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15/11 - 08:45hs
Intercâmbio
A história de uma jovem estrangeira que veio estudar no Brasil
Bruno B. Soraggi
O Brasil tem de fato muitas belezas. Paisagens deslumbrantes, pessoas acolhedoras, história rica... Tantas que bastou a estudante mexicana Verónica Díaz Sosa, 22, colocar os pés para fora do avião para se ver envolta por tudo o que há de mais esplêndido neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza (mas que beleza!). O Cristo Redentor, as cataratas do Iguaçu, o edifício Copan... Tudo o que os turistas sonham em conhecer estava ali, ao alcance de qualquer um dos passantes que se dispusesse a olhar aqueles cartazes anunciando cartões de crédito, aluguel de carros, pacotes turísticos - entre outras coisas –, sempre ilustrados por fotos de algum marco brasileiro. E foram essas as vistas que a recém-chegada estudante teve a oportunidade de apreciar. Seu voo, assim como o de muita gente naquele agosto de 2007, atrasou-se, o que fez com que a jovem, que tinha como destino Curitiba (PR), permanecesse por cerca de dez horas no cinzento Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos a espera de seu voo de conexão. Foi assim que seu intercâmbio de cinco meses começou. Verónica é natural de Mérida, uma cidade próxima à Cancun, no Caribe mexicano. Faltando apenas um ano para se formar em Engenharia, ela resolveu arrumar as malas e partir para uma temporada de estudos fora de seu país. Suas opções eram zarpar para o Chile, Espanha ou Brasil.
A língua, segundo ela, foi um dos motivos que a trouxe para cá. “Escolhi o Brasil porque além de ser um país lindo que eu tinha muita vontade de conhecer também queria ter a oportunidade de falar outra língua”, explica. Antes de deixar seu país, no entanto, a estudante frequentou aulas de português por um período de seis meses com o objetivo de se adaptar mais rapidamente à nova terra.
Mas se no idioma ela já estava precavida, pelo ‘caos aéreo’ a viajante não esperava. “Eu cheguei quando os aeroportos de São Paulo tiveram problemas, então foi muito difícil porque eu perdi meu voo”, lembra. Toda essa demora, entretanto, não foi suficiente para frustrá-la. “Mas quando cheguei [à Curitiba] as pessoas foram muito 'lindas' comigo. Todos muito amáveis”, conta.
Os problemas na vida dos que acabam de chegar a um país diferente, porém, não são poucos. A jovem recorda que assim que pisou na capital paranaense, ela e outros dois amigos mexicanos tiveram que enfrentar mais uma dificuldade: achar uma habitação. “Nós primeiro procuramos apartamentos, mas todos pediam um locatário que nós não tínhamos porque não conhecíamos ninguém na cidade. Depois de duas semanas morando em um hotel, a gente foi para um pensionato muito legal com outros mexicanos, franceses, alemães... Foi muito divertido”. Lá eles tinham direito a café da manhã, jantar, internet e lavanderia. As únicas regras, segundo a estudante, eram as que dividiam os habitantes em quartos masculinos e femininos e proibiam-nos de fazer barulho a partir da meia-noite. “Mas, às vezes, a gente não cumpria”, confessa Verónica.
A jovem se engajou tanto com as novidades que surgiam que mal deu brecha para que a tristeza e a saudade batessem. Mas ninguém é de ferro. Apesar de muitas vezes ser empolgante, começar uma vida nova em um país diferente não é fácil. Três meses depois, então, ela sentiu o ‘baque’. “Às vezes sentia a falta de minhas melhores amigas, porque depois de tudo você faz amigos novos, mas ninguém com tanta confiança como os antigos”. Para piorar, somou-se a isso um namoro que foi rompido tempos antes do embarque. “Quando eu deixei o México, eu tinha acabado de terminar um namoro. Nós sabíamos que iríamos sofrer muito com a distância”, lembra.
Como todos os outros obstáculos que surgiram até então, porém, este não impediu a futura engenheira de seguir seu caminho. Vencer adversidades, aliás, é um dos requisitos principais para quem pretende se lançar em aventuras parecidas. E esta característica essa mexicana parece tirar de letra. “Durante a viagem eu também tive uma briga com minha mãe e ela parou de me enviar dinheiro. Então, eu procurei trabalho e tive que juntar o meu próprio para viver”, afirma. “Apesar de legalmente não ter o visto para trabalhar, um mexicano que morava na cidade abriu um restaurante de comida típica do México e eu trabalhei como garçonete. Deu para viver bem porque eu já tinha café e jantar no pensionato e almoçava no restaurante... Então, eu só usava o dinheiro para sair e viajar”, conta. Foi com essa verba que Verónica visitou o Rio de Janeiro, São Paulo e até Buenos Aires. “Conhecer outros lugares e culturas é sempre uma boa experiência”, ressalva.
Todas essas provas, segundo ela própria, deixaram-na mais forte e independente. Sua estadia no Brasil representou a primeira vez que ela morou sem os pais e viveu sem as comodidades de sua casa. Mas como ela mesmo deixa claro, para que a experiência de um intercâmbio seja produtiva, o interessado já deve ter certa predisposição à uma maior liberdade. “Antes de tudo, (o aluno que deseja morar longe de casa) deve ser uma pessoa madura, que esteja disposta a viver novas experiências, conhecer diferentes pessoas e que queira ser mais independente”, ensina. Caso você não dispense o conforto do seu lar ou seja pouco tolerante com pessoas que pensem diferente de você, reconsidere a ideia de embarcar em uma viagem dessas.
Se o seu lance, contudo, é experimentar, saiba que viagens são viciantes. “Depois de viajar ao Brasil e para outros lugares, descobri que amo fazer isso”. Não é à toa, então, que essa mexicana já se encontre atualmente em outra empreitada internacional, desta vez lecionando espanhol em Iowa, nos Estados Unidos. “Consegui essa bolsa para vir para cá, então não tive dúvidas”, afirma. Por ser seu segundo intercâmbio, ela, que agora se considera mais experiente nesse quesito, já não comete as mesmas falhas: retomou a relação com seu namorado – que a espera -, leva menos roupas para não pagar tanto pelo excesso de bagagem e procura evitar conviver com conterrâneos para dar maior importância às pessoas de costumes diferentes.
Mas se é certo que a hora de deixar sua casa, seus pais e seus amigos parece ser a parte mais difícil, é também verdadeiro que, uma vez integrado à nova vida, seu retorno será tão difícil quanto. E Verónica sabe bem disso: “a maior dificuldade de todas é dizer tchau a todos os bons amigos com quem você viveu todo esse tempo em outro país”.
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