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22/07 - 13:11hs

"Não tratamos relacionamento como adolescentes", diz Lucas Silveira
Fresno, mais maduro no álbum “Revanche”, fala ao iGirl sobre Twitter, MTV, rótulos indesejáveis e happy rock

Larissa Drumond, iG São Paulo

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Se você sempre torceu o nariz ao ouvir Fresno na rádio, não se surpreenda se mudar de ideia ao ouvir o novo CD da banda, “Revanche”. Eles próprios atestam a evolução do som nesse álbum. “A gente errou muito e acho que deu para consertar agora”, diz o vocalista Lucas Silveira. Com mais personalidade nos riffs de guitarras e densidade nos arranjos, os gaúchos parecem se colocar acima de rótulos que, se por outro lado fizeram o grupo estourar, também ofuscaram as pretensões de serem vistos como legítima banda de rock. “Para a MTV, a gente ainda está no mesmo saco que as bandas pop”, reclama Lucas.

Ao deixar para trás “Redenção”, um álbum considerado pop demais, Lucas Silveira (vocal), Rodrigo Tavares (baixo), Vavo Mantovani (guitarra) e Bell Ruschel (bateria) conversaram com o iGirl sobre o retorno da identidade e da essência originais do quarteto. Fãs de Queen, Rammstein e Muse, eles analisaram o amadurecimento da Fresno, que surgiu em 1999 no Rio Grande do Sul e agora chega ao quinto disco, recheado com 13 faixas surpreendentes.

iGirl: Por que o nome “Revanche”?
Lucas Silveira: A primeira opção foi “Revanche”, porque a gente tenta dar um soco, um golpe. Ainda mais pelo fato de o cara ser famoso e as pessoas acharem que você está milionário, que você não tem direito de reclamar. Esse disco é um apanhado de tudo, de uma banda que fez muito sucesso justamente por ter sido vendida como uma banda pop. As músicas trabalhadas no rádio foram as mais pop. O bom é que faz sucesso, mas você passa a ser conhecido por um som. Houve uma distância entre o que estava transformando a Fresno em uma banda famosa e por que a gente estava ficando famoso. Agora estamos reaproximando, com riffs e mixagens em que a guitarra aparece mais do que o normal. É a revanche do rock em cima do pop, que é um lugar onde a gente não se sente muito confortável.

"O nosso quinto disco é a revanche do rock em cima do pop"

iGirl: Como foi o processo de criação de “Revanche”?
Lucas Silveira: A gente pensou assim “Ah, vamos fazer um disco bom!” [risos] O repertório foi aprovado no fim do ano passado e foram 20 e poucos dias de gravação espalhados em dois meses e meio, porque a gente estava fazendo shows do “Redenção” ainda. A gente não parou a turnê.

Rodrigo Tavares: É, mas aqui no Brasil não tem muito essa tradição da turnê, de sair de casa e voltar só depois de seis meses. A gente está sempre trabalhando, fazendo shows por aí.

Vavo Mantovani: Só verão que é uma época ruim para shows, porque o pessoal quer axé e pagodão. Até o reggae bomba bastante.
 
Lucas Silveira: A gente ensaiava toda semana. Essa gravação foi a mera captação de todas as ideias que a gente já tinha definido musicalmente. Foi só questão de descarregar, encontrar o timbre e os detalhes que só são decididos mesmo na hora de gravar. A intenção era que o disco ficasse pesado e tivesse uma sonoridade muito mais cheia do que os outros. Fora isso, tem mil texturas com teclado e sintetizador. A Fresno tem carta branca no estúdio, porque o Rick [Bonadio, produtor] já nos conhece muito e já deu sinais de que confia bastante no nosso trabalho – até pelo fato de eu ter lançado o disco do Beeshop sozinho.


iGirl: Qual é o diferencial desse CD em relação aos outros?

Lucas Silveira: O nosso psiquiatra é a música. Mudou a maneira que a gente aborda os temas. A gente não trata mais de um relacionamento como adolescente, que vai amar para o resto da vida ou que perdeu. Agora a questão é tentar desapegar de coisas que não nos fizeram bem. E essa carga de emoção transparece muito no disco.

Rodrigo Tavares: A gente consegue descarregar aquilo que tem de mais pesado. A temática é mais adulta, a gente fala como caras mais velhos, não como garotos de 17 anos.

Vavo Mantovani: Hoje a gente é completo musicalmente.

Rodrigo Tavares: Adolescente acaba fazendo muita história de amor. A maneira como a gente olha as próprias músicas de amor é diferente. Hoje é “tudo bem, beleza”! Agora todo mundo tem uma vida adulta, cada um tem o seu canto. Então, já traz uma percepção nova em relação àquelas que a gente compôs morando junto, como uma banda, e dos CDs feitos na casa dos pais. É por isso que a temática do disco é bem diversa. É um reflexo, não é nem uma resposta, porque resposta parecer ser algo pensado. É um reflexo totalmente involuntário da vida. A gente caiu em algumas armadilhas também. A Fresno foi marquetada como uma banda mais pop do que a gente é na verdade.


Assista ao vídeo de “Deixa o Tempo”, o primeiro clipe de “Revanche”:


iGirl: É, no começo todos consideravam a Fresno uma banda emo, mas vocês ganharam um prêmio da MTV como melhor artista pop. Como vocês lidam com esses rótulos?
Lucas Silveira: Para a MTV, a gente ainda está no mesmo saco que as bandas pop. O nosso site é fresnorock.com.br, mas a imagem passada para a massa não foi essa. Mesmo se a gente fizesse um rock mais light e fosse uma banda independente, ninguém falaria que é uma banda pop, que é rotulado de uma forma pejorativa.


iGirl: Por que a música “Die Lüge” recebeu esse nome em alemão?

Rodrigo Tavares: Ela tinha um nome provisório e lembrava muito uma música do Rammstein, uma banda alemã de rock.

Lucas Silveira: E ficou aquela história: “Que música a gente vai tocar agora?” “Vamos tocar a Rammstein!”

Vavo Mantovani: Ela ia se chamar “A Mentira” e eu não sei quem teve a ideia de colocar o nome em alemão.


iGirl: Vocês falam alemão?
[Vavo Mantovani e Rodrigo Tavares começam a conversar em alemão]

Rodrigo Tavares: O Vavo fala alemão mesmo.

"A Fresno foi marquetada como uma banda mais pop do que realmente é"

iGirl: Lucas, você prefere cantar em português ou em inglês?
Lucas Silveira: Tanto faz. Tem diferença, as músicas do Beeshop ficariam bizarras em português e as do Fresno, em inglês. A composição em inglês é bem diferente. Em português, é difícil contar uma história factual. Aqui se convencionou em ser mais poético. A música em inglês é mais direta e bem menos rebuscada, do tipo: “aconteceu isso, isso, isso e pronto”. Tanto que se traduzir, todo mundo pensa “Que merda!”


iGirl: Vocês já citaram Rammstein. Quais são suas influências musicais?
Rodrigo Tavares: Na verdade, é essa a hora em que a gente não pode ser chamado de artista pop, porque a gente bebe na fonte de Paul McCartney e Panthera, enquanto o Lucas ouvia Muse, saca? A gente consegue variar o nosso gosto musical e reunir tudo que é bom.

Lucas Silveira: A gente consegue entender que tem até pagode bom. A gente não é rebelde a ponto de não conseguir admirar o trabalho alheio.

Vavo Mantovani: Independentemente de qualquer música, a gente consegue dizer que é bom. Está cheio de pagode bom por aí e dá para tirar alguma referência mesmo que o som seja diferente.

Lucas Silveira: Uma influência notória é o Muse.

Vavo Mantovani: Uma banda que tem muito trabalho de guitarra é o Charlie Brown Jr., mas eles sofrem do mesmo problema que a gente. Eles fazem um baita de um riff, mas a música que fica famosa é no violãozinho, sabe?


iGirl: Na banda dos sonhos da MTV, vocês até tocaram “Time Is Running Out”, do Muse.
Lucas Silveira: É, justamente por ser uma banda de rock, que abusa de teclado e eletrônico sem ser electropop. A imagem principal é a de um cara tocando guitarra, entendeu? E que sabe fazer músicas pesadas e muito leves sendo a mesma banda. Uma essência muito grande também é o Keane, também por causa da melancolia das músicas, das baladas e das texturas do teclado. E, claro, Queen, que era uma banda rock quando queria ser rock e pop quando queria ser pop. 

Vavo Mantovani: São as outras músicas que dão o contraponto do disco e fazem as músicas pesadas parecerem realmente pesadas.


iGirl: A crítica falou muito bem de “Revanche”. Como vocês estão lidando com isso?

Lucas Silveira: Noooossa! Bem, muito bem. É novidade.

Rodrigo Tavares: Acho que pela primeira vez a crítica acertou, né? [risos]

Lucas Silveira: Mas realmente é um disco melhor.

Bell Ruschel: E a gente teve humildade para saber disso.

Lucas Silveira: Não vou discordar do cara, que diz: “As pessoas tocam guitarra, são tatuadas e eu não escuto guitarra direito nesse disco!”. A gente errou muito e acho que deu para consertar em “Revanche”.

Rodrigo Tavares: Há alguns anos, era normal ouvir Fresno e falar mal, porque era convencionado que as bandas novas não eram boas. Falarem bem em 2010 é uma revanche.

"Era normal falar mal de Fresno pelo preconceito de ser uma banda nova"


iGirl: Falando em bandas novas, o que vocês acham dessa onda de happy rock?

Rodrigo Tavares: Os caras têm 17 anos e fazem um som condizente a pessoas de 17 anos.

Vavo Mantovani: Na verdade, se incomoda é quem está perdendo público para eles. E ninguém está perdendo nada. Ninguém vai falar “Eu gostava de Fresno, agora eu não gosto mais porque vou escutar Restart ou Replace”.

Rodrigo Tavares: Eu acharia ruim se eles tivessem 30 anos, cheios de barba e estivessem fazendo esse som. Mas não, eles estão sendo honestos. Não sou fã, mas eu acredito neles.

Rodrigo Tavares: É que nem ficar bravo com a Ivete. Você pode não gostar, mas tem que respeitar. Essas bandas, como Restart, Cine e Replace não fazem parte da nossa cena. Nós somos mais velhos, enfim. Mas eles são humildes, fazem sucesso, não tem como ficar bravo! Eles estão lá fazendo o trabalho deles. Se a gente ficar quieto e fizer o nosso, é muito melhor do que se preocupar e agredir outras bandas. Quando você tem que fazer isso, é porque está na reta, na capa da gaita.

Lucas Silveira: Eu acho que ridículo mesmo são os rappers que resolveram cantar agora. Eles soltam uma frase e depois fazem uma melodia com teclado, entendeu? Isso, sim, é bizarro. Essa é a vitória da incompetência. Você pensa: “O que esse cara está fazendo aí? Como alguém pode gostar disso?” Isso é revoltante! São caras de fora do Brasil, ridicularizados no mundo inteiro, mas aqui todo mundo pensa: “Nossa! Sean Kingston, uaaau!” O cara não consegue cantar.

Vavo Mantovani: E a gente sabe que não é uma banda pré-montada porque tinha um fulaninho bonitinho que chamou os amigos. Se eles fizeram sucesso muito rápido, que bom para eles! Ou que ruim para eles, futuramente.


iGirl: Vocês são superligados ao Twitter. Como essa ferramenta ajuda no trabalho de vocês?
Bell Ruschel: É um termômetro para ver o que eles acham da sua música, ver o que eles querem e pedir opinião para eles.

Rodrigo Tavares: Antes tinha o Fotolog, o NetLog, o PureVolume...

Vavo Mantovani: É claro que a Fresno tem o site oficial e o MySpace, mas o Fotolog foi o nosso principal canal. Agora o Twitter ultrapassou o Fotolog, mas um monte de fã ainda entra. A gente entra lá todos os dias para colocar fotos e falar para a galera o que a banda anda fazendo.

Lucas Silveira: O Twitter é bom porque você recebe todas as informações de quem você quer. É tipo um RSS, que você assina e as manchetes aparecem na sua área de trabalho.

Vavo Mantovani: Mas se as pessoas não aprenderem a se controlar no Twitter, ele vai perder completamente a função dele. Mas é ótima para divulgação.

Lucas Silveira: Já perdeu. As pessoas tratam muito o Twitter como um site de relacionamentos. Você quer seguir muitas pessoas e ser seguido por outros. Não é isso, é estar interessado no que a outra pessoa vai dizer. Eu acredito que os 170 mil seguidores da Fresno querem saber o que a gente tem para falar. Mas tem muitos fãs que falam “Lucas, me segue, por favor?”. E tem esse problema de acharem que é uma ferramenta de relacionamentos. 





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