Pedro Bandeira dá desfecho à série Os Karas: "Os leitores estavam pedindo mais"

Por Natália Eiras , iG São Paulo |

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Autor paulista ficou famoso ao lançar os personagens em “A Droga da Obediência”, de 1984. Hoje, aos 72, ele lança o sexto e último livro dos detetives adolescentes, “A Droga da Amizade”. “O leitor vai saber o que eles viraram quando adultos”

Antes de séries de fantasia como “Harry Potter” e “Percy Jackson”, os adolescentes brasileiros tinham um grupo de heróis chamado Os Karas. Alçado a grande ídolo da literatura infanto-juvenil nacional, Pedro Bandeira demorou 12 anos para escrever o sexto -- e teoricamente o último -- livro dos detetives adolescentes, “A Droga da Amizade”, lançado nesta quinta-feira (28) na 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

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A demora se deu por conta de uma barreira tecnológica entre o mundo em que Miguel, Calu, Magrí, Crânio e Chumbinho foram criados, em que não havia Facebook ou internet, e o que os adolescentes de hoje em dia vivem.

“Fazer uma história no século 21 sem essas modernidades era impossível, ao mesmo tempo que Os Karas com estas tecnologias não seriam eles mesmo”, fala o autor em entrevista ao iG. “Achei que não ia dar, porque ficava falso sem eles.”

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Pedro Bandeira, 72, lançou o último livro da saga Os Karas na 23ª Bienal do Livro de SP

Aos 72 anos, o escritor lançou o primeiro livro da turma de heróis em 1984, em sua mais famosa obra, “A Droga da Obediência”. Ao longo dos últimos 30 anos e cinco volumes, toda uma geração de leitores foi formada acompanhando as aventuras dos garotos que solucionavam mistérios, ao mesmo tempo que tratava de assuntos como neonazismo, AIDS e ecologia. “Eles são os meus porta-vozes da pessoa que está deixando de ser adolescente e já quer mudar as coisas”, explica o autor.

Então, para continuar a saga d’Os Karas sem ignorar a tecnologia atual, Bandeira decidiu mostrar, na nova obra, o líder Miguel já adulto relembrando como conheceu os melhores amigos. “Meu leitor vai saber o que eles viraram quando adultos, com quem a Magrí casou, o que deu o Chumbinho, o que o Miguel se transformou”, conta, entusiasmado. E, claro, vai ter um crime a ser solucionado digno de uma história desta turma. “Vai ter uma aventura final, já com eles todos juntos, nos Estados Unidos, e é um caso de terrorismo”, adianta.

A motivação para escrever “A Droga da Amizade” o autor encontrou nos próprios leitores. “Eles estavam pedindo demais”, diz. E, apesar da dificuldade, Bandeira parece ter tomado gosto em retomar a história dos personagens. “Estou pensando, talvez, em uma história sobre a superpopulação da Terra. E com os Karas!”, exclama. “Vou inventar outros personagens? Ninguém vai acreditar!” Leia a entrevista completa a seguir:

iG: Por que decidiu escrever este desfecho?
Pedro Bandeira: Por causa da insistência dos leitores, eles estavam pedindo mais. Porém, havia uma grande dificuldade: Os Karas nasceram em um época que não tinha computador, Facebook, celular. Fazer uma história no século 21 sem essas modernidades era impossível, ao mesmo tempo que Os Karas com estas tecnologias não seriam Os Karas. Eu achei que não ia dar mais, mas as pessoas pediam muito. Eu tentei, tentei. Achei que não ia dar, porque ficava falso sem Os Karas. Os assuntos que eu trato nessa série das Drogas precisa deles como protagonistas, porque eles são os meus porta-vozes da pessoa que está deixando de ser criança, tomando contato com a realidade, mesmo sendo adolescente, vendo o mundo, os problemas sociais, já querendo atuar, querendo mudar.

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"A Droga da Amizade" chega às livrarias de todo o Brasil pela Editora Moderna

iG: É por isso que você trata de tantos assuntos atuais em seus livros?
Pedro Bandeira: Quando quis falar sobre ecologia, foram eles Os Karas em “Pântano de Sangue”, quando quis falar sobre o problema da AIDS, eram eles na “A Droga do Amor”, quando quis falar sobre a ditadura, o cala-boca, usei eles em “A Droga da Obediência”. Sempre quis falar sobre os problemas das relações internacionais, eram eles em “Droga de Americana!”. Então, quando tenho uma ideia para falar sobre esses assuntos, se eu criar com outros personagens, não tem tanta força quanto é com eles.

iG: Em “A Droga da Amizade” você mostra como Os Karas se conheceram. Como teve esta ideia?
Pedro Bandeira: Cheguei a pensar em fazer na modernidade, mas aí eu resolvi fazer o seguinte: como se passaram 30 anos desde o primeiro livro, e eles tinham 13, 14 anos na época, então hoje eles tem 40 e poucos anos. Aí resolvi fazer eles com 40 anos, com o Miguel relembrando de como ele conheceu o Crânio, como ele conheceu a Magrí. Vai ter vários mistérios e uma aventura final, já com eles todos juntos, nos Estados Unidos, e é um caso de terrorismo. Aí meu leitor vai saber o que eles viraram quando adultos, com quem a Magrí casou, o que deu o Chumbinho, o que o Miguel se transformou... é a grande surpresa, é a frase final do livro, que eu não vou contar agora. Vai ter que ler (risos).

iG: Quanto tempo demorou para escrever a nova aventura?
Pedro Bandeira: 12 anos. Comecei, joguei fora, reescrevi. Quando o livro é coerente, ele vai direto. Se não é, ele encrava e não sai. O livro estava pronto agora, em fevereiro, já ia imprimir e eu reescrevi inteiro. Dei para a minha amiga Marisa Lajolo ler. Ela me deu algumas dicas e eu reescrevi tudo de novo. Tem livro que entrego para a editora, assino o contrato, tiro e jogo fora porque não vai sair. Porque eu releio e acho ruim (risos)

iG: Hoje em dia, a literatura adolescente é fantástica, cheia de vampiros e bruxas. O que você acha sobre isso: bom ou ruim?
Pedro Bandeira: Esse que é o MEU problema: eu gostaria muito de fazer um livro fantástico. Gostaria de fazer um livro como a J. K. Rowling fez. Mas o problema é que este folclore não é brasileiro. Bruxa não é brasileira. Não posso fazer uma bruxa na Avenida Paulista, não posso fazer um vampiro na Penha. Entendeu? Isto não é nosso, isto é europeu. Então como vou fazer duendes? Quando você faz para criança é fácil, porque é só colocar um bichinho falando. Mas o vampiro, como eu vou usar isso? Não sinto que está no meu DNA. Então é um desafio que eu gostaria de fazer e talvez eu ainda vá achar um solução para este problema.

iG: Quem vai ler o novo livro dos Karas, os que cresceram lendo ou os adolescentes de hoje em dia?
Pedro Bandeira: Eles ainda estão lendo [os livros d’Os Karas]. Hoje eu vendo para meninos de 12 anos mais do que vendia há 30 anos, porque virou clássico. Alguns livros, apesar de antigos, viram clássicos e os meus viraram. Então eles continuam comprando e lendo. Por isso, talvez, eu tenha uma ideia que estou querendo trabalhar, um outro desafio para o jovem adulto, que é o problema da super população da Terra, e com Os Karas…

Reprodução
"Acho Harry Potter uma obra prima. Acho um gol de placa, a [J.K.] Rowling é maravilhosa"

iG: Tipo uma ficção científica?
Pedro Bandeira: Ainda não sei, mas eu estava querendo trabalhar. E TEM que ser com Os Karas…

iG: Por que?
Pedro Bandeira: Porque com outro personagem fica fraco, vou inventar outro? Ninguém vai acreditar. Eu quero Os Karas!

iG: E você acha que os adolescentes de hoje em dia são diferentes dos de antigamente?
Pedro Bandeira: Eles são iguais os adolescentes que assistiam as peças de Shakespeare quando o Shakespeare escrevia e vão ser iguais daqui dez séculos. Eu trato das emoções humanas.

iG: E você pensa em inserir mais a tecnologia nas suas histórias?
Pedro Bandeira: Eu até tentei uma vez trabalhar com tecnologia com Os Karas. Eu ia fazer um livro chamado “A Droga Virtual” e que ia ter hackers e etc. Mas à medida que eu ia escrevendo, os programas que eu usava mudavam. A internet muda a cada dia, a informática muda a cada dia. O livro ficava obsoleto muito antes de eu terminar. Então tive que diminuir muito e transformar na “Droga de Americana”. Diminui muito a parte de informática, deixei só um pouquinho de computador na mão da Magrí sequestrada (risos). Diminui, porque não dá.

iG: Já conversei com uma autora que disse que qualquer leitura é leitura. Não importa se você acha que um livro é bom ou ruim, se um adolescente está lendo já é ótimo. Acha que isto é verdade?
Pedro Bandeira: Se um adolescente lê o Padre Marcelo e gosta, por quê não? Se está lendo Paulo Coelho, por quê não? O problema é não ler. Não alimentar os pensamentos com um livro, com a literatura. Um livro bom é aquele que você acha bom, não que eu ache bom. Sou apaixonado por Machado [de Assis], para mim “Dom Casmurro” é uma obra que é difícil alguém chegar perto. Mas se um adolescente lê e não gosta, ele está certo. Para ele não é bom.

iG: Agora todo livro está ganhando uma adaptação cinematográfica. Já pensou em transformar as histórias dos Karas em filme?
Pedro Bandeira: Já assinei muitas vezes as autorização para fazer filme e a “A Droga da Obediência” sempre parou na questão do orçamento. Seria um filme muito caro. Precisaria de R$ 10 milhões, R$ 20 milhões e no Brasil não consegue esse dinheiro. Atualmente está na mão da Gullane e da Rec. Já foi aprovado pela Ancine, mas precisa conseguir que alguém coloque este dinheiro no filme. É uma quantia pequena para um filme americano, mas grande para um brasileiro.

iG: E os outros livros?
Pedro Bandeira: Ah, não sei. A Xuxa fez um filme sobre um livro meu e não ficou bom. O filme é muito ruim, péssimo. Horrível. Eles mexeram muito na minha história. Mudaram.

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Capa de "A Droga da Obediência", primeiro livro da série lançado em 1984

iG: Se for o d'Os Karas, você vai participar da produção?
Pedro Bandeira: Não vou. Dizem que se o autor participa da produção de um filme ele morre do coração. Porque o cinema é uma outra arte, então obrigatoriamente mexem. E obrigatoriamente o autor não gosta.

iG: Se você pensasse em um ator para fazer o Miguel, quem seria?
Pedro Bandeira: Eu pensei! Quando escrevo, eu geralmente pego alguém para fazer o personagem na minha cabeça. Quando criei o Miguel, eu pensei em um ator que agora está velho, mas ele se chama Emilio Estevez, do “O Clube dos Cinco”.

iG: Você tem 70 anos e ainda escreve para adolescentes. Você tem algum consultor adolescente? Você conversa muito com os seus leitores? Quem te ajuda a entender mais a cabeça dos adolescentes?
Pedro Bandeira: Olha o artista tem que ter sensibilidade. Preciso olhar para o adolescente e entender o que ele está pensando, como ele está se sentindo. Se eu não conseguir penetrar no coração dele, eu não sou um artista. Isto é um problema seu [o autor]. Você tem que se perguntar, com o coração, com os olhos e a sensibilidade. Claro que recebo muita carta, e-mails. Muita repercussão dos meus livros. Gente que escreve sobre como se identificou com a Isabel de “A Marca de uma Lágrima”. Você tem que ter sensibilidade, porque eu escrevi sobre uma menina apaixonada e eu sou um homem, como eu consegui tocar na alma do leitor? O artista tem que entender o outro.

iG: Qual é a dica para os novos autores?
Pedro Bandeira: Continuem escrevendo e lendo. Se uma pessoa quisesse ser um compositor, eu ia mandar ela estudar música a vida inteira. Compondo, descompondo, gravando, estudando, estudando.

iG: Qual seu livro favorito?
Pedro Bandeira: Dom Quixote. Talvez, Hamlet, Dom Casmurro. As poesias do Fernando Pessoa.

iG: Tem algum livro que os adolescentes de hoje em dia leem e que você gosta também?
Pedro Bandeira: Acho Harry Potter uma obra prima. Acho um gol de placa, a Rowling é maravilhosa. Queria ter dez anos lendo. Deve ser muito emocionante, é lindo, é maravilhoso. Se eu tivesse 10 anos, me apaixonaria. A Rowling faz tudo o que uma criança sonha. Ela sonha em ser invisível e tem uma capa lá da invisibilidade, que o Harry Potter veste. Ele é uma Cinderela, mora com os tios que o maltratam. E ele sai em busca da vingança pela morte dos pais. Ele tem todos os mitos. A Rowling merece o sucesso que tem.

iG: Você formou muitos leitores. Como se sente sobre isso?
Pedro Bandeira: Sinto que deu certo. O Brasil não lia, aí veio esta geração de escritores, a Ruth Rocha, e eles estão ávidos por ler. Fazem filas. Você olha a cara deles e eles tem 20, 22 anos e eles foram meus leitores. Leitores do Ziraldo, do Marcos Rei. e olha aí: serão para sempre leitores. E logo serão melhores do que os seus pais foram, seus avôs foram.

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