Nerds saem do grupo dos excluídos e viram padrão de comportamento

Antes no escanteio, hoje os nerds batem o maior bolão: são estrelas de eventos milionários e fazem empresas se moldarem às suas preferências. Comente!

Nathalia Ilovatte , iG São Paulo | - Atualizada às

Reprodução
Os personagens nerds da série "The Big Bang Theory", que já ganhou prêmios no Emmy e Globo de Ouro

Era uma vez um mundo sem internet, em que ser nerd significava ficar de fora das turmas legais na escola, ser motivo de riso e ter um gosto para livros, filmes e músicas no mínimo excêntrico para a moda da época. Porém, dos anos 2000 para cá, com a popularização monstruosa das redes sociais e de séries como “Glee” ou “The Big Bang Theory”, e a comprovação de que estão no centro de movimentações bilionárias, eles conseguiram ganhar a atenção de grandes marcas, o coração das meninas e virar um grupo superlegal -- não necessariamente nesta ordem.

INFOGRÁFICO: Veja a diferença entre os nerds antes e depois da internet

Os nerds conquistaram a cultura pop com inúmeros adeptos famosos, viraram referência fashion, inspiraram filmes indicados ao Oscar, dominaram as bolsas de valores e transformaram o futuro do empreendedorismo com suas startups.

Divulgação
Em "O Espetacular Homem-Aranha", Andrew Garfield interpreta Peter Parker, grande ícone da cultura nerd

Comunidade que não para de crescer

O festival de cultura digital youPIX, que começa nesta terça-feira (3) em São Paulo, é apenas uma prova disso. Após três edições - a primeira delas realizada em 2009 com 500 pessoas em um sobrado na Avenida Rebouças -, o evento espera receber 10 mil inscritos em três dias, no prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Diante disso, não dá para negar: ser nerd é o melhor negócio do momento.

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Outro exemplo é o evento de ciência e tecnologia Campus Party, cuja última edição, em fevereiro deste ano, movimentou R$ 25 milhões, entre ingressos, cotas de patrocínio e ações de marketing, e contou com 7.500 participantes. A primeira edição, realizada em 2008, teve 3.000 inscritos. Para o fim deste mês, está agendada a primeira edição da Campus Party Recife, que expande o evento internacional para mais um território.

“Há uma disputa muito grande entre os campuseiros para conseguir ingressos para a Campus Party. Não temos no Brasil um lugar para comportar todo o público, por isso estamos fazendo uma edição em Recife”, explica Mario Teza, diretor da Campus Party Brasil.

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De fato, os nerds representam um público cada vez maior e cheio de poder. O site Jovem Nerd, do carioca Alexandre Ottoni, foi criado há dez anos em tom de brincadeira e hoje virou “case” de sucesso com três milhões de visitas por mês e patrocinadores que vão de sex shops a grandes livrarias. Atualmente o site tem podcast, loja virtual e uma rede social que, um mês após o lançamento oficial, já contava mais de 40 mil usuários cadastrados.

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“Nós começamos a entender que existe também um mercado em volta do que a gente faz”, conta Alexandre. “O sucesso da [loja] Nerdstore é mais uma prova de que esse mercado é funcional e muito bom de ser explorado”, afirma ele, que criou o site em 2002 por ser um nerd inveterado. “Assim podemos fazer com que a nossa paixão seja rentável”.

Amana Salles/Fotoarena
"Os nerds se tornaram bem vistos porque a tecnologia é o ponto principal das nossas vidas", explica pesquisadora

O nerd como ideal de comportamento na era da informação

Pessoas aficionadas por quadrinhos, “Star Wars” e outras nerdices típicas não são novidade. Por que, então, parecem ser a bola da vez? De acordo com Andrea Bisker, fundadora da agência de pesquisas Mindset, as pessoas que prezam pelo conteúdo estão em evidência porque estamos na era daquilo que elas mais gostam: a informação. “Os nerds se tornaram bem vistos porque a tecnologia é o ponto principal das nossas vidas: vivemos pensando em como será o futuro, qual vai ser o novo iPad, os novos gadgets”, afirma.

Amana Salles/Fotoarena
Cinco mil e quinhentas barracas no acampamento da Campus Party

Graças a isso, mesmo quem nunca se ligou em “Star Wars” começa a se empenhar para alimentar um lado Sheldon Cooper. “O nerd é o ideal de comportamento do momento, e você vê as tecnologias no centro dessa mutação”, explica Mari Messias, pesquisadora da agência Box 1824, especializada em tendências de consumo e comportamento jovem.

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Mas será que, como tudo o que é moda, um dia ser nerd vai perder a graça? “Como a tecnologia tem uma tendência a ficar ainda mais presente nas nossas vidas, acho que essa onda não vai passar. Nunca voltaremos a ser excluídos”, afirma a pesquisadora - e nerd. “Talvez um dia ser nerd deixe de ser uma coisa muito cool”.

O mundo se adapta para deixar o nerd no centro das atenções

Ser nerd também ficou mais fácil. Com a popularização da nerdice - veja o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, que passou de nerd esquisitão a ídolo e assunto de filme indicado ao Oscar -, as empresas começaram a prestar mais atenção nesse público e até a moldar seus serviços às exigências dele.

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Em maio deste ano, a Livraria Cultura lançou a Geek Etc Br, em São Paulo (SP), uma loja que reúne games, livros, quadrinhos e objetos temáticos, como canecas do Facebook e chaveiros do Angry Birds. “A princípio, todas as lojas da Cultura que forem abertas daqui em diante vão ter um espaço geek dentro delas”, afirma Igor Oliveira, coordenador do projeto.

Segundo ele, não houve uma pesquisa para levantar estatísticas sobre esse público, mas a equipe da livraria percebeu que as áreas de interesse nerd poderiam ser mais exploradas. “O video game hoje representa 5% do nosso faturamento, um número bem expressivo para uma categoria que começamos a trabalhar há apenas três anos”, diz Igor.

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Fila para o iPad em frente à loja da Apple em Shanghai

Quem também se movimentou para se adequar a esse público foi a rede de lojas FNAC, que notou um crescimento de 15% das vendas de artigos por ela considerado nerds - como celulares, computadores, games e acessórios - no primeiro semestre de 2012, em comparação ao mesmo período do ano anterior.

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De acordo com a FNAC, esse público faz questão de ter acesso às novidades em primeira mão, e por isso a loja tem usado cada vez mais o recurso da pré-venda, além de promover eventos de lançamento dos produtos em questão e avisar por e-mail aos clientes quando estarão disponíveis.

Para cativar os nerds, a empresa também passou a priorizar a informação sobre os produtos que vende, fazendo cobertura de eventos como a Electronic Entertainment Expo, feira internacional conhecida como E3. “Foi recorde de acessos e compartilhamento nos nossos perfis nas redes sociais”, informou a assessoria. “Ser nerd está diretamente relacionado a conhecimento, a querer buscar mais sobre alguma coisa, saber tudo sobre ela”, explica Mari Messias.

Os nerds como referência

Além de cliente em destaque nas lojas de livros e tecnologia, o nerd também ganhou o posto de crítico de novos produtos que podem ou não chegar ao mercado. De acordo com Mario Teza, a última edição da Campus Party contou com ações de marketing que permitiram aos campuseiros decidir quais produtos alimentícios seriam lançados nos meses seguintes.

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Mark Zuckerberg: de nerd esquisito a ícone

Na quinta edição do evento, os campuseiros puderam opinar, através de um jogo digital, sobre qual era o melhor sabor de um lanche. Os mais votados foram, de fato, produzidos e a Sadia colocou os novos Hot Pockets escolhidos pelos campuseiros nas prateleiras dos supermercados.

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Eles querem ser super-heróis 

“As marcas nos procuram muito para testar produtos e ideias. Se a ideia tem o mínimo de aprovação que as empresas querem dentro do evento, elas não têm certeza de que vai dar certo fora dali. Mas, quando é rejeitada pelos campuseiros, eles sabem que vai dar errado”, afirma Mario.

Segundo o diretor do evento, o perfil do nerd contribui para que ele se torne um testador de produtos. “É um público muito relevante para as marcas pensarem as suas estratégias e políticas. Esse mercado é cada vez é maior”, diz.

Veja alguns dos produtos mais vendidos pela FNAC, Livraria Cultura e Nerdstore:

"Simon's Cat", o livro mais vendido da Geek Etc Br. Foto: ReproduçãoLivro "Protocolo Bluehand: Alienígena" e baralho Copag Jovem Nerd, dois sucessos da Nerdstore. Foto: Divulgação"O Festim dos Corvos", quarto livro da série de George R.R. Martin que originou "Game of Thrones", o blu-ray da 1ª temporada: destaques da FNAC. Foto: DivulgaçãoTablets como o iPad lideram a lista de produtos mais vendidos da FNAC. Foto: Getty ImagesOs smartphones dividem com os tablets o posto de mais vendidos da FNAC. Foto: Getty ImagesO recém-lançado "Diablo III", para PC, é o jogo mais vendido da Geek Etc Br. Foto: ReproduçãoOs games, como o XBox, estão na lista dos principais produtos. "O video game hoje representa 5% do nosso faturamento", diz coordenador  da Geek Etc Br. Foto: DivulgaçãoSegundo a FNAC, a venda de acessórios para games, como o Kinect, é ainda mais alta que a dos consoles. Foto: ReproduçãoO jogo "Angry Birds - On Thin Ice" e a caneca "Bazinga!", inspirada em "The Big Bang Theory", são alguns dos produtos favoritos do público da Geek Etc Br. Foto: ReproduçãoNovo Macbook Pro. Os notebooks e desktops também representam boa parte das vendas das lojas. Foto: Getty ImagesO DVD do filme "Super 8" e o cubo mágico Rubik's são destaques da Geek Etc Br. Foto: Divulgação


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