O Rabino explica ainda que “o feto, como potencial de vida, tem sua santidade e deve ser, a princípio, preservada, mas se ele colocar em risco a vida da mãe, ele precisa ser retirado”.

O aborto é sempre um agressão, na visão do Judaísmo, além de física, psicológica, então prega-se que ele deve acontecer apenas em última instância, como no caso do estupro - “Existem diversos casos em que o Judaísmo apoiaria e até obrigaria a realização do aborto”.

O Rabino conta um versículo bíblico no qual se dois homens brigando atingirem uma mulher grávida e ela morrer, é preciso que eles paguem com a vida; enquanto se ela apenas abortar é cobrada uma multa e nada mais. Com isso nota-se que “existe uma diferença de status entre o ser humano e o feto, que é um potencial de vida, que pode dar certo ou não. Se tivermos que escolher entre a vida do feto e a vida da mãe, somos obrigados a escolher a vida da mãe”

Os métodos contraceptivos são aceitos, mesmo que alguns tenham preferência em relação a outros. A religião acredita que uma família deve, sim, ser planejada, apenas não vê o aborto como uma saída para isso.

E a mulher que comete o aborto? Qual sua posição no Judaísmo? “Uma mulher que comete um aborto é vista pela Comunidade Judaica como um membro fragilizado e, como tal, a comunidade se organiza para acolher aquela mulher e para dar a ela todo o carinho e todo o apoio, material e espiritual”, finaliza.

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