Danilo Couto: “Eu estaria pegando as mesmas ondas se não tivesse salário”

Ganhador do “Oscar das ondas gigantes”, surfista baiano fala ao iG sobre política no esporte, sua vida no Havaí e o futuro do surfe no Brasil

Gustavo Abreu, iG São Paulo |

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Danilo ganhou no último ano o Billabong XXL Global Big Wave Awards, considerado o Oscar das ondas grandes

Se Anderson Silva representa o país nos ringues de MMA e Neymar nos campos de futebol, no surfe também tem um brasileiro fazendo história. Danilo Couto se tornou recentemente o melhor surfista de ongas grandes, levando pra casa o Billabong XXL Global Big Wave Awards, considerado o Oscar da categoria. Agora, o baiano de 37 anos se prepara para a primeira etapa do Circuito Mundial de Ondas Grandes, que acontece no Chile a partir do dia 1º de maio.

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O baiano de 37 anos mora com a família na ilha de Oahu, no Havaí
Criado em Salvador, Danilo surfa desde os dez anos de idade, tendo competido em nível regional, mas conta que não se profissionalizou cedo por causa do pai e da mãe, que lhe exigiam dedicação aos estudos. “Lembro que eu cheguei a pedir para mudar de escola, ir para uma mais fraca, mas eles não deixavam”, se recorda o atleta.

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Mas mesmo com a negativa, os pais não tiveram como controlar sua paixão pelos mares. Durante um intercâmbio nos Estados Unidos, onde ele tinha apenas o intuito de aperfeiçoar o inglês, Danilo acabou se vendo obrigado a largar a faculdade de Economia para ficar próximo das ondas, no Havaí. A aventura universitária deu tão certo que hoje ele já está no país há quinze anos, onde vive com a mulher e dois filhos.

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Durante uma passagem pelo Brasil para tratar de compromissos profissionais, na última semana, o surfista falou ao iG numa manhã ensolarada quando ele, na verdade, “preferia estar na praia”. No lugar disso, Danilo teve que ficar debaixo do ar condicionado da agência 9ine, do ex-jogador Ronaldo, falando sobre política no esporte, dinheiro e sua vida na ilha paradisíaca de Oahu, entre um café e outro. Leia:

iG: Como, quando e por que você foi parar no Havaí?
Danilo Couto:
Fui lá para passar seis meses. Eu morava em Salvador, fazia faculdade de Economia e tranquei para viajar e estudar inglês. Quando cheguei, comecei a trabalhar com carpintaria, restaurante, faxina, tudo para manter o surfe, claro. Era uma época boa. Não tinha crise, se ganhava bem, e tinha muita oferta de emprego. Fui trabalhando, surfando e resolvi ficar.

iG: Quando o surfe virou sua profissão?
Danilo Couto:
Dois anos depois de chegar ao Havaí, já tinha retomado a faculdade lá mesmo, e senti que queria me dedicar mais ao surfe, porque teria espaço. Eu circulava entre os profissionais e vários ídolos. Quando o mar subia, eles não se sentiam a vontade mas eu sim. Ali percebi que existia espaço pra minha carreira. Em 1999, o dólar dobrou e convenci meus pais a trancar a faculdade. Na mesma época, conheci um empresário de Salvador que me contratou pra ser “free surfer”, que é surfar levando a marca deles.

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[O Havaí] é o melhor lugar do mundo pra pegar ondas grandes, constantes por oito meses durante o ano.

iG: E como é sua vida hoje?
Danilo Couto:
Moro ao norte da ilha de Oahu. É o melhor lugar do mundo pra pegar ondas grandes, constantes por oito meses durante o ano. Quando vem o verão, entre maio e julho, diminui e é essa a época que eu viajo para outros lugares. Escolhi morar lá por motivos lógicos. Sou casado, tenho dois filhos e tenho uma vida tranquila. O caçula tem três meses e já gostou de subir na prancha. A mais velha também já é do mar.

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iG: Como você percebeu que as ondas gigantes eram a sua pegada?
Danilo Couto:
Não sabia que encontraria aquilo no Havaí, porque aqui não tem muita, só nos dias de ressaca. Cheguei lá no ápice da temporada havaiana e já peguei ondas maiores. Lá tem um cardápio completo de ondas e eu percebi rápido que gostava quando elas subiam. Tem menos gente na água, é bem mais divertido. Em um ano ainda era amador mas já estava à vontade.

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Danilo Couto recebendo o prêmio da Billabong, no ano passado
iG: O que passa pela tua cabeça quando está esperando o mar subir?
Danilo Couto:
Não vem muita coisa não, apenas a missão de fazer a onda com sucesso e não cair. Quando o momento chega, vem a concentração para fazer tudo o que treino. Tem muita atenção, técnica, posicionamento, porque as consequências podem ser fatais. Tem que ter muita calma, manter o sangue frio. O medo quer vir, existe competitividade, mas tudo fica de lado. Me conecto com o mar e tudo dá certo.

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iG: Já se machucou?
Danilo Couto:
Algumas vezes, mas nada muito grave. Ombro, joelho, já abri o peito do pé, alguns tendões. Tomei pancada da prancha e alguns caldos de quase apagar. Mas nada muito grave.

iG: Qual momento da sua carreira você mais se orgulha?
Danilo Couto:
Tem uma pipeline muito especial, foi um dos maiores tubos já surfados. Quem se dedica sempre lembra dela. Mas sem dúvida foi em maio do ano passado, a onda que me rendeu o Billabong XXL, que é o Oscar das ondas grandes. É um prêmio muito grandioso no meio. Levantei a bandeira do Brasil e fui muito aplaudido. É o momento de que mais tenho orgulho.

iG: Qual a imagem que brasileiro tem lá fora?
Danilo Couto:
Vem mudando bastante. Tem um pouco de preconceito, primeiro porque todas as potencias falam inglês e nós somos latinos, temos um comportamento diferente. Os brasileiros se expressam mais, falam mais alto, andam em grupo, mas parte disso é para facilitar as viagens, as despesas. Mas a nova geração vem muito mais polida. As marcas preparam os caras mais cedo e eles chegam aos 16 com estrutura e falando inglês fluente Com a economia brasileira crescendo, os brasileiros estão em sua melhor fase. O preconceito diminuiu muito e é um momento único para o surfe brasileiro.

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iG: Existe muita política no surfe?
Danilo Couto:
Com certeza. Funciona igual a qualquer esporte. Tem disputa para estar em destaque nas categorias. Existem federações, associações, países. O surfe virou um esporte profissional e está em outro patamar que nunca esteve. Paralelo a isso vem os interesses, ainda mais quando o cifrão aumenta. É natural, mas comparado a outros esportes é muito menor, até pelo estilo de vida do surfe. É desencanado e dá mais valor a outras coisas que não a fortuna.

iG: Você já sofreu com isso?
Danilo Couto:
Sofrer nunca sofri muito não (risos), mas já fui prejudicado. Pra falar a verdade, geralmente tento não me envolver. Quando percebo a situação, não deixo que aquilo seja uma coisa primordial na minha vida. Eu sigo em frente e, pra falar a verdade, muitas vezes me fortaleceu. Qualquer carreira em ascensão incomoda e muita gente não quer te ver bem. Eu sempre foquei nas pessoas que estão do meu lado. Tem sempre uma nova geração que não aceita, mas eu nunca faria isso com os caras que estao chegando.

iG: O que fala mais alto: a onda ou a grana?
Danilo Couto:
A onda com certeza. Eu estaria pegando as mesmas ondas se não tivesse salário. Estaria no Havaí, trabalhando com outras coisas, mas na espera das ondas grandes, assim como tenho vários amigos que fazem isso. Se fosse pela grana, estaria fazendo outra coisa. Eu surfo pela satisfação pessoal de fazer o que eu amo. Quero ficar velho me sentindo saudável e mais forte. É por isso que eu amo esse esporte.

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O surfe cresceu e o Brasil hoje é uma das maiores potências
iG: É fácil viver do surfe?
Danilo Couto:
Se você levar a sério e ter a atitude correta sim. Existem muitos moleques no Brasil inteiro, de origem humilde, que sustentam a família e construíram a própria casa. O surfe cresceu e o Brasil hoje é uma das maiores potências, com líderes em todas as categorias, desde base até as profissionais.

iG: O que falta para os surfe brasileiro chegar ao patamar de esportes como futebol ou vôlei?
Danilo Couto:
É difícil esperar qualquer coisa do governo, mas o Brasil tem potencial e seria bom ter mais incentivo. As coisas estão melhorando, as empresas investem cada vez mais e sabem do valor que o esporte tem para os jovens. Por outro lado o surfe tem sua própria vida, seus atletas, mas qualquer apoio é bem vindo.

iG: Qual a diferença desta geração pra sua?
Danilo Couto:
Muitos deles são filhos de atletas e o surfe vem do berço. Eles comeram o pão e o leite do dinheiro que veio do surfe, então está no DNA. Também existe a mentalidade, que mudou e está anos na frente. A minha geração passou por reprovação, somos guerreiros. A vontade de desistir existiu ainda mais porque não tinha patrocínio e, com a crise, os caras tiravam sua grana. Mas vimos o surfe mudar. Eu surfo desde 1985, então vivi muita coisa. A geração nova sabe da nossa história e dá muito mais valor.

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