Fresno: “No Brasil, o rock tem que se disfarçar de pop para fazer sucesso”

Banda gaúcha abandona a gravadora, o produtor Rick Bonadio e volta a ser independente, mas pensando grande: “Não queremos esperar o rock sair da crise. Vamos enfrentá-la”

Bruno Capelas , iG São Paulo |

Bruno Zanardo/Fotoarena
"'Infinito' é um disco sobre superação - assim como nós estamos nos superando agora", conta Lucas Silveira

Arranjos de orquestra, coral infantil, músicas de sete minutos e andamentos desiguais. A banda Fresno, a qual o público está acostumada, mudou e mudou bastante. Novamente independente após o fim do contrato com a gravadora Universal Music e seu padrinho Rick Bonadio, o grupo gaúcho inicia uma nova fase com “Infinito”, seu sexto álbum de estúdio, lançado no início de novembro.

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O nome dado ao álbum não esconde as intenções ambiciosas da banda. “Queremos falar sobre os desafios que foram colocado nas nossas vidas, e que precisam ser resolvidos em algum momento”, explica o vocalista Lucas Silveira, em entrevista ao iG, em seu apartamento em São Paulo.

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"Somos amigos ainda. Ele só queria fazer os projetos dele, e nós entendemos", diz o guitarrista Vavo sobre a saída de Rodrigo Tavares

Inspirado no universo da ficção científica de filmes como “Tron” e “Prometheus”, e por uma viagem do vocalista à Bósnia, “Infinito” mostra uma Fresno ousada, procurando se distanciar da sonoridade dos hits emo “Polo” e “Alguém Que Te Faz Sorrir”.

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Após treze anos de estrada, a banda quer ser grande, mesmo estando em um momento avaliado pelo vocalista como ruim para o rock nacional.

“Você liga o rádio e só toca pop internacional. É por isso que o rock no Brasil precisa se disfarçar de pop para poder fazer sucesso”, diz o vocalista, acompanhado de Mário Camelo (teclado), Bell Ruschel (bateria) e Gustavo "Vavo" Mantovani (guitarra).

Além de sair da Universal, a Fresno ainda teve de lidar com outra baixa antes de gravar “Infinito”, em 2012. Em abril, o baixista Rodrigo Tavares decidiu deixar a banda para seguir com seus projetos solo.

“Foi uma surpresa para nós, mas a gente sabia que não tinha volta, porque foi uma decisão pensada. Nós ainda nos vemos quase toda semana, somos amigos. É isso. A história é muito mais simples do que as pessoas imaginam”, explica Vavo.

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Prestes a subir ao palco para lançar “Infinito” oficialmente, esta terça-feira (27) na boate Beco 203, em São Paulo, a Fresno falou ao iG sobre rock nacional, o novo disco, a fórmula de sucesso de Rick Bonadio e sua situação financeira. “Ninguém aqui morre de fome, mas ninguém ainda tem casa própria”, diz Lucas. Leia e comente:

iG: O que os fãs estão achando do novo disco?
Lucas Silveira:
Quando as gravações terminaram, nós acreditamos que o “Infinito” é o nosso melhor disco - mas eu nunca achei que um fã nosso fosse dizer isso. É normal o cara se apegar ao disco pelo qual ele conheceu a banda, porque aquelas músicas foram a trilha sonora de um momento especial da vida dele. Entretanto, os nossos fãs tem recebido bem o “Infinito”, e com 15 dias de lançamento eles já estão cantando todas as letras das músicas novas nos shows.
Gustavo Mantovani: Fã é sempre suspeito. Ele vai gostar da banda mesmo que o disco tenha só gritos e socos na parede. O “Infinito”, porém, tem conquistado gente que não costuma ouvir a banda. Tenho escutado muitos elogios de gente que não é o nosso público alvo.
Lucas Silveira: Por outro lado, hoje os fãs são os nossos críticos mais ferrenhos. Tem uma facção deles que quer que a gente vire o Sepultura, enquanto outra quer que a gente vire Sandy & Junior. Na verdade, nós somos um pouco dos dois! (risos)

Atualmente, a Fresno conta com Gustavo Mantovani (guitarra), Mário Camelo (teclado), Lucas Silveira (vocal) e Bell Ruschel (bateria). Foto: Bruno Zanardo/FotoarenaAlém de Lucas Silveira, o guitarrista Vavo (à esquerda) é o único remanescente da formação original da banda, datada de 1999. Foto: Bruno Zanardo/Fotoarena"Nós achamos que valia mais a pena seguir sozinhos", conta Lucas sobre o fim do contrato da Fresno com a Universal Music. Foto: Bruno Zanardo/Fotoarena"Ser independente é assim: se tudo der errado, o problema é nosso, mas se tudo der certo, só a gente que lucra", diz o guitarrista Vavo. Foto: Bruno Zanardo/FotoarenaEm 2012, o vocalista da Fresno não teve tempo de se dedicar a seus projetos paralelos Visconde, SIRsir e Beeshop. Foto: iG São PauloFormada em 1999, a Fresno foi uma das primeiras bandas brasileiras a usar a internet para se tornar conhecida do grande público. Foto: Argosfoto/MTVA banda se tornou um sucesso ainda maior ao gravar dois discos com o produtor Rick Bonadio - "Redenção", de 2008, e "Revanche", de 2010. Foto: - DivulgaçãoOutro momento clássico da Fresno foi o encontro com a dupla Chitãozinho e Xororó no VMB - juntos, eles cantaram "Evidências", hit dos sertanejos. Foto: DivulgaçãoEm 2010, a banda tocou pela última vez em um estádio, ao abrir para o Bon Jovi em SP. Foto: Luciano Trevisan"Não existem bandas brasileiras que tocam em estádio. O Jota Quest, por exemplo, quando vem a SP, toca para dez mil pessoas", comenta Lucas. Foto: DivulgaçãoA banda em 2011 - ainda com o baixista Rodrigo Tavares, mas sem o tecladista Mário Camelo. Foto: DivulgaçãoO último trabalho de Tavares com a Fresno foi o clipe de "Sentado à Beira do Caminho", gravado em março. Foto: Divulgação

iG: Para vocês, sobre o que esse disco quer falar?
Lucas Silveira:
O principal assunto desse disco é a superação. Mas, além da superação, nós queremos falar sobre os desafios que foram colocados nas nossas vidas. Ser artista é lidar com o fruto da sua criatividade, e com isso você fica sujeito ao julgamento de qualquer um. É algo que mexe com o teu ego. Por outro lado, nós somos apenas uma pessoa no meio de seis ou sete bilhões nesse planeta. Nós não somos quase nada, se você parar para pensar. Quando você pensa nisso, você chega à conclusão que os seus problemas não são nada demais, e que é preciso ir lá e resolvê-los! É isso o que nós estamos fazendo agora.

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"Single, para mim, tem de ser a melhor música do disco, não aquela canção que tem três minutos, e uma estrutura refrão-verso-refrão", diz o vocalista da Fresno

iG: Desde o último disco da banda, “Revanche”, de 2010, vocês deixaram de fazer parte da Universal e voltaram a ser uma banda independente. Como foi a saída de vocês da gravadora?
Lucas Silveira: No meio do nosso relacionamento com a Universal havia a Arsenal Music, o selo do Rick Bonadio. Assim como várias bandas, nós saímos da gravadora em um momento de reformulação dos contratos deles. Nós tínhamos a opção de ficar por lá e a opção de seguir o nosso caminho, e nós achamos que valia mais a pena seguir em frente sozinhos.

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iG: O que foi proposto para vocês continuarem lá?
Lucas Silveira: Eles deixariam de nos ter como artistas contratados - cada disco ia ser parte de um projeto. É uma porta que nós ainda temos aberta. Se nós precisarmos e acharmos que vale a pena, podemos voltar para a gravadora.
Gustavo Mantovani: Estamos em um momento que as gravadoras já não tem mais tanto dinheiro para investir nas bandas - nossa estrutura é quase a mesma com ou sem eles. Por outro lado, nós também não oferecemos um grande retorno para eles. Ninguém brigou com ninguém, de forma alguma. Uma coisa que fez diferença é que, nos tempos da Universal, saía muito caro para nós vender o nosso CD nos shows - é algo que rende bem para a banda e é muito legal para o público. Sozinhos, podemos vender o CD ao preço que a gente quiser.

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iG: E com o Rick Bonadio, tudo aconteceu bem também?
Lucas Silveira: Sim! O Rick tem uma linha de pensamento muito bem definida. Nós nunca concordamos com ela 100%, mas por muito tempo caminhamos juntos. Mas chegou uma hora que nós diferíamos dele, e cada um achou melhor ir para o seu lado. Ele pedia para nós fazermos 30 músicas, para escolher 13 que iam para o disco. Não gosto disso, porque acho que estou desperdiçando material. Além disso, todo disco nosso tinha de ter seis possíveis singles. O single pode ser uma música boa, mas fazer uma música para ela ser single é uma coisa muito difícil. Para mim, o single tem sempre de ser a melhor música do disco, mas não é isso que acontece sempre. Hoje, single é uma música que tem três minutos e uma estrutura de refrão-verso-refrão. É uma matemática difícil fazer isso - especialmente no rock.

iG: Falta ousadia às rádios brasileiras?
Lucas Silveira: As rádios precisam dar mais espaço para as bandas brasileiras. Nas rádios pop, poucas são as bandas daqui que têm espaço. É só pop internacional. Nas rádios populares, só toca sertanejo, pagode, o que é realmente popular, e aí nós não entramos mesmo. Aqui em São Paulo, a rádio rock só toca rock clássico. Nós vivemos no menor espaço que existe. Acho que foi um pensamento que tomou conta das rádios: a busca pela “primeira da audiência” fez todas as músicas ficarem parecidas, uma rádio copiando a outra. Aí, às vezes, uma música nossa é muito diferente do pop das rádios e acaba não tocando. É por isso que o rock no Brasil se disfarça de pop para poder tocar na rádio. Se não for assim, o rock vira underground, e aí eu vou ter que voltar a dividir um flat com os outros caras da banda e nem vou pensar em ter um filho. Ou vou virar publicitário e trabalhar a semana inteira, e fazer shows só no fim de semana. A gente transita em um labirinto que é cheio de ruas sem saída.

Reprodução
"Infinito" é o sexto álbum de estúdio da banda - e o primeiro após o rompimento com Rick Bonadio

iG: Como é ser considerado uma banda grande de rock hoje em dia?
Lucas Silveira: O que eu vejo hoje é que ninguém fala muito de rock. O moleque que quer montar uma banda só conhece coisas antigas através do Guitar Hero. Além disso, as bandas que surgem no Brasil ou são muito alternativas ou já aparecem com a ideia fixa em fazer sucesso, antes mesmo de gravar o primeiro disco. Isso é triste, e não ajuda a formar uma cena de verdade, como aconteceu nos anos 1980. As pessoas dizem: “é, o rock está em crise, vamos esperar voltar...”. Esperar o quê, meu? Não acredito nisso.

iG: Como é a situação financeira de vocês hoje?
Lucas Silveira: Ninguém na banda morre de fome, mas nenhum de nós comprou o seu apartamento. A imagem que as pessoas têm da gente quando nos veem cantando em grandes festivais é muito diferente disso, né?. No rock circula bem menos grana - existem DJs desconhecidos por aí que ganham o cachê médio de uma banda de rock brasileira, às vezes até mais. Não é fácil - e nós não somos caras ambiciosos, não queremos andar com carro do ano nem ter uma mansão e um jatinho. As contas fecham no final do mês, mas você tem que correr atrás de tudo.

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iG: Em 2012 vocês tiveram de lidar também com a saída do Tavares. Como foi o momento em que ele falou que queria deixar a Fresno?
Gustavo Mantovani: Depois de um fim de semana com três shows, ele chegou para nós e disse que queria tocar os projetos dele, voltar a tocar guitarra e cantar. Ele sabia que a gente ia começar a gravar um disco, e preferiu sair antes para não atrapalhar. Foi melhor do que se ele tivesse resolvido sair no meio de uma turnê. Foi uma surpresa, mas a gente sabia que não tinha como ele voltar atrás. É isso. A história é muito mais simples do que as pessoas imaginam.

iG: Quem toca o baixo no disco e nos shows?
Lucas Silveira: No disco, fui eu. Nos shows, a gente usa um baixo pré-gravado. Sai um som incrível do mesmo jeito.

Divulgação
Em abril, o baixista Tavares deixou a Fresno. "Fazia falta para mim ter o meu lance", disse ele ao iG na época

iG: Está nos planos de vocês ter um baixista na banda de novo?
Lucas Silveira: Não está descartada a ideia de termos um novo baixista, mas não está nos nossos planos fazer isso agora. Nós quatro somos a Fresno. Já foi difícil nos unir como banda nos últimos tempos - se a gente tivesse mais alguém, ia ter de fazer essa pessoa se unir à banda também.
Gustavo Mantovani: O novo baixista teria de fazer uma renúncia: ele deixaria de ter a vida dele para fazer parte da vida da Fresno. Não é fácil, cara. É um trabalho difícil. Você rala a semana inteira, e quando chega o fim de semana, em vez de descansar, você trabalha mais ainda - em cima do palco. O Bell perdeu o casamento do irmão dele, não pode ir a três enterros dos avós dele desde que ele entrou na Fresno. É uma renúncia de verdade.

Luciano Trevisan
Em 2010, a Fresno abriu o show da banda Bon Jovi, em São Paulo

iG: E como está a relação de vocês com o Tavares hoje?
Gustavo Mantovani: Está tudo certo. Ontem mesmo eu fui no show da banda que ele tem com o Bell, a Abril, e foi muito legal. Antes do show a gente ficou perseguindo o carro dele, fazendo piada.
Lucas Silveira: A Fresno tem dificuldade de fazer inimigos. Tem um monte de gente que não gosta do que a gente faz, mas inimigos, de não poder ver a cara em uma festa, a gente não tem nenhum.

iG: “Infinito” é um disco que tem muitas ideias ousadas para uma banda de rock: coral infantil, arranjos de orquestra, músicas longas e diversas quebras de andamento. De onde veio tudo isso?
Lucas Silveira: Para nós, é importante ter uma música ou outra que entre nas rádios, mas é bom ter a liberdade para fazer coisas novas, da mesma maneira que acontecia quando a professora dava aula de “desenho livre” na escola. Não é uma experimentação á toa: se a música [“Vida (Biografia em Ré Menor)”] dura 7 minutos, é porque nós precisamos de 7 minutos para contar essa história da maneira que a gente queria.

iG: Os refrões do disco, porém, parecem ser feitos sob medida para serem cantados em estádios inteiros, mas nenhuma banda nacional costuma tocar nesses lugares. Como vocês lidam com isso?
Lucas Silveira: Nós só tocamos em estádios quando abrimos para o Bon Jovi, ou no Pop Rock Brasil, de BH. E isso acontece com todo mundo: vez ou outra acontece um show grande, como em alguma feira no interior do país, ou em um festival como o Planeta Atlântida, mas é difícil. O Capital Inicial e o Jota Quest, bandas que são de duas gerações antes da nossa, quando vem para São Paulo tocam em um lugar para 10 mil pessoas. É por isso também que a gente precisa de mais bandas, de uma cena mais forte: a Fresno, o NX Zero e o Strike não vão liderar sozinhas uma cena de rock em um país que tem 200 milhões de habitantes. Nem deve ser assim. Existem milhares de bandas de rock no Brasil hoje em dia, e bandas boas, mas elas são desconhecidas. São bandas que não falam para um público grande do jeito que a gente fala.

SERVIÇO
Show de lançamento do disco "Infinito" em São Paulo
Onde:
Beco 203 - Rua Augusta, 609 - Consolação, São Paulo (SP)
Quando:
 terça-feira (27), às 21h30 horas - abertura da casa às 20 horas
Quanto:  de R$ 30 a R$ 60

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