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15/09 - 19:49hs

No elenco de Malhação, MV Bill fala sobre "virar Global", jovens e planos

"Acho que a televisão tem grande influência sobre as decisões da família brasileira", diz rapper, que vive professor na série teen

Nathália Ilovatte, iG São Paulo

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MV Bill, cujo nome artístico é mistura de “Mensageiro da Verdade” com o “Rato Bill” (de figurinhas de chiclete), se define como um cara ilimitado. E com razão. O rapper conseguiu transcender a segregação social e, sem sair da Cidade de Deus (onde nasceu, cresceu e ainda mora), dialoga hoje com todo tipo de jovem em seu mais recente trabalho: um papel na série teen Malhação, da TV Globo, como o professor de matemática e física Antônio.

Numa temporada em que o programa pretende abordar problemas sociais do país, como preconceito racial e diferenças sociais, MV Bill encontrou um novo meio de levar sua mensagem a um público cada vez mais amplo e diversificado. E conversou com o iG Jovem sobre o diálogo com os teens, o clima nos bastidores de Malhação, filmes, downloads de músicas e novos trabalhos.

iG Jovem: Você disse em entrevistas que aceitou entrar para o elenco de Malhação porque a série está com uma proposta diferente e quer abordar questões sociais. Você acha que ela está cumprindo o que se propôs?
MV Bill: Eu acho que não se pode esperar que a realidade seja modificada a partir da Malhação, mas acho que ela está tendo um papel importante em trazer esse tipo de discussão. Mas uma discussão mais aprofundada e aberta cada um tem que fazer em casa, de preferência entre pais e filhos. Acho que a televisão e a mídia, de modo geral, têm grande influência e poder sobre as decisões da família brasileira. E penso que a iniciativa do núcleo pensante de Malhação pode ser também uma tendência de outros programas, de dar um pouco mais de representatividade à diversidade que tem o povo brasileiro.

Num "papel maneiro", ele diz que cresceu "fazendo escravos e subalternos"

iGJovem: Como é falar a língua do público teen? Você teve que se adaptar?
MV Bill: Tá sendo uma continuação do meu trabalho. Eu já lido com o público teen, só que o público teen de favela, onde faço meus trabalhos sociais. Mas também tem muito adolescente de classes variadas que frequenta bastante os shows que têm classificação liberada para menores de 18 anos, principalmente em Santa Catarina. E a Malhação tá sendo uma forma diferente de trabalhar com esses jovens, porque a gente tem alguns momentos fora da gravação, de debates que a gente faz no camarim, e acaba sendo muito interessante...

iG Jovem: O que vocês já debateram?
MV Bill: Já falamos de vários assuntos, entre eles gravidez precoce, que não tem nada a ver com iniciação sexual, já falamos de racismo, de preconceito territorial, social, por classe. Falamos bastante das questões que são abordadas nas letras de hip hop. Muitos deles já frequentaram shows meus, e um dos meninos [o ator Júnior Madalena] tem um pedaço de uma letra minha tatuada no antebraço... Na trama, ele é um dos mais pela-saco, um dos mais filhos da p*** preconceituosos, e na vida real, no camarim, é um dos mais abertos.

iG Jovem: Você acredita que o novo formato da Malhação e a sua presença no elenco despertam o interesse de adolescentes da periferia?
MV Bill: Acho que, de uma forma geral, já tinha uma juventude diversificada que assistia, porém, nem todo mundo se identificava com as histórias. Mas como a Malhação está trazendo assuntos mais diversos, mais comuns à realidade brasileira, acho que deixou de ser um programa somente para jovens e passou a ser mais familiar, tendo em vista que eu ando recebendo um feedback de muitas mães, muitas senhoras, que estão gostando de ver, interpretados na televisão, dramas que são vividos por elas, de ter uma filha tão jovem já prestes a dar à luz.

iG Jovem: O que você acha bacana nessa geração de adolescentes com a qual está convivendo e dialogando?
MV Bill: Estar próximo de juventude é sempre bom, revigorante e rejuvenescedor. Vejo que há interesse dela pelas questões políticas, climáticas... E tem muitos que se interessam pela estética visual e musical do hip hop também. Mas acho que ainda tem uma parte da juventude que é bastante alienada e distante de questões que são importantes. Isso faz parte da juventude, mas procuro sempre pensar que ela é a engrenagem do país, então boa parte dela tem que continuar ligada às questões importantes. Sem perder o lado juvenil, é claro.

iG Jovem: Você começou cantando rap na Cidade de Deus e, hoje, está em uma série teen da Globo. Acha que a grande ponte para o mainstream foi o documentário “Falcão – Meninos do Tráfico” ter sido exibido pelo Fantástico?
MV Bill: Sem dúvida. O “Falcão” foi um marco importantíssimo, nem na minha carreira, mas na minha vida. Chamaria de divisor de águas. Acredito que o que me levou para a Malhação, já que isso não era uma coisa programada na minha vida e nem sou ator profissional, foram as coisas que aconteceram e acabaram me levando ao estágio em que estou hoje. Também nunca me coloquei como um cara limitado, sempre achei que não poderia ter limites nas minhas realizações, e aí, estar no elenco dessa nova temporada é parte de ser ilimitado.

iG Jovem: Você tem algum projeto tão chocante quanto Cabeça de Porco ou Falcão para sair?
MV Bill: Não. Eu e o Celso [Athayde] estamos fazendo mais um livro, chamado CDD Anos 80, onde eu conto um pouco da minha juventude, em paralelo ao crescimento e à transformação da Cidade de Deus. Estou fazendo shows do disco Causa e Efeito, que eu acabei de lançar, com vendas pela internet, mas não sei se nenhum trabalho é chocante ou tem polêmica envolvida. Torço para que não.

iG Jovem: O livro Cabeça de Porco e o documentário Falcão são chocantes pelo que mostram, porque quem lê ou assiste se pergunta como nunca soube de tudo aquilo antes.
MV Bill – Acho que aquela realidade choca por si só. Acho que ela era colocada pela mídia de uma maneira diferente, que não ajudava a ter uma discussão mais aprofundada. E a gente tentou inverter a lógica, fazer com que o jovem que está dentro da situação diga o que ele sente e o que fez com que ele entrasse para aquela vida, o que fez com que ele acreditasse que o único meio de ascensão era a criminalidade. Isso é muito chocante, né, saber que o mesmo crack, que é responsável pela morte de muitas pessoas, ao mesmo tempo é o sustento e alimentação de várias outras. E eu torço para que haja vontade política e mobilização para que daqui a dez anos a gente não tenha que fazer um trabalho tão chocante quanto esse.

iG Jovem – E quando sai o novo livro com o Celso Athayde?
MV Bill – Ainda não temos previsão, estamos escrevendo sem pressa.

iG Jovem – Na Malhação, você interpreta um professor de matemática e física. Como foi a sua relação com a escola na infância e na adolescência? Você se dava bem nessas matérias?
MV Bill – Eu estudei pouco. Em matemática eu ia bem, mas física eu nem cheguei a ter aula. Estou achando maneiro interpretar esse papel porque eu cresci fazendo muitos papéis pejorativos, como escravos, subalternos e outros ligados ao banditismo. E o Antônio é um professor completamente diferente. É oriundo de favela, porém, hoje é de classe média alta, vive na zona sul carioca, leciona no colégio mais caro do Rio de Janeiro e não precisou do sistema de cotas nem de bolsas para chegar até lá. Mas é um cara que reconhece que muitos que têm a mesma origem que ele não vão conseguir chegar tão longe se não tiverem ajuda de um sistema de bolsas ou de cotas. E aí, tem uma contradição no Antônio que é interessante. Ele pensa muito no coletivo, mas não tá conseguindo enxergar um problema dentro de casa, com a própria filha que está grávida e ele não sabe.

iG Jovem – É verdade que você gravou uma música para o “Velozes e Furiosos 5”, que vai ter cenas filmadas no Brasil?
MV Bill – Não, mas gostaria muito que fosse verdade. Isso aí foi uma boataria, mas estou torcendo para virar verdade. Também ouvi essa historia de que vai ser filmado aqui, mas no momento, a única musica que estou fazendo é com a Roberta Miranda, cantora sertaneja que está fazendo uma música chamada Forrapeando, misturando rap com forró. Ela me convidou para participar e achei super legal. A gente entra em estúdio semana que vem para gravar, e ela me convidou para roteirizar e dirigir o vídeoclipe. Já acabei de escrever a letra, vamos gravar, e aí vou começar a pensar nas idéias para o clipe. Tomara que ela curta.

iG Jovem – Você também participou do filme “Sonhos Roubados”, da Sandra Werneck. Você gosta de cinema?
MV Bill – Gosto muito de cinema. Acho que o cinema brasileiro está em fase crescente.

iG Jovem – E quais filmes viu recentemente e acha que vale a pena indicar?
MV Bill – Tem o filme “Besouro”, que mistura capoeira e arte marcial e fala de um Brasil pós-abolição da escravatura. É bem legal. Ele foi rodado no Recôncavo Baiano, é bem interessante. Também tem o “5x Favela”, do Cacá Diegues, que está em cartaz nesse momento e tem uma produção internacional. E um filme brasileiro, mas que tem uma produção gringa, que é o “Nosso Lar”, que fala sobre espiritismo e vida após a morte. Acho que vale a pena dar uma conferida.

iG Jovem – E músicas? O que você tem ouvido?
MV Bill – Além de muita Roberta Miranda, que para fazer a música fiquei 48hs ouvindo direto, eu também estou escutando um disco que baixei na internet do Caetano Veloso, gravado no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, na década de 70, junto com a banda Black Rio. O nome do disco é “Bicho Baile Show”. São várias musicas do Caetano com suingue funkeado, com o soul jazz da banda Black Rio. É um disco muito bom, quem puder, procura que é legal.

iG Jovem – Você disse que baixou o disco na internet. Você baixa numa boa, não tem problemas com a questão dos direitos autorais?
MV Bill - Pra mim é tranquilidade, cara. As minhas coisas são disponibilizadas. Mesmo o meu disco recém-lançado, já tem pessoas que já postaram inteiro na internet, um manda para o outro o link... Mas como eu vendo muito barato, por cinco reais, eu chego aos lugares e mesmo quem já baixou faz questão de comprar, para ter o encarte com as letras. Então, não tenho nenhum problema com isso, não. Acho que a música pela internet de forma gratuita é uma tendência.




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