Guilherme Tâmega: “Atleta de ponta é uma das maiores riquezas de um país”

Hexacampeão mundial de bodyboard, carioca fala sobre incentivo ao esporte e continuar competindo aos 39 anos de idade

Bruno Capelas , iG São Paulo |

Andrew Rams
Aos 39 anos, Guilherme Tâmega, hexacampeão mundial de bodyboard, continua na elite do esporte

Guilherme Tâmega é um veterano do esporte, mas não pensa em parar tão cedo - e não parece ter motivos para isso. Aos 39 anos, o bodyboarder hexacampeão mundial pode não estar “cem por cento” mas continua competindo em alto nível. Na última etapa do Circuito Mundial de Bodyboard , disputada em Arica , no Chile, Tâmega perdeu a final para o australiano Dave Winchester quando faltavam apenas 30 segundos para o término da bateria.

“Saí frustrado do Chile, tiraram o gostinho de vitória da minha boca”, conta o atleta em entrevista ao iG . “Vou com 150% da vontade que eu tenho para Itacoatiara ”, diz o carioca, referindo-se à próxima etapa do Mundial, que acontece na cidade de Niterói , no Rio de Janeiro, a partir desta quinta-feira (7). “Jogar em casa é melhor do que jogar em qualquer outro lugar no mundo”, comenta.

Divulgação
Além de competir, Guilherme tem um projeto social no Rio de Janeiro, que dá aulas de bodyboard a 50 crianças carentes

Desde que Tâmega começou a praticar o bodyboard até hoje se foram mais de 25 anos. “Era uma brincadeira que depois virou uma coisa seríssima”. Quando questionado sobre seu segredo para continuar competindo, o bodyboarder cita outra lenda do esporte, Mike Stewart , o maior campeão mundial da história do esporte.

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Aos 49 anos, Stewart continua competindo em alto nível. “Não vou entregar os pontos se tem um cara com dez anos a mais que eu competindo bem por aí”, explica o brasileiro.

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Na entrevista a seguir, Guilherme Tâmega fala sobre sua campanha até agora no Circuito Mundial de Bodyboard e sobre suas expectativas para a próxima etapa. Além disso, ele faz críticas ao incentivo ao esporte no país, e diz que quer morar nos Estados Unidos até morrer. “O Brasil é o país mais bonito do mundo, mas, infelizmente, eu prefiro morar em um lugar onde as coisas funcionem”, explica o hexacampeão.

iG: Quais são as suas expectativas pro torneio agora no Rio?
Guilherme Tâmega : São altíssimas, como acontece em qualquer evento internacional que rola no Brasil. É melhor jogar em casa do que em qualquer outro lugar no mundo, então você tem que aproveitar essa força local. Quanto mais perto de casa, melhor. Seria ideal se fosse no Posto 5, em Copacabana, onde eu cresci, mas o pico de lá não é tão bom. Niterói está bem perto de casa, está de ótimo tamanho para mim, é a melhor praia do Brasil.

iG: Como você começou no bodyboard?
Guilherme Tâmega: Comecei em Copacabana, em abril de 1985. Eu surfava de peito, e peguei aquela febre da Malibu [marca de prancha], que era como todo mundo chamava o bodyboard na época. Pedi pro meu pai me dar uma prancha dessas, pois tinha cara de ser divertido demais. Não deu outra. Na hora que eu provei, não larguei mais a brincadeira, que depois virou uma coisa seríssima.

IBA/Specker
Em 2011, Guilherme levou o título da etapa de Arica, no Chile, mas em 2012 a vitória escapou de suas mãos a 30 segundos do final

iG: Você já chegou a parar de competir por causa da falta de patrocínios. Como está quanto a isso hoje?
Guilherme Tâmega: São quase 25 anos de carreira, tive vários altos e baixos. Várias vezes eu tive vontade de largar tudo para o alto, mas o que me segurou foi o apoio da minha família. Acho que Deus me deu uma coisa especial, não quero me desfazer dela tão cedo. Tenho que aproveitar isso ao máximo, até a última gota. Além disso, independente de patrocínio ou não, nunca ganhei ou fui campeão para ter dinheiro. Sempre quis competir por vontade própria, para mostrar para os gringos que tem alguém aqui. Meu nome é Guilherme Tâmega e eu sou brasileiro. Eles são muito restritos, e quanto mais restrições eles impunham, mais raiva e gana de vencer eu tinha. Para ter espaço lá fora, não basta ser campeão mundial. Tem que ter algo mais. Só acho uma pena que nunca tive um patrocínio brasileiro forte, apesar de todo o trabalho que eu fiz pelo Brasil. Já dei muita alegria para o país, represento o Brasil como poucas pessoas. Mas isso nunca me abalou. Quem caiu no chão, já está sujo, né?

iG:Você acha que falta incentivo ao bodyboard no Brasil?
Guilherme Tâmega: Qualquer atleta de ponta que faz um trabalho bonito com a bandeira do Brasil tem de ser olhado e valorizado, tanto pelas empresas privadas quanto pelo governo. Acho que muitos talentos de vários esportes desistem por nunca ter tido apoio. Um atleta de ponta é uma das maiores riquezas de um país - e isso é um pouco desvalorizado por aqui.

iG: Hoje você mora nos Estados Unidos. Por que essa escolha?
Guilherme Tâmega: Moro no Havaí, amo a praia de Pipeline e a onda havaiana. É lá que eu quero ficar e criar os meus filhos e viver o resto da minha vida. O Rio de Janeiro é a cidade mais maravilhosa do mundo, e o Brasil é um país que tem uma beleza natural incomparável. Infelizmente, tem coisas na gestão desse país que não me agradam nem um pouco, então prefiro morar em um lugar que funcione.

Andrew Rams
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iG: Como funciona seu projeto com crianças carentes no Rio?
Guilherme Tâmega: É um projeto para as crianças que moram nos morros próximos ao Posto 5 de Copacabana, como o Pavão, o Pavãozinho e o Cantagalo. Já montamos a escolinha há mais de cinco anos, e está indo de vento em popa. Esporte é uma coisa importante na vida das crianças, ainda mais nas do morro, que tem que estar ocupadas o tempo todo com coisas boas. Temos uma ajuda do governo estadual do Rio de Janeiro para dar continuidade ao projeto. Sem eles, ia ser realmente difícil de levar a coisa adiante. É uma iniciativa importante que tem que ser valorizada.

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iG: Ainda existe um preconceito da galera do surfe em relação ao bodyboard?
Guilherme Tâmega: Rola, mas isso é normal. Nós dividimos o mesmo espaço! A onda que eles querem, nós também queremos. Esse tipo de intriga rola em vários esportes. Snowboard e esqui é a mesma coisa. Mas eu nunca tive problema, sempre fui respeitado pelos surfistas e vice-versa. Se você divide o mesmo espaço, a coisa sempre pode desandar um pouco, mas tudo acaba em final feliz. Tem onda para todo mundo, e se todo mundo pega um tubo e vai para casa de bem com a vida, é isso que importa.

iG: Quais são os teus segredos para continuar competindo aos 40 anos de idade?
Guilherme Tâmega: Nem eu sei. Não é tão fácil, não sou mais o cara cem por cento que eu era antigamente. Quero voltar a ser o Guilherme Tâmega de antes, com toda a garra e técnica. Acho que o motivo maior para continuar competindo é a presença do Mike Stewart, que é uma lenda do esporte. Ele acabou de fazer 49 anos e continua competindo com uma garra que é de se tirar o chapéu. Ele sempre foi o meu maior rival, sempre me motivei a vencê-lo. Vendo-o com toda essa vontade, não vou entregar os pontos se tem um cara com dez anos a mais que eu competindo.

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