Irmãos Jackson da Avenida Paulista: “Na nossa casa o Michael continua vivo”

Dupla de adolescentes fica famosa imitando o Rei do Pop na calçada mais movimentada de São Paulo

Gustavo Abreu iG São Paulo | - Atualizada às

Felipe e Matheus chegam à Avenida Paulista com pressa, já com o figurino no corpo. Acompanhados de um primo, descem na estação Consolação, uma das mais movimentados de São Paulo, arrastando a caixa de som em um carrinho de feira. A poucos passos dali, na calçada em frente ao shopping Center 3, eles ajeitam as meias brancas pela última vez, como se estivessem a ponto de encarar o Morumbi lotado.

“Posso começar?”, pergunta Matheus, o mais velho, de 16 anos. Com a positiva de Felipe, 14, ele aperta o play para o irmão dar o início ao espetáculo. “Billy Jean” começa a ecoar alto pelos prédios do quarteirão e dezenas de curiosos se aglomeram para assistir ao show dos “irmãos Jackson da Avenida Paulista” .

Edu Cesar / Fotoarena
Matheus dança "Billie Jean" na calçada do shopping Center 3, na Av. Paulista

Matheus dança e dubla uma versão ao vivo da faixa, tirada de “Thriller” , do superstar Michael Jackson . Ele divide a calçada com transeuntes, garis, policiais e skatistas. Na mão direita, o estudante usa uma luva brilhante, como a que Michael usou em 1983 no aniversário de 25 anos da gravadora Motown, quando apresentou ao vivo pela primeira vez o “ moonwalk ”. Matheus, é claro, executa o passo sem grandes esforços.

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Depois dos aplausos, é a vez de Felipe. “Eu sou o Felipe Jackson, meu irmão é o Matheus Jackson e nós somos os irmãos Jackson da Avenida Paulista. Agora vou dançar ‘ Dangerous ’, música que deu nome a um álbum e uma turnê do Michael, de 1993, que passou pelo Brasil”, explica ele à plateia pelo microfone. “ Bad ”, “ Don't Stop 'Til You Get Enough ”, “ Beat It ”, “ They Don't Care About Us ”, entre muitas outras, completam o repertório.

Há dois anos os irmãos de São Miguel Paulista, bairro no extremo leste de São Paulo, fazem apresentações no mesmo local, todos os fins de semana. Enquanto um dança, o outro vira assistente de palco e passa pelo público com uma caixa de sapatos, para recolher contribuições. Em média, eles tiram cerca de R$ 100 por dia. “No Natal do ano passado ganhamos R$ 570 em menos de duas horas”, lembra Matheus.

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Com o dinheiro que arrecadam, os irmãos ajudam a mãe Eliane, dona de casa, a pagar as contas e fazer mercado. Também usam para comprar coisas para eles, como uma TV de LED de 42 polegadas, dividida no cartão em dez vezes, e o rack da sala. “Fora o que gastamos com figurino e coisas do Michael: DVDs, livros. Já lemos todos pelo menos três vezes cada”, diz Felipe.

A paixão pelo Rei do Pop começou há exatos três anos, quando ele faleceu. “Nossa mãe é muito fã dele, desde adolescente. Ela faz aniversário dia 26 de junho, um dia depois que ele morreu, e passou o dia inteiro chorando aquele ano”, conta o mais velho.

Para animar a mãe, Felipe e Matheus fizeram uma vaquinha e compraram um DVD de Michael ao vivo, e se sentaram na sala para assistir juntos. “Ficamos apaixonados na hora”, diz Matheus, o primeiro a se levantar do sofá para imitar o astro em frente à TV.

Edu Cesar / Fotoarena
Felipe e Matheus sonham em estudar dança um dia

Por meses, a dupla ensaiou em casa, mas só por diversão. “Um ano depois, num encontro de fãs do Michael no vão do MASP a gente descobriu um monte de admiradores dele. Até então éramos fãs solitários”, se recorda Felipe.

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A ideia de se apresentar em espaços públicos veio de uma amiga, que os irmãos conheceram num desses encontro de fãs. “Pegamos uma caixa de som emprestada e fomos pro centro de São Miguel. Só depois um hippie nos indicou pra tocar na Paulista”, diz Matheus. “Hoje esse é nosso ‘point’. Não saímos daqui por nada”, completa o irmão.

Incentivados pela mãe -- ela os acompanha na Paulista em quase todos os fins de semana --, hoje a dança virou a maior paixão de Felipe e Matheus. O mais velho, inclusive, sonha em fazer faculdade de Artes do Corpo, enquanto o outro quer Biologia. Ainda tem o mais novo, Davi, de 8 anos, que também está aprendendo os passos do Rei do Pop e de vez enquando se arrisca na calçada.

“Na nossa casa o Michael continua vivo”

“As pessoas acham que ele era um palhaço, uma aberração. A mídia construiu uma imagem errada dele. Só mostravam o lado bizarro”, diz Felipe, quase irritado. Os estudantes explicam que o objetivo deles como covers de Michael Jackson é provar que o popstar era um artista de verdade e merece ser reconhecido por isso. “Não só pela arte, mas também pelo lado humanitário.”

Edu Cesar / Fotoarena
Além de imitar Michael, eles são irmãos normais: gostam de jogar bola, ouvir música e brigar de vez enquando. Matheus namora, Felipe ainda não

Depois de tanto tempo se apresentando, hoje a dupla nem se dá mais o trabalho de ensaiar. Mas garantem que em casa escutam Michael Jackson 24 horas por dia. “Na nossa casa o Michael continua vivo. Você sente que ele não morreu”, comenta Felipe, completando que a parte mais difícil de imitar o cantor são as expressões, olhares e caretas. “Os passos são fáceis, todo mundo sabe”, brinca Matheus, quase modesto.

Tanto sucesso na avenida mais movimentada do Brasil renderam bons frutos aos inseparáveis de São Miguel, além do dinheiro. Eles já apareceram na TV, sempre dão autógrafos na rua e Matheus até arranjou uma namorada.

Mas falta um desejado curso de dança que eles infelizmente ainda não podem pagar. “O Michael tem uma frase que sempre digo: ‘você pode sempre sonhar, e seus sonhos podem se tornar realidade. Mas você tem que fazer eles virarem realidade’”, diz o mais velho.

Para celebrar o aniversário de três anos da morte de Michael, nesta segunda-feira (25), Felipe e Matheus planejam ficar em casa, de luto.

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