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27/08 - 15:31hs

Katy Perry lança "Teenage Dream", um cartão postal da cultura americana
Novo CD da cantora já tem músicas entre as mais tocadas; siga seus passos num dia de trabalho – e no começo religioso de sua carreira

Melena Ryzik, do New York Times

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Katy Perry está se afundando na areia. Ela está numa festa em um ambiente praiano para ouvir seu novo álbum, Teenage Dream, com palmeiras, pranchas de surf e quilos e mais quilos de areia transportados de caminhão para decorar o espaço em Midtown, Nova York. Se ela fosse a Lady Gaga, talvez tivesse exigido uma passarela de treliças com animais de pelúcia pendurados, ou assistentes se lançando de bruços no chão; ao contrário, havia apenas modelos usando biquíni, comendo algodão doce e jogando frescobol – um cartão postal da cultura tipicamente americana.

Sandálias de dedo definitivamente não estão nos planos das pop stars...

Perry não ficou feliz com o pequeno deserto que se formou entre ela e seu assento – “Não quero areia em meus sapatos de salto”, disse, fazendo beicinho e ecoando uma de suas letras (“We don't mind sand in our Stilettos”). Mas, ela é só “uma garota comum que ficou famosa”, então saiu cambaleando sobre as plataformas de 10 centímetros, brincando com a areia, com os saltos desaparecendo a cada passo. Chinelos de dedo realmente não fazem parte do script das estrelas do pop.

Depois de apresentar algumas músicas, ela posou para fotos e deu autógrafos para companheiros da indústria fonográfica que estavam na sala – e que a poderiam ajudar a impulsionar Califórnia Gurls ao patamar de canção do verão. “Para Shawn – Você é um cara divertido”, ela escreveu em uma foto, assinando seu nome e desenhando uma carinha de sorriso e dois corações. Na manhã seguinte, ela já estava de volta em seu ambiente familiar em um evento promocional na Times Square (NY), fazendo mímicas sensuais no microfone para turistas que gritavam enquanto ela cantava e dançava pelo local – indo parar em cima de um Volkswagen estacionado. Dessa vez ela guardou os sapatos de salto para não descascar a pintura.

Divulgação do álbum em NY: carreira foi do gospel ao provocativo

O que realmente consta no script da pop star moderna é o seguinte: promoção implacável, crossover corporativo, desenvolvimento de uma marca e uma personalidade exageradamente atrevida. Aos 25 anos, Perry vem se mostrando bem adepta dessas características. Ao longo dos anos ela fez um improvável giro de 180 graus de cantora gospel para estrela provocativa, conseguindo que seu público acompanhasse a autenticidade de ambas. Atualmente no topo das paradas, ela é uma personalidade da cultura pop, uma figura carimbada nas páginas de fofocas graças a seu tom bombástico e ao seu noivado com o comediante britânico igualmente obsceno, Russel Brand (o relacionamento do casal pode ser seguido no Twitter). O bate-papo provocativo do casal é refletido na música de Perry, cheia de insinuações e referências sexuais ao som da batida dançante. Apesar de tudo isso, ela diz que ainda é uma pessoa profundamente espiritual. “Ela tem uma visão bastante distinta. Se algo não é exatamente o que ela quer, não acontece. Sem dúvida ela é sua própria CEO”, disse Greg Thompson, vice-presidente executivo de marketing e promoção da EMI, empresa proprietária da gravadora Capital Records, que lançou Tenage Dream neste mês.

Perry tem uma visão bastante diferente do que afirmou o executivo. “Definitivamente estou em uma peregrinação”, disse ela. É claro que músicos que buscam por satisfação de forma pública não são novidade. Mas, para Perry, que teve uma educação cristã evangélica e que chegou ao estrelato em meio a uma cultura de excesso de exposição por parte das celebridades, essa busca tem um peso diferente. Os princípios de sua busca podem incluir a fé (nela mesma), a devoção ao seu ofício e certo tipo de materialismo tímido.

Perry não tem vergonha de sua ambição: “Eu nunca vou querer entrar em um restaurante e as pessoas perguntarem: ‘O que mesmo que ela faz? Quem é ela?”, disse recentemente durante um jantar no Lion, clube badalado do West Village que Perry disse ter escolhido por causa dos trabalhos expostos nas paredes. Ser memorável quer dizer estar visível e ser diferente, e Perry se sente confortável em relação a ambos.

Confira o clipe de California Gurls:


Ela fugiu dos paparazzi em frente ao Lion, pois ficou preocupada que eles conseguissem uma foto reveladora demais de seu mini-vestido de renda cinza quando ela descesse do carro; seu estilo, com referências retro-modernas, como as pinups e as garotas japonesas do Harajuku, fez dela uma queridinha da mídia de moda. “Nós dois somos como cartoons ambulantes”, ela brincou, mencionando o namorado Brand. Obscenidades também fazem parte do vocabulário de Perry. “Ela é uma garota linda de morrer com uma boca de caminhoneiro”, disse Thompson. Apesar de dizer que não usa o nome de Deus em vão, ela frequentemente desconsidera muitos dos outros mandamentos que cresceu ouvindo.

Perry nasceu Katy Hudson na Califórnia, filha do meio de um casal de pastores evangélicos itinerantes que montavam igrejas em frente a lojas e faziam sermões pelo país (Ela usa o sobrenome de solteira da mãe para evitar confusões com a atriz Kate Hudson). A família acabou se instalando em Santa Bárbara, Califórnia, onde Perry frequentou uma escola cristã que, ao contrário do que ela hoje preferiria, não tinha um uniforme fofo e sexy – apenas os tradicionais em tons de bege.

Ela cantava na igreja, aprendendo guitarra sozinha e escrevendo suas próprias letras aos 13 anos de idade – época em que se deu contar que era “uma figurinha interessante”, como ela mesma diz. Foi mantida longe da cultura pop dominante, mas pode usufruir de alguns prazeres do sul da Califórnia: ela foi para um acampamento de surfe cristão onde as crianças rezavam por ondas grandes. “Eu fui educada de um jeito muito esquisito, muito ao estilo de fazer minhas próprias escolhas”, ela conta.

No início da adolescência ela sabia que queria ser cantora. Ela conta que passou no GED – General Education Diploma – depois do primeiro ano do colegial (questionada se alguma vez se arrependeu de não concluir o segundo grau, diz: “Não, porque sabatina existe em toda parte”). Com a ajuda de seus pais, Perry conseguiu um contrato para gravar um álbum gospel em Nashville e sair em turnê por igrejas. “Eu estava bem mais para o jazz naquela época. Eu queria ser a Amy Grant”, diz. Mas, a gravadora gospel fechou e Perry voltou para a Califórnia, indo morar sozinha aos 17 anos.

“Quando eu saí de casa, com a benção de meus pais, foi como descobrir que o mundo é redondo”, conta. Seus gostos se expandiram muito. “Todo gênero musical era meu preferido. Eu não tinha nenhum ponto de referência”.

Se a visse hoje, a Katy de 15 anos a "diria para usar mais roupas"

Com o gospel fora do jogo, Perry foi em direção ao rock. Ela cortejou Glen Ballard, produtor frequente de Alanis Morissette, e assinou contrato com duas gravadoras grandes, mas perdeu os dois contratos. Ela diz que foi mais ou menos assim: “Aqui está seu bilhete dourado. Agora me dá seu bilhete dourado de volta”. Para segurar as pontas, trabalhou analisando fitas demo em uma gravadora pequena de Calabasas, Califórnia – que ela descreveu como a Hoboken de Los Angeles – e andando em carros alugados depois que perdeu o seu por causa de dívidas. “O que eu posso dizer é que não foi nada fácil”, ela fala em relação a essa fase de sua vida. Diz, porém, que não tinha dúvidas de que teria sucesso. “Eu me achava invencível”.

Perry acabou assinando com a Capitol, que lançou One of the Boys, seu álbum pop de estréia em 2008, convidando-a para abrir a turnê da banda punk de skatistas Van Warped Tour logo que seu single, I Kissed a Girl, estourou. Segundo dados da Nielsen SounScan, a canção vendeu 3,8 milhões de downloads, além de ser indicada ao Grammy, e não foi por acaso que gerou bastante controvérsia (seu primeiro EP, Ur So Gay, sobre um namorado afeminado, também ajudou).

“O trabalho foi criticado por muita gente, pois brincava com fantasias masculinas em vez de dizer algo novo sobre a política dos gêneros”, disse Sadie Stein, editor colaborador do blog Jezebel, que vem acompanhando a carreira de Perry. Ela fez uma pausa e analisou a declaração. “Só de falar isso, já parece tolice”, ela disse. Afinal de contas, isso nada mais é do que o mundo pop, e a linha de defesa de Perry era chamar seu trabalho de leve, divertido, descompromissado (ela também já se pronunciou a favor do casamento gay).

Entretanto, sua credibilidade vem sendo questionada ao longo da carreira: seria ela um símbolo de rebeldia ou uma representação repetitiva da garota boazinha que virou má, um produto fabricado da indústria fonográfica com um senso de estilo meio maluco, um blá-blá-blá que faz dançar com o ritmo da música?

As respostas a essas perguntas quase sempre são afirmativas: Teenage Dream se mantém com uma fórmula para tocar no rádio, com uma mistura de faixas bobinhas (Peacock), baladas e hinos de força (Firework, que Perry diz ser sua canção preferida). Ela conta que não quis fazer um álbum mais maduro como auto-afirmação, ou pior ainda, contar como ser rica e famosa.

California Gurls há mais de três meses figura próximo ao topo do Billboard Hot 100, posição recentemente acompanhada pela faixa título de Teenage Dream, enquanto One of the Boys ganhou o disco de platina (MTV Unplugged: Kate Perry, de 2009, não foi bem recebido). Stein percebeu que, diferentemente de Lady Gaga – o totem de todas as cantoras pop do momento – Perry não é muito ameaçadora, apesar das obscenidades e insinuações. “Ela se molda como a menina bonita que preenche os papeis femininos, mesmo que de forma subversiva. Ela pode até dar uma piscadinha ingênua, mas o resto de seu corpo esta bem desnudado quando ela faz isso”.

Quanto do trabalho de Perry é feito com certa ingenuidade é uma pergunta em aberto. Certamente ela gosta do ambiente de acampamentos: a capa de Teenage Dream vai ter cheiro de algodão doce. O vídeo de Califórnia Gurls foi filmado em uma Terra de Açúcar onde canas de açúcar se transformam em cobras e ursinhos doces fazem sinais obscenos com o dedo para ela; no final ela lança creme chantili de canhões presos a seus seios. É uma atitude sagaz se auto-intitular um cartoon antes que alguém o faça. 

“Meu Deus, aquela música é tão chata”, disser Perry, quando Califórnia Gurls foi tocada em uma de suas primeiras aparições. Ela pareceu entediada ao cumprir muitas de suas funções, como dar autógrafos, ajustar sua imagem e promover seu álbum. Quem poderia culpá-la? Ela tinha coisas maiores com o que se preocupar. Como transportar um hambúrguer de pelúcia do tamanho de uma cadeira, acompanhado de fritas, que ela tinha comprado para sua casa com Brand. “Problemas de pop stars”, ela brincou. Ela gosta de parecer fofa, mas é bastante mordaz. Ela é fã de Die Antwoord, grupo de rap escachado da África do Sul que tem uma vocalista pixie; foi ao show do grupo no mês passado, dançando fora do palco com Brand, ele com a camisa mal abotoada por detrás dela.

Também tem a vida depois da fama e suas excentricidades – que não saem de sua cabeça, disse ela durante o jantar. “Quanto álcool você pode beber, quantas coisas você pode comprar, mas, no final, vai ser só você e aquele caixão”, disse ela.

Ser educada com a imagem do fogo do inferno e o sentido de que os prazeres terrenos são temporários se traduz em um pouco de trevas em seu trabalho. Na faixa Who am I Living For? ela canta: “Posso enxergar os céus, mas ainda escuto as chamas chamando pelo meu nome”. Mesmo o vídeo açucarado de California Gurls tem uma mensagem moralizadora. “Nem tudo é doce. Você não pode exagerar, pois aí vai ter problemas”, diz.

Perry credita sua estabilidade a Brand, e seus pais ainda rezam por ela. Mas, ela não parece ser uma contradição em sua carreira excêntrica. “Eu sou assim, porque eu me fiz assim. Deus me fez, mas eu tentei fazer acontecer”, diz.

O que Perry, a adolescente de 15 anos, que sonhava em ser uma estrela gospel, pensaria de sua vida de hoje? “Acho que aquela Perry estaria empolgada e impressionada com tudo, mas também me diria para vestir mais roupas”.





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