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18/09 - 14:50hs

Atriz lança livro sobre experiência com menores da Febem na década de 1980

"Me Leva nos Braços, Me Leva nos Olhos", de Annamaria Dias,

mostra superação de adolescentes infratores por meio da arte 

Larissa Drumond, iG São Paulo

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“Só consegui arrumar tempo para registrar as experiências que vivi na Febem depois de 21 anos e me lembrava de tudo, porque foi muito marcante”, revela Annamaria Dias, atriz, diretora e escritora que acaba de lançar o livro “Me Leva nos Braços, Me Leva nos Olhos”. As histórias que viveu enquanto ensinava teatro a menores infratores da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (atual Fundação Casa), na década de 1980, foram narradas em mais de 500 páginas pontuadas por rebeliões, dramas familiares e lutas contra as drogas. Veja o que ela conta sobre a obra.

iG Jovem: Por que você foi trabalhar com menores infratores, na Febem?
Annamaria Dias: Eu estava planejando morar no Rio de Janeiro em 1986. Queria retomar minha carreira [de atriz] na televisão, na Globo, mas recebi o telefonema do Dr. Nazih Curi Meserani, que conhecia amigos meus. Ele trabalhava com o presídio feminino e masculino e me chamou para dar uma palestra, porque eu fazia Kung Fu na época [risos]. Quando foi nomeado presidente da Febem, ele me convidou para fazer um teatro de integração entre menores internos.


iG Jovem: Como era o trabalho?

Annamaria Dias: Eu dava aula de segunda a sexta e, às vezes, também aparecia no sábado e no domingo. Fazia eventos, conversava e estimulava o lado intelectual e criativo. Eu tinha um vínculo forte com eles. Nosso nível de relacionamento era de muita integridade e verdade. Eles sabiam. Eles veem nos olhos se estão enganando ou não.

iG Jovem: Por que o livro só saiu agora?
Annamaria Dias: Eu demorei 21 anos para escrever o livro, mas não que eu estivesse escrevendo durante todo esse tempo. O problema é que eu não conseguia arrumar tempo por causa dessa vida agitada: teatro, televisão, empresa de eventos... E, finalmente, no dia 8 de dezembro de 2008, depois de quase dez anos da minha saída do SBT, onde dirigi várias novelas, me desliguei de tudo. Escrever é um ato solitário que requer muito foco e eu sou multifocada [risos].


iG Jovem: Depois de 21 anos, você ainda conseguia se lembrar de tudo com clareza?
Annamaria Dias: Ah, com certeza! Eu não esqueci nada. Para não dizer que eu não esqueci nada, fui à casa do ex-presidente da Febem, que me disponibilizou um material. Lá, eu vi um convite do primeiro espetáculo de Natal do nosso recém-inaugurado teatro, que estava destruído quando cheguei.

iG Jovem: Os mais de cem menores da Febem tinham aula de teatro ao mesmo tempo?
Annamaria Dias: Não, eu dividia entre vários grupos e fiz um cronograma de utilização do teatro não só para mim, mas para toda a equipe que passou a trabalhar comigo. Tinha também o setor de artes plásticas, de música, de trabalho corporal... O presidente na época implantou um núcleo cultural lá dentro. A ideia era tirar os meninos do confinamento para fazer atividades fora, porque um monte de jovem confinado gerava rebelião.


iG Jovem: Por que o projeto acabou?
Annamaria Dias: Na verdade, não acabou. Eles continuaram o trabalho, eu que saí. Eu tinha uma visão de gente de teatro e de televisão. Eu não era uma educadora formada; eu era atriz, diretora e autora. Só aceitei porque achei que era uma missão espiritual que eu teria de cumprir. Como condição, pedi que o reerguimento do teatro fosse prioridade máxima na gestão.

iG Jovem: Você sentia resistência por parte dos menores?
Annamaria Dias: A resistência maior foi de quem não queria que mudasse. Eles aceitaram muito bem e outros passaram a se interessar. Foi aí que tive que chamar outras pessoas para trabalhar comigo, porque eu não dava conta. Fui implantando medidas conforme via o que era necessário. Eu mais aprendi do que ensinei.


iG Jovem: O que você aprendeu e ensinou?

Annamaria Dias: Nosso trabalho deu aos meninos a capacidade de se expressar livremente através das artes. Eles se sentiam mais humanos. Muitas vezes, os espetáculos eram abertos ao público, que eram convidados nossos e os familiares deles. Era uma boa oportunidade para eles relaxarem, rirem e terem um espaço não só de aprendizado, mas também de lazer, como um encontro de amigos. Era uma chance de mostrar a sensibilidade que eles tinham.

iG Jovem: Quantas peças vocês chegaram a montar?
Annamaria Dias: Muitas. Eu escrevia as peças e eles me contavam as histórias, que eram teatralizadas. Montei o “Menino de Rua”, que a princípio era uma espécie de teatro de rua e até saí com eles para viajar: fui para Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e para eventos culturais em São Paulo. Eles puderam sair das unidades.

iG Jovem: Você tem notícia de algum menor daquela época que continuou atuando e virou ator?
Annamaria Dias: Não, eu nunca desenvolvi meu trabalho para formar ator, porque eles não tinham condição. Eles eram analfabetos ou semianalfabetos sem base para começar ou manter uma carreira. Apesar de alguns serem muito talentosos, eu nunca criei a ilusão de que seriam atores profissionais.


iG Jovem: Com a arte, você conseguiu incentivar a leitura?

Annamaria Dias: Muito, mas eles liam muito mal. No teatro, eu escrevia os textos e depois trabalhava frase por frase. Eu lia para eles interpretarem e guardarem, porque não conseguiam ler e decorar.

iG Jovem: Por que o livro se chama “Me leva nos braços, me leva nos olhos”?
Annamaria Dias: Essa frase é o início de uma música da dupla Antonio Carlos & Jocáfi, chamada “Estrela Amante”, que eu utilizava nos meus eventos na Febem; eu dava esse nome para os meus shows lá. Eu chamo de show porque eram manifestações artísticas não só dos menores, mas dos funcionários e dos integrados.

iG Jovem: Qual foi a sensação de ter conseguido reerguer um teatro?
Annamaria Dias: A melhor do mundo. Para um ator, um teatro destruído é terrível. O teatro é nosso templo, nossa igreja [risos]. Enfim, é o nosso espaço de manifestação divina. Mas ele foi novamente destruído em 1992 por novas rebeliões, infelizmente.

"Me Leva nos Braços, Me Leva nos Olhos"
Annamaria Dias
Editora Vida & Consciência
528 páginas
49 reais





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