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30/04 - 18:42hs

O despertar de Malu Rodrigues
Aos 16 anos, ela tem vozeirão de gente grande – e faz cenas ousadas como protagonista do musical “O Despertar da Primavera”

Larissa Drumond, iG São Paulo

O pai trabalha no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e a mãe tem um restaurante. Ninguém, exceto o tio que mora em Nova York, pressionou ou influenciou sua carreira artística. Tudo aconteceu por acaso.
 
Aos dois anos, por ser uma criança bem bonitinha, Maria Luísa Rodrigues foi selecionada para participar de um especial da Xuxa. A partir daí, interpretou a personagem de Fernanda Lima mais jovem em “Didi Quer Ser Criança”, fez figuração em “Xuxa e os Duendes” e brilhou nos curtas “Atrás dos Olhos de Ressaca” e “Farol de Santo Agostinho”. Nos palcos, substituiu Bruna Marquezine na peça “Cosquinha”, de Heloísa Perissé e Ingrid Guimarães. Novelas e minisséries também recheiam seu currículo. Seus olhos azuis e sotaque carioca bem arrastado já apareceram em “Pé na Jaca”, “Três Irmãs”, “JK” e “O Pequeno Alquimista”.

Wendla, de “O Despertar da Primavera”, é sua primeira protagonista, mas sua voz ecoou em outros musicais, como “Sete”, “A Noviça Rebelde”, “Contos e Cantigas Populares” e “Arca de Noé”. A atriz tentou escapar do dilúvio quando tinha oito anos no Teatro Villa-Lobos, mesmo lugar onde o “Despertar” estava em cartaz no Rio. Por falta de patrocínio, a última apresentação – imperdível! – na capital paulista é neste domingo (2).

iG Jovem: Como você descobriu que sabia cantar?
Malu Rodrigues: Quando eu tinha oito anos, queria participar de um concurso do programa “Gente Inocente”, da Globo, lembra? [risos] E eu teria que saber atuar, dançar e cantar. Eu já dançava, porque eu fiz balé durante oito anos, no Municipal, aqui no Rio. Quando chegou a hora de cantar, pensei: “E agora? Ferrou!” Nunca tinha cantado na vida e era supertímida. Comecei a fazer curso e, depois de quatro aulas, já consegui gravar uma música, que ficou muito afinada por sinal. Eu nem acreditei! Eu ia para a Tijuca toda sexta-feira e pagava 600 reais por mês para ter aulas de canto.

Na peça, com Débora Olivieri: a voz de Malu impressiona!

iG Jovem: Seiscentos?!

Malu Rodrigues: É, é muito caro ter aulas de canto! Uma só custa 150 reais. Alguns professores cobram menos, mas o preço costuma ser alto mesmo. Eu fui crescendo e mudei de professores, para outros melhores – com técnica mais aperfeiçoada para musical, não tanto para canto popular. Já estou na minha quinta professora, a Ester Elias, e não quero largar dela nunca mais.


iG Jovem: Como você costuma preparar sua voz?

Malu Rodrigues: O Danilo Timm, que faz parte do nosso elenco, aquece nossa voz 15 minutos antes da peça. Aliás, eu também estou tendo aulas com ele agora, porque eu fiquei um tempão sem. Ele também é incrível e mais barato [risos].

iG Jovem: Mas não tem nenhum segredinho?
Malu Rodrigues: Como eu tenho 16 anos e sou menor de idade, eu nem posso ir para a balada. Mas eu nunca fui muito de sair. Quando termina o espetáculo, em vez de ir para a festa com meus amigos, eu peço desculpas e vou para casa dormir. Eu realmente tenho que dormir, porque uma boa noite de sono é essencial para cantar bem. Fora que, na balada, as pessoas fumam, eu acabo respirando aquela fumaça e sou alérgica. E como a música é alta, eu tenho que gritar para conseguir me comunicar. Também procuro não tomar nada gelado, ainda mais porque eu vivo com a garganta inflamada. Ah, e evito comer chocolate porque é derivado do leite, que dá muco na garganta e atrapalha a cantar. Só isso, nada de mais.

iG Jovem: Como surgiu o convite para fazer “O Despertar da Primavera”?
Malu Rodrigues: Meu tio, que mora em Nova York, me deu o CD. Disse que estava fazendo sucesso entre os adolescentes nos EUA e que alguém estava querendo comprar os direitos no Brasil. Eu me apaixonei completamente, porque as músicas são lindas. Quando eu ainda fazia “Noviça”, perguntei para o Charles [Moëller, o diretor] se ele conhecia e comentei que alguém no Brasil queria comprar os direitos. Ele disse: “Que coincidência! Porque sou eu!” [risos] A partir daí, comecei a estudar, procurei partitura, vi vídeos na internet, comprei um livro com todo o texto da peça em inglês já adaptado para o musical. Enfim, foram oito meses respirando o “Despertar”.

"Foi até tranquilo", diz Malu, sobre a cena em que mostra os seios

iG Jovem: Como foram os testes?
Malu Rodrigues: Primeiro, teve a audição aberta para as pessoas que se inscreveram. Eu participei da audição fechada. No fim, eles juntaram a peneira dos dois testes. Na última fase, nós fizemos o solo de algumas músicas, cantamos em coro e encenamos. Quando eu pedi para fazer o teste da personagem Wendla, o Charles hesitou porque eu sou muito nova, mas pedi para que ele não descartasse essa opção. Ele amou, mas deu problema com os americanos, que me acharam jovem demais. Foi uma guerrinha. Eles conversaram, fiz o teste de novo, passei e foi maravilhoso!


iG Jovem: Vocês ensaiaram por quanto tempo?

Malu Rodrigues: A gente ensaiou durante dois meses. Foram oito semanas e sete horas por dia. Era muito intenso, mas foi incrível!

iG Jovem: Você se intimidou ao saber que a Wendla mostraria os seios?
Malu Rodrigues: Quando eu vi a cena da música “Mama”, eu decidi que queria ser aquela menina, independentemente de ser a protagonista. Depois, eu percebi que a personagem que cantava “Mama” era a mesma que mostrava os seios. Na hora, eu pensei: “Caraca, ferrou!” Mas não por mim, pelo meu pai mesmo. Eu demorei uma semana mais ou menos para mostrar o vídeo e, surpreendentemente, ele disse que não tinha problema nenhum. É uma cena linda e muito poética. Quando me falaram que eu seria mesmo a Wendla, eu já sabia que teria que mostrar meus seios, então foi até tranquilo. Não foi uma surpresa, já estava previsto.

iG Jovem: Você achou difícil fazer a cena? Teve alguma preparação especial?
Malu Rodrigues: Na verdade, não. Foi tão legal e o processo foi tão intenso que eu acabei criando uma intimidade. O diretor disse: “Amanhã a gente vai marcar a cena de sexo, vem com um vestido de botão que abra na frente e um top por baixo”. Ok! Tudo era muito coreografadinho e hoje a gente faz coisas que o Charles não marcou. Dizem que é a cena mais bonita do espetáculo. Eu mesma nunca vi, vou pedir para alguém filmar escondido [risos]. A maior parte da cena são as respirações e a coreografia das mãos e do beijo. Com a intimidade que eu e o Pierre [Baitelli, que interpreta Melchior Gabor] adquirimos, ele perguntou para mim: “Malu, preciso falar uma coisa. Então... Posso chupar seu peito?” Foi muito engraçado! Aí ele disse: “Olha só: um menino de 14 anos, que fica sonhando com as mulheres, não vai abrir o seu vestido e só olhar. Fala sério! Ele vai pegar pelo menos!” Para o público, parece que ele chupa mesmo, mas ele coloca a mão na frente. É mentira! [risos] Com o tempo, os movimentos ficaram mais relaxados.

iG Jovem: Qual é a música do “Despertar” que você mais gosta de cantar?
Malu Rodrigues: Em português, é “Whispering’, aquela que eu canto com uma camisola branca. Até pela versão em português, que ficou dez vezes melhor que a em inglês. A minha segunda é “Mama”, sem dúvida.

Veja abaixo trechos da peça:


iG Jovem: Aconteceu algum caso engraçado em cena?

Malu Rodrigues: Com certeza! Tem gente que esquece o texto, que esquece a letra e canta outra coisa, fica fazendo palhaçada. Tem uma hora em que o padre grita, no começo do segundo ato, e o Pierre sempre leva um susto! [risos] São pequenas histórias.

iG Jovem: Você já esqueceu a letra?
Malu Rodrigues: Eu já esqueci a letra de “Mama”, por incrível que pareça. E eu lembrei dois segundos antes. Foi assustador, dá uma sensação muito estranha. Um frio na barriga que gela por dentro até. Falas eu ainda não esqueci, ainda bem!

iG Jovem: Como é a sua relação com os outros atores? Vocês são amigos?
Malu Rodrigues: Eu nunca vi um elenco tão unido em toda a minha vida. Porque sempre tem aquela pessoa mais chata, que você olha e pensa: “Ai, que saco!” ou aquele fofoqueiro. No elenco, não. Todo mundo fala abertamente, a gente zoa na cara mesmo. A gente virou uma família e esse é o diferencial do “Despertar”. 

iG Jovem: Na peça, a Wendla não sabe o que é sexo e nem imagina como os bebês são feitos. Seus pais sempre conversaram abertamente com você?
Malu Rodrigues: Essa questão da peça até ajudou, porque eu sou criada pelo meu pai e por minha avó desde pequena. Meus pais se separaram há pouco tempo, mas nunca moraram juntos. Ele sempre morou no Rio e ela, mais perto de São Paulo. Ninguém nunca me escondeu nada. Hoje em dia é muito mais fácil: tem a escola, as amigas, a internet, a televisão, tudo! Agora é muito mais fácil falar para o meu pai que eu estou namorando do que antes.

iG Jovem: Seus amigos e professores já viram você em cena?
Malu Rodrigues: Só o professor de Biologia, porque ele sempre duvidou da minha vocação. Ele falava que eu preciso aprender física e matemática no caso de eu não querer mais ser atriz. Então, eu comprei o ingresso e fiz com que ele assistisse. Ele saiu de lá fascinado e deu o braço a torcer. Meus amigos já viram “Despertar” mais de 30 vezes.

iG Jovem: Como você conseguiu conciliar os estudos e os ensaios? Ainda mais agora que a peça está em São Paulo!
Malu Rodrigues: Então, no ano passado foi meio loucura, porque os ensaios começaram quando eu estava de férias. Quando as aulas voltaram, eu não queria saber de escola, só de fazer o “Despertar”. No fim do ano, eu tive que ralar muito para não repetir o ano! [risos] Foi de arrancar os cabelos, chorar e encher o saco do meu pai. Ele falava: “Calma, não tem problema se você repetir!” Mas eu não queria, claro! Meu pai sempre me apoiou e eu ficava mais nervosa que ele. Agora está mais tranquilo. Eu vou para São Paulo na sexta-feira, depois da aula, e volto para o Rio no domingo à noite. Eu estudo durante a semana ou levo meus livros para estudar no fim de semana.

iG Jovem: Você pretende fazer faculdade?
Malu Rodrigues: Até pouco tempo atrás, eu queria fazer Artes Cênicas. Mas pensei bem e achei melhor não fazer faculdade de algo que eu vou aprender na prática. Prefiro fazer cursos em Nova York. E a faculdade que eu queria não existe aqui: a de teatro musical. Só tem lá fora, na Juliet School, mas eu não tenho dinheiro para pagar.

iG Jovem: O que você acha desse movimento na internet pedindo para o musical continuar?
Malu Rodrigues: Eu acho lindo! Eu já chorei demais lendo os depoimentos e os comentários de que não pode acabar. É incrível ver o carinho das pessoas. Eu queria muito que não acabasse, mas a gente perdeu o patrocínio da peça depois que viemos para São Paulo. Até hoje esse problema não mudou!

iG Jovem: Qual musical você gostaria muito de fazer? Já tem algum em mente?
Malu Rodrigues: "Hair"! É o próximo do Charles Moëller e do Claudio Botelho. Eu quero muito fazer, mas vamos ver se eles vão me chamar para o teste, né?

iG Jovem: Quais são seus próximos projetos?
Malu Rodrigues: Agora eu estou pensando em “Hair”, porque quero estar bem preparada se fizer o teste. Também quero malhar, cuidar da minha saúde e do meu corpo, porque eu estou bem gordinha. Vou continuar estudando bastante para não fazer feio. E agora o que vier, vou deixar rolar!

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