Tatá Werneck: "O limite do humor é o bom senso"

A atriz do "Quinta Categoria" e do "Comédia", da MTV, conversa com o iG Jovem sobre as mulheres na comédia e o humor ofensivo

Nathalia Ilovatte, iG São Paulo |

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Tatá nos palcos: "Sempre soube que eu só seria feliz se trabalhasse com humor"

Em grupos de comediantes compostos majoritariamente por homens, a carioca Tata Werneck, de 28 anos, ganha destaque por ser uma mulher que faz comédia sem apelar para o estereótipo clichê de garota nada inteligente que só fala bobagens. Os personagens de Tata Werneck tiram sarro de personalidades da televisão, sitcoms americanos, psicólogos e até de alguns padrões femininos.

Na MTV com os programas “Quinta Categoria” e “Comédia”, e no teatro com o grupo “DEZnecessários”, a atriz mostra que sabe fazer rir sem ofender e conversa com o iG Jovem sobre os limites do humor, o personagem favorito e o clima na MTV após um corte de gastos.

iG: Você sempre soube que trabalharia com humor?
Tatá Werneck:
Eu sempre soube que eu só seria feliz se trabalhasse com humor, porque o que sempre me deu prazer na vida foi fazer as pessoas rirem. Eu fui expulsa de quase todas as escolas em que eu estudei e das conduções porque eu só queria fazer palhaçada, não levava nada a sério. Eu ia às vezes de vestido de noiva pra aula. Uma vez, a gente tinha que fazer a foto oficial da turma e todo mundo falou que ia de pijama, mas ninguém teve coragem, aí fui eu de pijama. E eu era contra o diretor da escola e era representante de turma, então colhi várias assinaturas para o diretor ser expulso e levei a ele, para ele se retirar, e aí eu fui suspensa.

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"Eu fui expulsa de quase todas as escolas em que eu estudei", conta
iG: Sentiu pressão dos pais quando escolheu essa carreira?
Tatá Werneck:
Eu não vou falar isso porque depois minha mãe lê e fala ‘eeeeeu?’, mas não só dos pais, até eu entrar para a MTV as pessoas perguntavam ‘o que você faz?’, eu respondia que sou atriz e elas ‘ah... tá...’. Nunca entendiam. Eu namorava um engenheiro do mercado financeiro, então os amigos dele me consideravam um nada, porque falavam ‘nossa, ela faz teatro’. E agora todo muito ‘ai, que maneiro!’. E as pessoas que fazem teatro trabalham tanto!

iG: Você teve que adaptar alguma coisa no modo como você trabalha quando foi para a televisão?
Tatá Werneck:
No “Quinta Categoria” era difícil porque a gente fazia teatro para a televisão. Eu fazia só para quem estava ali mesmo, eu queria divertir aquelas pessoas, então é difícil porque às vezes você faz coisas muito desnecessárias. E às vezes eu só olhava para a câmera e fazia uma coisinha que lá não funcionava, mas em casa funcionava. E pra fazer esquete de humor eu acho que tive que mudar muito, porque eu sempre fui muito careteira, então eu tive que entender qual é o limite. E até hoje eu não sei, fico ‘ai, meu Deus, será que tá certo?’.


iG: Tem uma personagem com quem você se identifica mais ou gosta mais de fazer?
Tatá Werneck:
A que eu mais amo é a Fernandona, porque ela, para mim, tem alma. Eu até sinto, às vezes, e falo ‘ih, gente, hoje a Fernandona não tá vindo’. Ela pra mim tem vida própria, vejo como uma grande amiga, uma outra pessoa.

iG: Por que as mulheres são minoria no humor?
Tatá Werneck:
Tem muitas mulheres boas que ainda não tiveram oportunidade. Conheço uma atriz que faz comédia como ninguém chamada Patrícia Pinho, e as pessoas não conhecem o lado comediante dela. Agora está mais fácil chegar à televisão, porque antes você tinha que fazer um teste, conhecer alguém ou fazer uma peça de muito sucesso e um produtor ver, e agora você pega seu material, põe no YouTube, vai para um bar e as pessoas vão sabendo que você existe. E também tem aquele velho papo de que as mulheres sempre foram muito moldadas pela sociedade e cobradas a não falarem palavrão, serem menininhas. As mulheres que fugiram a esse padrão sempre foram muito criticadas.

iG: Você sofreu com isso?
Tatá Werneck:
Sempre fui muito julgada porque eu queria falar merda e não queria ficar seguindo os padrões das minhas amigas que são lindas e riem com um guardanapo na boca, sabe? Eu sempre quis fazer coisas diferentes. A Dani Calabresa, que é maravilhosa, também sempre foi muito julgada. Então a gente meio que venceu umas barreiras e eu lembro que sofri muito, porque as pessoas falavam ‘ai, uma menina fazendo isso...’, e eu pensava ‘nossa, é um ser humano fazendo isso, o que tem de errado?’. Eu sou mais uma profissional de humor, eu sonho com o dia em que não vai ter essa cota, tipo “mulheres no humor”.

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"Eu nunca quis conquistar ninguém", diz Tatá, criticando a competitividade feminina
iG: Você tem que se impor mais por causa disso?
Tatá Werneck:
Eu sempre trabalhei em grupos só com homens e eu sempre adorei, justamente porque eu me impunha não como a mulher do grupo, mas como mais uma integrante. Eu já trabalhei em um emprego só de mulheres, eu fazia teatro, estava muito ferrada, muito sem dinheiro e trabalhava na Mary Kay, vendendo cosméticos de porta em porta. Era uma empresa só de mulheres e eu achava ‘po, que legal, a gente vai se dar super bem’, mas nossa, era uma confusão! Acho que as mulheres estabelecem umas paradas que homem não estabelece. Eles são muito mais tranquilões, e mulher tem umas coisas de vaidade que eu nunca tive, sabe, eu tô cagando.

iG: Mulher é muito competitiva?
Tatá Werneck:
Mulher tem uma coisa, às vezes, nem sempre, de estar em um grupo, ter um homem, e querer conquistá-lo. Mas eu nunca quis conquistar ninguém.

iG: Alguns comediantes brasileiros, como Rafinha Bastos, têm que prestar depoimento por causa de uma piada. Você acha que o brasileiro é conservador em relação ao humor?
Tatá Werneck:
Eu acho que o ser humano é conservador. Aos poucos os países vão mudando as coisas para entender que a gente é livre e tem que ser livre. Se o Rafinha fizer um movimento contra alguma coisa e ferir o direito de alguém... Mas não, ele dá total liberdade pra um cara que é zoado fazer um vídeo e zoá-lo também. Então eu acho o Rafinha genial, um dos melhores do Brasil, admiro muito a coragem dele, porque eu tenho um humor muito ácido, brinco com coisas que já mexeram muito comigo, como a morte do meu avô, eu fui a primeira a brincar, e falaram ‘nossa, tá brincando com isso?’, e lógico, gente, tem que brincar, a gente é tão ridículo... Tem que rir de si mesmo! O ser humano se leva muito a sério, mas a gente é tão idiota, tem medo, é bobo... Tem que rir, a vida é pra isso. Se levar a vida a sério, vou estar optando por fica doente, sinceramente. A minha vida é para ser levada na brincadeira e eu espero conseguir dissolver nas pessoas esse padrão duro que faz elas sofrerem tanto. Então eu acho que a gente pode falar do que quiser. Lógico, tem que estar preparado para ouvir tudo e aceitar críticas, mas eu acho que o humor é isso, uma ferramenta que Deus nos deu para aliviar a dor ou brincar com uma situação, ou olhar de outro ângulo.

iG: Mas você acha que tem limites?
Tatá Werneck:
Eu acho que pra mim uma coisa é engraçada e pra você não. Pra mim uma torta na cara é uma das coisas mais engraçadas que tem no mundo, eu rio, ou então alguém caindo, e quando eu caio também rio muito. Mas normalmente eu permito que me zoem muito também e sou a primeira a me zoar. Então, por exemplo, o Rafinha é judeu, mas ele fala de judeu e se zoa. A gente não está numa redoma de vidro, atirando para todos os lados, mas com um escudo para se defender de quem quiser atirar na gente. Não, a gente está ‘e aí, galera, vamo atirar?’. Eu acho que o limite do humor é o bom senso, mas meu bom senso me diz que eu posso brincar com um monte de coisa. De repente o seu não.
Eu sou viciada em bichos, apaixonada por bichos, trago bichos abandonados para casa, aí um gato meu morreu, eu fiquei triste e ficaram brincando com a minha dor. Mas é um direito deles, como também é meu direito ficar chateada, não vou entrar na justiça e falar ‘ei, vocês estão falando da morte do meu gato’, sabe.

iG: Isso tem a ver também com um episódio do Danilo Gentilli, quando ele falou sobre os judeus de Higienópolis e tocou em um assunto polêmico...
Tatá Werneck:
Ah, é polêmico, mas vários assuntos são. Se a gente começar a tornar tabu todos os assuntos polêmicos, a gente não vai poder falar de nada, porque a associação das mulheres loiras com menos de 1,50m que moram em Cuba, são casadas e têm um cachorro poodle vão ficar putas porque alguém falou alguma coisa. Todas as minorias, um dia, vão se revoltar, e todo mundo é minoria em algum momento. Então acho que enquanto tem bom senso de não ser humilhante, tudo bem. Por exemplo, o “Pânico”, eu quase não vejo. Eu não estou falando mal do humor do Pânico, mas eu já vi algumas vezes, e quando você tenta entrevistar alguém humilhando, chega para um cara que não é comediante e começa a zoar, e obriga um cara que às vezes está nervoso porque vai apresentar um evento a ter senso de humor, eu acho de mau gosto. Eu não acho legal, acho que você está tirando vantagem da sua posição, de ter pensado antes em uma pergunta de sacanagem, tirar o cara da zona de conforto... Eu não acho engraçado, não tenho vontade de fazer isso. Acho que cabe a todos nós saber o que é legal e o que é ofensivo. Enquanto o objetivo for fomentar uma discussão, levantar uma crítica, eu acho válido. Quando passar a ser humilhar, ofender, eu não acho engraçado.

iG: Como está o clima na MTV depois do cancelamento do MOD e do Grampo?
Tatá Werneck:
O clima tá ótimo. A MTV é um lugar maravilhoso de trabalhar, é muito legal, as pessoas são muito unidas, é uma casa grandona com pessoas que querem fazer e acontecer. O Comédia estava fazendo o dever de casa direito e a gente já tinha gravado tudo, até o final do ano, então a gente só tirou férias merecidas. No Quinta Categoria a gente não tava tão adiantado assim e foi necessário agora, por uma mudança de planejamento da TV, fazer uma pausa para voltar ou não no ano que vem, mas eu amo o Quinta Categoria e espero que volte. Se não voltar, tenho certeza que a MTV vai trazer alguma coisa legal.

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