Brasileiros mostrarão break "com sabor diferente" em campeonato no México

B-boys Xandin, Klesio e Luan falam sobre suar origens e explicam o que um bom dançarino deve ter

Bruno Capelas , iG São Paulo |

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O b-boy Klesio é um dos três representantes do Brasil na qualificatória latino americana que rola em setembro, no México

Conhecido como uma dança, o breakdance pode ser uma competição. No mês de maio, os b-boys (nome dado aos dançarinos de break) Xandin (Alexandre Duarte), Klesio (Kleson Silva Moreira) e Luan (Luan Carlos dos Santos) foram selecionados para participar da qualificatória latino americana do mundial de break, o Red Bull BC One Cypher, que ocorre em setembro, na Cidade do México. A final mundial, por sua vez, ocorre no Rio de Janeiro em dezembro.

Xandin, de Planaltina (DF) e Luan, de Bauru (SP), foram respectivamente os vencedores das eliminatórias de Brasília e de São Paulo, disputadas em maio. Klesio, por sua vez, foi escolhido pelos jurados dentre os outros competidores para representar o Brasil por seu alto nível técnico. Em 2011, ele chegou às quartas de final da etapa latino americana, disputada em Salvador, perdendo para o venezuelano Lil G, que foi vice campeão mundial.

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Xandin, vencedor da etapa de Brasília, foi campeão de skate antes de começar a dançar

Nascido nos anos 1970, nos Estados Unidos, e inspirado na música negra da época, o break espalhou-se pelo mundo, sendo muito difundido atualmente no Brasil, na Europa e em países orientais como Japão e Coreia. Klesio, que é de Brasília, afirma que o break dançado no Brasil é bem diferente do que se vê lá fora.

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“Se você for à Europa, vai ver que são poucos os b-boys de lá que dançam com alegria. No Brasil, não acontece isso”, afirma o brasiliense. Xandin segue nessa linha: “O brasileiro é um povo feliz. Para mim, é a mesma coisa que acontece no futebol. Nós temos a ginga, o drible, coisa que poucos gringos têm”, compara.

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Quatro tipos de movimento

Durante uma apresentação, um b-boy utiliza quatro tipos de movimentos: toprock, footwork, powermove e tricks. “Toprock é o primeiro movimento que a gente faz dentro da dança, baseados na música. Ele prepara os próximos movimentos”, explica Klesio. Já o footwork (em inglês, “trabalho com os pés”), como o nome diz, se baseia no uso dos membros inferiores e superiores, ajudando na transições entre os movimentos.

“O powermove é tudo aquilo que tem movimento, que gira”, diz o brasiliense. Por fim, os tricks são manobras avançadas com grau de dificuldade superior. “Um freeze é um exemplo de tricks. Nessa manobra, você congela o seu corpo, colocando o peso todo em cima de um braço, por exemplo. Uso muito isso para encerrar minhas séries”, define o b-boy.

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Luan, do crew Funk Fockers, de Bauru, diz que não se inspira no break brasileiro, mas sim na sua própria vida

A seguir, Klesio, Luan e Xandin falam sobre seu estilo de dança, comentam as expectativas que têm para a seletiva do México, e explicam como começaram a dançar. Eles também falam sobre o diferencial brasileiro no break, e dissertam sobre o que um bom b-boy deve ter.

iG: Quais são as suas expectativas para o campeonato no México?

Luan: Estou estudando espanhol e treinando bastante. Desde o segundo dia após a competição já comecei a treinar e estudar mais, com o meu grupo, e também com a minha namorada, que dança comigo. Quero fazer o meu melhor para representar o meu grupo no México.

Xandin: Vou dar o meu máximo para tentar cativar todo o público mexicano. Quando você vê toda aquela galera gritando e batendo palmas pra você, ajuda muito. Dá vontade de arriscar mais. Se você está nervoso, você se sente impulsionado a fazer coisas melhores, e dançar de um jeito mais bonito.

Klézio: Vou treinar muito. Tem vários b-boys bons indo competir, entre eles os outros dois do Brasil. Não vou dar mole para ninguém, e vou torcer pelos brasileiros. Se o Xandin enfrentar um cara da Colômbia, vou torcer para ele, porque ele é brasileiro e quero que ele se saia bem. Agora, se a gente se enfrentar, vira treta. Mas só dentro da pista.

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"Dormi até na casa do cachorro pra poder dançar. Minha mãe só me deixou praticar quando cheguei com dinheiro em casa", conta Klesio

iG: Como você definiria o seu estilo?

Luan: O meu estilo “gangsta” é inspirado nas gangues. Gangsta vem de gangue, vem de grupo. É um estilo que vem das ruas, de um ajudar o outro, de lutar pelo outro. Antigamente, não se chamava crew, se chamava gangue. Prefiro esse nome. O grande lance não é dançar bonitinho. É usar a malandragem, ter personalidade para mostrar aquilo ali.

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Xandin: Eu tenho mais facilidade com toprock e footwork. São os meus fortes. Comecei dedicar o meu treino para essas áreas, porque o meu grupo é forte em tricks e powermoves.

Klézio: O meu estilo complementa footwork, toprock, powermover e tricks, quatro direções de dança que eu tenho no meu trabalho.

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iG: O que os b-boys brasileiros têm de diferente?

Luan: Eu não me inspiro no break brasileiro, nem no break gringo. Respeito a essência dos americanos, mas minha vida e minha dança não são inspiradas na dança deles. Me inspiro no meu crew, na minha vida, na realidade que eu tenho.

Xandin: É a alegria. O brasileiro é um povo feliz, tem muita alegria. A gente se destaca por isso - no futebol é a mesma coisa, na música também. O gringo tem essa alegria, mas é diferente. Nós nos expressamos demais, acho que é uma coisa que só vendo para entender.

Klézio: Os brasileiros têm um sabor que os gringos não têm na dança deles. Se você for à Europa, vai ver que são poucos os b-boys de lá que dançam com alegria. No Brasil, não. Nós somos muito fortes, temos várias culturas. O samba, que é a alegria, o sorriso no rosto. A capoeira representa a energia do nosso corpo. Temos danças folclóricas, o frevo, vários ritmos alegres. E temos a malandragem. Um brasileiro, quando dança, gosta de brincar. Os gringos são muito bons na dança deles, mas falta feeling. Break é uma dança, e dança tem interpretação. Nós, brasileiros, temos muito isso no nosso sangue, e isso tem ajudado a gente a conquistar nosso espaço lá fora.

iG: Como e quando você começou a dançar?

Luan: Comecei a dançar no final de 2002, em Bauru, no interior de São Paulo. Eu fazia capoeira naquela época, frequentava algumas aulas, mas não era nada sério. Um dia, voltando da aula, vi os meus amigos treinando na calçada, em frente às lojas fechadas. Fiquei por ali e vi eles fazendo vários passos e movimentos. Não aprendi de primeira, mas depois comecei a frenquentar a roda e a cada dia fui gostando mais, e estou nessa até hoje.

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Xandin mostra o passaporte para a disputa no México, que rola em setembro: "Quero agitar todo mundo lá", diz o b-boy

Xandin: Comecei a dançar em 2007. Andava de skate antes de começar a dançar. Vi uns amigos meus com a porta da garagem levantada na rua da minha casa, e eles estavam dançando break. Eles me chamaram para ver, parei por lá e adorei. Desde então só tenho me dedicado à dança.

Klézio: Minha história começou em 2003. Eu estava na aula, e por um momento a professora saiu da sala. Os meninos do fundão afastaram as cadeiras e fizeram um espaço vazio no chão. Fui ver o que estava acontecendo, e eles começaram a fazer vários passos. Vi um deles girando de cabeça e foi uma coisa muito forte para mim, como ver uma menina muito linda e se apaixonar por ela. Foi amor à primeira vista.

iG: Existe preconceito quando você fala que dança break?

Luan: Como eu danço no estilo gangsta, muita gente pensa que usou drogas, mexo com armas e roubo. Não tem nada a ver com isso. Esse foi o estilo de vida que eu escolhi para mim. Posso parecer um malandro dançando, mas trato as pessoas bem, sou um cara sossegado.

Xandin: Na minha casa, sempre fui apoiado pela minha família, embora minha mãe sempre insistiu para que eu estudasse. Mas tive problemas em apresentações em Goiás, por exemplo. Era costume deixarem a gente se apresentar por último, porque falavam que o break era coisa de malandro, de vagabundo, não merecia respeito.

Klesio: Minha família não me deu apoio nenhum quando comecei a dançar. Minha mãe sempre achou que o break era dança de marginal, de traficante. Ela é evangélica, e vivia falando que o break era coisa do demônio. Sofri muito, fui contra a vontade dos meus pais pela dança. Cheguei até a dormir na casa do cachorro para continuar dançando. Dei a minha cara a bater. Minha mãe só me deixou dançar quando comecei a chegar com os troféus e dinheiro em casa.

Veja abaixo um pouquinho da dança de cada um dos b-boys que vão representar o Brasil na seletiva latino americana, em setembro, na Cidade do México. 

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