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26/07 - 20:42hs

Karina Buhr pode desbotar a festa do happy rock no VMB 2010
Indicada a “Revelação”, cantora fala sobre concorrer com o rock colorido no prêmio da MTV: “existe uma tendência de pasteurizar”

Larissa Drumond, iG São Paulo

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Karina... O quê? Em meio ao rock colorido de Restart, Replace e Hori, um nome não muito familiar surge na lista de indicados ao prêmio “Revelação” no Video Music Brasil 2010. Karina Buhr. “Levei um susto quando vi meu nome com Restart e Hori, que devem receber muito mais votos do que eu [para a premiação da MTV]”, confessa a cantora de 35 anos. Nascida na Bahia, criada em Pernambuco e descendente de alemães (viva a globalização!), ela firmou o pé em São Paulo há seis anos. “Eu já me sinto completamente em casa. Consigo matar a saudade de Recife no carnaval ou quando toco lá”.

Apesar de já ter passado pelo maracatu, ela já avisa que seu som não tem nada de regional. “Eu Menti Pra Você” é o primeiro disco de sua carreira e sofre diversas influências. Nada de rótulos. “Uma música é punk rock, a outra é mais lentinha, mais depressiva, mais romântica ou mais rock ‘n’ roll. Cada um escolhe o que é”, revela. Mas tudo carregado, claro, com um sotaque nordestino bem arretado – ou “massa”, como prefere dizer.

O primeiro videoclipe do álbum é “Nassiria e Najaf”, música com participação especial de Edgard Scandurra (ex-integrande da banda Ira!), lançado em maio deste ano. Enquanto faz shows pelo País, planeja transformar “Eu Menti Pra Você” em clipe – e, quem sabe, sonha com mais indicações para o VMB. “É a chance de continuar o teatro, que parei de fazer”.

Na hora de votar no VMB deste ano, antes de vestir a camisa – laranja, com calça verde limão – do happy rock, veja o que Karina Buhr tem a dizer. Mesmo que ela seja uma pessoa má e minta para você.

iG Jovem: Você concorre ao prêmio “Revelação” com bandas de happy rock. Como você se sente em relação a isso?
Karina Buhr: É bem louco. As outras bandas são justamente aquilo que estão chamando agora de rock colorido. Eu levei um susto – não pelo fato de estar na relação de indicados, porque eu achei bem massa, mas por estar no meio de Hori, Restart e Replace. O Hori, de Fiuk, e o Restart são bombadíssimos na mídia e direcionados a um público diferente do meu. Na verdade, eu não direciono a público nenhum. Se gostar, gostou. É engraçado, vamos ver o que acontece! Com certeza, eles têm muito mais gente votando. [risos]

Em ascensão: "Levei um susto quando vi a indicação", confessa

iG Jovem: O que você acha do rock de hoje?
Karina Buhr: Existe hoje uma tendência muito chata de pasteurizar. Mas tem muita coisa massa acontecendo, é uma questão de espaço. Ao mesmo tempo em que tem essa forçação de barra com os clones, as bandas independentes têm recebido mais atenção. Trabalhos que não poderiam acontecer em outra época, acontecem. O Cidadão Instigado, que por acaso foi indicado ao melhor prêmio de MPB, é uma banda rock ‘n’ roll e muito boa. Nação Zumbi e Instituto também são impressionantes.

iG Jovem: Você tem mais liberdade por ser uma cantora independente?
Karina Buhr: O principal ponto de ser independente é ter essa liberdade. Mesmo que eu assine contrato com alguma gravadora ou faça parceria com algum selo que me patrocine, eu faço questão de manter a liberdade do trabalho independente. Trabalhei assim a vida toda por opção e só faço exatamente o que quero. 

iG Jovem: Desde quando a arte é tão influente na sua vida?
Karina Buhr: Na verdade, desde pequena eu sempre gostei de dançar, cantar e desenhar. Foi uma brincadeira que eu resolvi estender e levar a sério. Mas a música foi uma surpresa, só depois eu comecei a levar profissionalmente.

iG Jovem: Quando você percebeu que cantar era mesmo uma opção?
Karina Buhr: Não foi nada pensado. Eu comecei a cantar e a tocar no carnaval, no maracatu Piaba de Ouro e Estrela Brilhante. Isso em 1994, quando eu tinha 20 anos. Foi muito natural, porque nessa época aconteceu toda a movimentação musical em Recife. Passei a conviver com músicos, a tocar em lugares diferentes e, quando percebi, estava fazendo isso da vida. Minha primeira banda foi o Eddie, em 1995, depois a Comadre Fulozinha, em 1997. Uma coisa foi puxando a outra.

Assista ao videoclipe de “Nassiria e Najaf”:


iG Jovem: Você tem alguma superstição quando sobe ao palco?
Karina Buhr: Eu gosto de me concentrar enquanto me maquio. Tenho que ter cuidado para não virar um palhacinho [risos]. Em dias de show, é uma trabalheira danada! Até perguntam se eu não quero arrumar um maquiador e eu respondo: “Não, pode deixar essa parte comigo!” Claro que não fica tão fantástico como eu gostaria [risos], mas é o tempo que eu preciso.

iG Jovem: Qual era o intuito da Comadre Fulozinha?
Karina Buhr: A Comadre, na verdade, não acabou. Eu coloquei o nome na banda e estou desde o começo. Por enquanto está de molho, mas não rolou um ponto final. A ideia foi tocar percussão e cantar. Foi na Comadre Fulozinha que comecei a exercitar essa história de fazer música. Antes eu tocava, cantava, mas não compunha. Eu sempre escrevi, mas não transformava em música. 

iG Jovem: No dia 14 de julho, aconteceu a apresentação “Nós pelo Nordeste”, em São Paulo, para ajudar as vítimas das chuvas em Alagoas e Pernambuco. Como foi participar e encontrar outros artistas também do Nordeste?
Karina Buhr: Foi maravilhoso fazer parte dessa história. Fiquei bem agoniada querendo ajudar de alguma forma. Tinha até pensado em deixar uma caixa [de donativos] na Defesa Civil para enviar. Achei pouco, mas não estava conseguindo pensar em outra maneira. Foi quando veio o convite de Ganja. É um jeito muito melhor de contribuir do que mandar uma caixa.

iG Jovem: Há alguns dias, a Pitty falou no Twitter que lembra de você desde a época da Comadre Fulozinha. Como é sua relação com outros artistas, mesmo que de estilos diferentes?
Karina Buhr: Eu conheci a Pitty num show com o Eddie há muito tempo. Devia ser em 1996, num festival bem underground de Salvador. E aí a gente acaba se encontrando depois, em estágios diferentes da carreira. É muito bom! Otto, Junio Barreto, Catatau, Pupilo... Cada um vive sua história e vai se esbarrando pelo caminho, tanto pela amizade como para fazer música.

Sobre o nome do CD: "Todo mundo é bonzinho, mas no fundo é mentira"

iG Jovem: Você acha que a música nordestina tem recebido mais atenção?
Karina Buhr: Pois é, tem! Eu sempre bato na tecla de que nem tudo que vem do Nordeste é regional. É do Brasil. Eu acho ótimo que a Pitty esteja fazendo sucesso há um tempão e um trabalho maravilhoso. Ela leva uma parte de Salvador que normalmente não aparece muito – a não ser lá atrás, com Raul Seixas e Camisa de Vênus. Tem também Otto, Cidadão Instigado, Mombojó, Eddie, Alessandra Leão... Um número maior de pessoas tem ganhado espaço. Não é mais rotulado como “Você é do Recife, então faz manguebeat”.

iG Jovem: Porque o nome do primeiro CD é “Eu Menti Pra Você?”
Karina Buhr: A música “Eu Menti Pra Você” é bem forte nesse trabalho e foi uma das que me levou a querer fazer o disco. Por mais que eu tenha trabalhado com várias pessoas, a minha cara estava sempre ligada à Comadre Fulozinha. Também tem a história do disco ter várias influências: uma música é mais punk rock, a outra é mais lentinha, mais depressiva, mais romântica, mais rock ‘n’ roll e por aí vai. Então, eu fiz essa brincadeira do “Eu Menti Pra Você”. Cada um escolhe o que é.

iG Jovem: A música diz “Eu sou uma pessoa má, eu menti pra você”. Você é má e costuma mentir?
Karina Buhr: Na verdade, é uma brincadeira [risos]. A gente vive numa cultura meio blasée, em que todo mundo é bonzinho, mas no fundo é mentira. O mundo está acabando e todo mundo está se matando.

iG Jovem: Como você se inspira para compor suas músicas?
Karina Buhr: Tudo que acontece comigo me inspira de algum jeito, não existe regra. “Nassiria e Najaf” foi na época da guerra do Iraque. Resolvi fazer quando acompanhava o noticiário na televisão. “Soldat”, por exemplo, eu fiz pensando no meu tio, irmão do meu avô, que foi para a Segunda Guerra Mundial. Ele tinha 16 anos e foi com a última leva, quando não tinha mais quem lutar. Eu encontrei com ele aos 81 anos, no ano retrasado, e resolvi compor essa música.

iG Jovem: A música “Telekphonen” é uma conversa em alemão ao telefone. Você fala alemão fluentemente?
Karina Buhr: Fluentemente não, mas já falei. Eu tenho uma ligação muito forte com a Alemanha por causa do meu avô e da minha família. A gente não falava a língua em casa, eu aprendi nos sete meses em que eu morei lá, aos 16 anos. Tenho vontade de estudar alemão, mas falta força de vontade também [risos]. A música é mais uma brincadeira.

iG Jovem: Você escuta música alemã?
Karina Buhr: Eu deveria escutar mais. Mas gosto muito de Kraftwerk, Marlene Dietrich, Beethoven e das coisas antigonas também. O engraçado é que quando as pessoas escutam “Telekphonen”, elas querem falar comigo sobre um monte de banda eletrônica alemã como se eu conhecesse.

iG Jovem: Quais são suas influências?
Karina Buhr: Minhas principais influências foram essas que eu vivi em Recife, principalmente nos anos 90. E música brasileira que eu ouvia quando eu era pequena, como Alceu Valença. Mas não que sejam influências diretas.

iG Jovem: E o que você gosta de ouvir quando está em casa?
Karina Buhr: Eu escuto tanta coisa diferente que nem tem como citar um só. Para você ter uma noção, aqui na minha frente tem um disco do Luiz Caldas e do lado tem O Pequeno Cidadão [risos]. Foram as últimas coisas que eu ouvi. Gosto do Bob Marley, do Van Halen, do Luiz Gonzaga, do Rush...

iG Jovem: Foi você que fez as ilustrações do encarte do CD?
Karina Buhr: Sim, foi! Eba, alguém perguntou isso! Eu sempre fiz as capas da Comadre Fulozinha e os encartes. Nesse disco, eu senti uma necessidade muito grande de usar uma foto minha para colocar a cara à tapa mesmo. Eu queria usar meus desenhos, mas também queria que ficasse diferente dos da Comadre Fulozinha. São poucas figuras, mas são personagens que poderiam estar em várias músicas do disco.

A capa do CD, que ela mesma fez: "Eba, alguém perguntou isso!"

iG Jovem: Você chegou a fazer faculdade de Artes Plásticas?
Karina Buhr: Não. Tudo que eu faço, aprendi fazendo. Cheguei a entrar em Educação Artística e prestei Direito só para provar para o meu pai que eu era capaz de passar, porque eu sou uma pessoa má [risos]. Passei, mas fui reprovada no terceiro ano do colégio. Eu me desencantei e juntou com o fato de eu não me identificar com nenhum curso da universidade. Fiz dois anos de Educação Artística, mas acabei abandonando. Eu passava mais tempo no bar do que lá dentro [risos]. Foi bom para conhecer um monte de amigos.

iG Jovem: Você já está em São Paulo há seis anos. As pessoas falam muito do seu sotaque?
Karina Buhr: [risos] Falam, sim. No bom e no mau sentido. Ainda existe uma barreira no Brasil, porque o sotaque que aparece na televisão, no rádio e no cinema vem do Rio e de São Paulo. É até um sotaque que não existe. Aí eu chego falando de outro jeito e incomoda. De uma maneira geral, a resposta é positiva, mas tem gente que fica com raiva, sabe? [risos] Às vezes me xingam na internet e falam que eu forço, mas as pessoas se acostumam aos poucos.

iG Jovem: Você está sempre estilosa. Qual é sua relação com a moda?
Karina Buhr: Na verdade, é um misto de não ligar em estar bem vestida e achar muito massa escolher figurino para o show. Não necessariamente ficar mais gata ou mais gostosa. Se eu ficar, ótimo [risos]. Mas gosto de sair da vida diária, colocar uma roupa mais doida, mais colorida, que eu não usaria normalmente para sair na rua. Gosto de sair do real e ficar mais louca.





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