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18/09 - 14:48hs

Concurso do governo vai premiar histórias de adolescentes que vivem com AIDS
Mais de 50 mil jovens estão infectados com o vírus HIV; alguns, selecionados pelo Ministério da Saúde, terão relatos publicados

Priscila Borges, iG Brasília

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Brincar e estudar deixaram de ser as únicas preocupações da vida de Roberto* aos 10 anos, quando uma pneumonia mudou de vez sua rotina. Os exames indicaram que o jovem amazonense estava com AIDS. Havia sido infectado pela mãe, soropositiva. O diagnóstico dela não era segredo para os adultos da família – ainda assim, a avó tinha fé de que o neto era saudável. Por isso, não deixou que ele fizesse antes exames para comprovar a presença do vírus. Assim, até ali, a vida do pequeno estudante de escola pública na cidade de Manaus – que morava em uma casa grande, com tios e primos, 11 pessoas no total – era como a de qualquer outra criança saudável.
 
“Comecei a tomar os medicamentos quatro vezes ao dia. Eu desconfiava do que poderia ser, porque lia as bulas dos remédios. E por causa dos lugares aonde ia. Só me contaram quando estava com 12 anos. Fiquei tranquilo, mas não gostava que as pessoas vissem que eu tomava remédio”, conta. Aos 14 anos, porém, ele sentiu uma tristeza que até então nunca tinha sentido. Queria paquerar, beijar, namorar. Teve medo de não conseguir ser um adolescente como outro qualquer. Roberto* dividiu essa dura história com o iG na última semana, em Brasília, para divulgar um concurso criado pelo ministério para mostrar a epidemia pelo olhos de jovens que vivem os desafios impostos pela doença.

O concurso Vidas em Crônica tem inscrições abertas até segunda-feira, pelo site www.aids.gov.br/vidas. Jovens de 15 a 30 anos que vivem ou convivem de perto com a AIDS podem se candidatar. Precisam compartilhar as próprias histórias. As melhores (se é que se pode chamar assim) serão publicadas em uma revista especializada e os autores ganharão computadores.
 
Falando em história, a de Roberto* teve uma reviravolta. O período difícil levou a um aumento da carga viral e uma internação por duas semanas. Mas o garoto encontrou forças. “Vi que minhas capacidades eram as mesmas de antes. Meu conhecimento era o mesmo. Meus sonhos também. Não foi fácil, mas vi que poderia viver tudo o que queria numa boa. E melhorei”, conta. Hoje, o estudante do 3º ano do ensino médio – que sonha com cursar direito na universidade – ajuda outros jovens que vivem com o HIV. Roberto*, que completará 18 anos no próximo dia 1º, faz parte da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV e Aids, grupo criado em 2008 com o apoio do Ministério da Saúde e do Unicef.

Voz aos jovens
Partilhar experiências, segundo Roberto*, é uma das maiores vantagens de participar da rede. Fazer amigos que vivem os mesmos dilemas e, principalmente, que não farão piadas, olharão de cara feia ou deixarão de abraçá-los e beijá-los por conta de doença alguma é fonte de força para eles, emenda a jovem Sofia*. “Eu tinha uns 10 anos e comecei a ouvir umas coleguinhas dizendo para as meninas não chegarem perto de mim, porque eu tinha AIDS. Eu não tinha muita noção do que era aquilo. Ainda existe muita ignorância, falta de conhecimento, discriminação”, declara.
 
Sofia* não viveu sempre com a família, como Roberto*. Aos três anos, foi passear com o avô e uma tia de 13 anos na praia. O avô, alcoólatra, as esqueceu lá, em uma cidade distante de Campinas, onde morava. Ela não se lembra muito bem. Recorda-se apenas de que foi levada para um abrigo. E nunca mais voltou a morar com a família. No novo lar, descobriram que ela tinha AIDS e ela, novamente, mudou de endereço. Foi levada para Cajamar (SP), morou em uma casa de apoio até os 16 anos. Aos 18 anos, teria de sair de lá, mesmo sem saber para onde ir. “Isso é muito ruim no sistema das casas transitórias: de um dia para o outro, a pessoa perde tudo”, critica.
 
Há um ano, no entanto, a falante e animada paulista ganhou um novo lar. Pai, mãe, irmãos. A mão biológica de Sofia* faleceu, por complicações da AIDS, em 2007. O contato com a antiga família era mínimo. Agora ela sonha com um curso superior e uma bela família. “Sempre gostei de aparecer, escrevo, canto, danço, faço trabalhos na igreja. Me sinto bem, saudável e feliz”, garante.
 
Como se vê, as histórias que serão publicadas pelo concurso não serão fáceis de serem lidas – mas serão histórias reais de adolescentes brasileiros. Ana Paula Silveira, assessora técnica no Departamento de DST AIDS do Ministério da Saúde, lembra que esses jovens impõem desafios também para as políticas públicas. Com o avanço dos medicamentos para a AIDS, cada vez mais eles chegam à vida adulta e com saúde. Para ela, é preciso aliar a escola, a assistência social e a saúde para garantir o atendimento dos anseios dessa juventude. “Eles querem direitos assegurados de uma vida plena e há estigmas que cercam o HIV e precisam ser superados”, afirma.
 
Novos casos** de AIDS entre jovens no Brasil
0 a 5 anos: 9.324
5 a 12 anos: 4.367
13 a 19 anos: 7.984
20 a 24 anos: 34.412

**entre 1997 a 2009

* Os nomes foram trocados para preservar os entrevistados





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